CARLOS REIS – NASTÁLGICO – NATAL EM TIMES NEW ROMAN E JUSTIFY

 

Eu peço desculpa por não desejar um Santo Natal, umas festas felizes ou até mesmo um ano novo cheio de caspa e felicidades. Como todos sabem e estão fartos de constatar, mesmo sem o confessarem, o Natal, o nosso Natal já quase o não é mais. Não é nada, mesmo, não é coisa nenhuma, por mais tentativas ou voltas que cada um no seu íntimo ou no seu lar lhe queira dar ou valer. Com mais presentes, menos presentes, mais árvore ou menos presépio. Pai Natal e Menino Jesus inclusos ou ao desafio.

Já escrevi anteriormente todas as parábolas possíveis, todas as definições prováveis, todas as descrições hipotéticas de tal data, que dentro de dias se consagra e vai comemorar. Ou inaugurar. Especialmente na televisão, que é onde todos passamos o Natal. E ao contrário das personagens das belas histórias de Natal e do Walt Disney que me encantaram e de que sempre gostei, ao contrário das personagens dessas  histórias, as personagens deste pobre mundo, deste pobre país (que conheço ainda assim melhor que o mundo) já não sentem nem vivem o Natal, com aquilo que nos encantou em outros tempo, mais compostos em termos familiares e em termos de alguma autenticidade. 

O Natal hoje é um tempo de stress agravado, de obsessão de consumir, de estupidez colectiva. De ausência de afectos – como todos os que me lêem, sabem e voltam a constatar. Dos amigos que me lêem e que têm crianças pequenas por perto (netos, a maior parte de vós) eu não espero outra coisa que um fascínio de todos eles (netos ou filhos pequenos) igual ou melhor que o meu e os vossos, em outros natais das nossas íntimas memórias. Porque – como já o disse também em anteriores epístolas e volto a afirmá-lo – se estas crianças já não forem fascináveis e apenas se interessarem por negociar as playstations, os smartphones e os ténis de marca, está tudo perdido, não há nada a fazer, vão ficar exactamente como nós, os tais do stress, vão ficar em breve como os adultos, os do consumo e dos desafectos.

Eu nunca mais vou ao Natal, eu quase que o detesto por tudo o que ele representa, o que o maralhal pensa, como age e o que o faz correr assim, nesta compressão de tempo,  neste rascunho, nesta miniatura ou amostragem deste mês. O que o faz desviver, atabalhoar, atropelar-se,  dessorrir,  irritar-se.

Mas como eu suponho (e creio que suponho bem) que vocês nada têm a ver com o resto das turbas (clamor sem fim) só desejo que a passem,  à sinistra quadra,  o melhor possível,  com um bom bacalhau e (ou) peru, com amigos e família a condizer e que até possam beber por aí um copo à minha saúde. Que o vinho a mim não me faz mal.

Eu passo despercebido de mim mesmo e tenho pouco tempo e paciência para cear, nestas épocas festivas e febris.

Bem vêem, tenho de dar banho às renas, mudar as palhinhas e arrumar o presépio, pois a minha mãe e o meu padrasto não mexem uma palha (é daqui, do presépio, que vem a expressão) para arrumar esta barraca e só pensam em receber os Reis Magos e sacar-lhes as prendas. Um infortúnio, uma família desgraçada.

Carlos

Dezembro 2008

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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