SINAIS DE FOGO – I LOVE NATAL – por Soares NOVAIS

 

Zé,

quando amanhã, pela noitinha, desembrulhares o frasquinho do Chanel nº 5, a caixa de bombons, os gorros, os cachecois, as luvas, as camisolas de marca, feitas por mão de obra escrava, as peúgas, o telemóvel 4G, que pagarás em suaves mas longas prestações mensais, dirás: I love Natal!

Com a pança cheia dormirás, depois, o sono dos (in)justos! Daqueles que não se apoquentam com os mortos no Afeganistão e na Síria, com os crianças famintas de África, com as meninas e os meninos abusados pelos pedófilos da Igreja, com as lei xenófobas de Trump, com os polícias norte-americanos que matam pretos com a mesma facilidade com que emborcam “Bud’s”, com o muro erigido pelo estado terrorista de Israel que há muito aprisiona o povo palestino na Faixa de Gaza, com os migrantes da América Central obrigados a permanecer acantonados na cidade mexicana de Guadalajara, com os milhares de mulheres e homens e crianças cujos corpos jazem no fundo do Mar Mediterrâneo.

Dir-me-ás que lamentas, mas que isso se passa lá longe. Mais longe do que a tua vista alcança. Tretas, pois tu dizes que és um ser humano global, dado às mais modernas tecnologias, com plasmas que te enchem a cabecinha com famosos e socialites, presidentes, primeiro-ministros, reis e rainhas, jogadores da bola e comentadores especializados, em tudo e mais alguma coisa. Não, não és um ser humano global: formataram-te para só veres aquilo que eles querem. E tu aceitas. Mas tu sabes, ou devias saber, que a miséria está à tua porta. E que aflige os desempregados e os trabalhadores que mesmo recebendo salário não conseguem viver dignamente. E também sabes que os velhos, os teus velhos, os nossos velhos, estãocondenados a (sobre)viver com meia dúzia de euros depois de uma vida inteira a trabalhar; e que muitos deles são agora despejados das suas casas por investidores que querem fazer de Lisboa e Porto os bordeis que os tornarão ainda mais donos e senhores de um país que já lhes vendeu as suas maiores e mais importantes empresas ao preço da uva mijona.

Zé,

tu sabes ou devias saber que o Natal se converteu no maior e mais lucrativo negócio dos mercadores que “Jesus expulsou do templo.” Mas não isso não te aflige nem importa. Tal como o grande filho da puta, depositarás uma lata de feijão no cesto de recolha de bens alimentares e lamentarás a morte de mais um sem-abrigo. Depois, cinicamente, proclamarás: “Quero um mundo mais justo.” E irás dormir de “consciência tranquila.”

As vítimas da guerras, as crianças abusadas, os velhos abandonados, os famélicos do mundo, os perseguidos por racistas e xenófobos, os trabalhadores sem-terra e sem tecto, agradecer-te-ão tão manifesta solidariedade. E eu, claro, desejar-te-ei um Bom Natal. Tu mereces. Obviamente.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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