A GALIZA COMO TAREFA – razão – Ernesto V. Souza

Vox populi, vox dei, eis, como sabemos, aforismo em latim, que já o Padre Feijó, seguindo aqueles eruditos, scotistas, ockaminstas, erasmistas e sanchistas, refutou sabiamente e em romance, no primeiro discurso do tomo primeiro do seu Teatro Crítico Universal lá nas primeiras décadas do fulgurante século XVIII.

Voz do povo. É curioso como a Direita espanhola tem por axioma ou por escudo a voz popular ou ideia da confirmação da razão, e das suas razões, por sucesso no corpo eleitoral. E como, em consequência, o seu programa parece focar-se no objetivo de canalizar discursos e energias para a consecução dos votos que permitam governar em toda a estrutura política e administrativa do Estado. O programa é o de menos, o discurso agressivo, gasalheiro e conservador.

Este apelo, esta identificação com o popular, está presente mesmo nos nomes dos principais partidos de direita que chefiaram este projeto em Democracia: o atual Partido Popular, sucessor daquela Alianza Popular, ambos desenhos da cabeça poderosa de Manuel Fraga, para épocas diferentes e que também figuram, mais dissimulados por causas da marca, na sua versão mais urbana, atual, orteguiana e de desenho: Ciudadanos e na mais saudosa, primária e sentimental: Vox.

Na realidade é tudo popular, o mesmo bloco popular de direita aglutinante, hierarquizada e monolítica, desenhado precursor por Fraga para ganhar e reter o poder, afortunadamente dividido hoje em facções por questões de desgaste e perda de poder, deputados, parlamentários, concelheiros e nomeadamente pela perda do Concelho e de poder na Comunidade de Madrid.

Não havia onde colocar tanta gente de confiança e começaram as lutas internas que levaram as divisões, cisões e fraturas. Mas pouco mudou, o velho votante, simpatizante e militante Popular, tem agora onde escolher.

E a gente nova? pois, há um crescente interesse na gente mais nova pelas posições de ultradireita, mesmo simpatias por um franquismo e fascismo que nunca se foi. Mas que vão fazer? sem expectativas laborais e profissionais, sem garantias de futuro num sistema de educação superior desesperante, esperpéntico e cada vez mais caro. Se já não podem ser nem-nem, que nas casas, após tantos anos de crise, não há quartos. E francamente, incutido como têm no cérebro desde a escola e os mass media, que o Comunismo foi um fracasso – atenção, um fracasso completo, não um outro totalitarismo – que fica para modelo de rotura e protesto radical?

A pirâmide etária espanhola, é bastante mais grosa nas franjas intermédias, entre os 40 e os 70 ano, enxergamos um espaço convulso de votantes oscilantes, descontentes, decepcionados, defraudados com o sistema e os partidos, e aterrorizados, de mais em mais pela crise económica e a perda de confiança e referentes.

Na Galiza, o mais provável é que o votante conservador continue apostando pelo modelo Fraguiano de unidade popular e direita hegemônica hierarquizada, garantido pela maquinária de poder caciquil fidelizado e rentabilizado e que não se deixem arrastar por experimentos e divisões. Isto pode, isso sim, derivar num paradoxo nas vindouras eleições, em discursos, em programas e em resultados, pois até para as Direitas, a Galiza é sítio distinto.

Agora, misturar o povo e a razão com deus é sintoma claro de insanidade, e enfim, já que o sonho dela produz monstros, elogiemos a loucura, são os tempos e vêm medonhos.

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