“A PORTA”, de NELSON FERRAZ

 

deste lado da porta, nomes que não são.

 

 

um bosque de ponteiros

babando ferrugem

e algarismos cansados de números.

 

 

o sol espeta vértices quentes

nas perguntas sem dúvidas de sombra.

 

 

boiam letras no rio branco

e a página nada

sem respostas no corpo.

 

 

talvez uma luz que se procura

no brilho que já é

ainda seja o mapa que falta.

 

 

as definições interrogam as árvores

escutam o coração das pedras.

 

 

o aqui e o ali trocam de cabeça.

 

 

a chuva chove triste

antes da toalha enxuta do vento

que faz sentido.

 

 

parabéns a você e as velas

da barca estendem passadeiras

aos náufragos.

 

 

a certeza sábia de tudo arrefece

ao encurtar-se a estação tranquila.

 

 

é tempo de caírem as nuvens.

o chão é longe no voo

das coisas que nos prendem

com força.

 

 

boiam letras no rio branco

e a corrente são palavras

nascentes de uma foz

sem quase mar.

 

 

amor é uma legenda de mil línguas.

amor é a pena que vale a história inteira.

 

 

mas a tarde chega a este lado da porta.

e as manhãs esvoaçam para mais longe.

 

 

há cansaço regando a planície.

o silêncio traz a chave.

 

 

 

a porta.

 

 

do outro lado, alguém

espera sem bater.

 

 

.

 

nelson ferraz

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