CARTA DE BRAGA -“de magos, políticos e dinossauros” – por António Oliveira

Tirando o fascista húngaro Viktor Orbán, Marcelo foi o único chefe de Estado ou de Governo europeu presente em Brasília, na posse do presidente do sétimo país do mundo (M.S.T., Expresso, 05.01), ‘Um encontro de irmãos!’ declarou ele no final

Mas até nem gosto desta nova família dele!

Não gosto porque, apesar de não o ter ajudado a trepar ao lugar que ocupa, até acaba por me representar e não quero nada com gente daquela!

Não vou especificar as razões (os jornais acrescentam três ou quatro todos os dias!) porque, a ver mesmo nos canais que temos, o tal familiar dele está a ultrapassar todas as marcas!

E também não gosto porque, seguindo Daniel Innerarity, um mal destas democracias que vamos tendo, ‘não é um sistema em que governam os entendidos mas é aquele em que governam os não entendidos e têm sempre a última palavra. Não acertámos ainda em equilibrar adequadamente a autoridade dos entendidos com os critérios da legitimidade popular

E não gosto, mesmo falando de eleições!

Continuo a pensá-las absolutamente necessárias, mas incomoda-me sabê-las praticamente reduzidas a meros exercícios de marketing político, totalmente auxiliado e apoiado nos algoritmos das redes sociais que, na prática e também, anulam totalmente a noção de isonomia (igualdade perante a lei) banalizando-a àquele vulgaríssimo ‘uns são mais iguais que outros!

Se nos dermos ao trabalho de assistir a algum debate parlamentar, mormente nas coberturas televisivas, poderemos ver uma qualquer ocorrência originar imediatamente um spot publicitário ou outro a funcionar como tal, mas a contar aparentemente com a conivência de todos, até por lhe saberem do consequente aproveitamento, quase sempre de acordo e em apoio da ideologia própria do canal.

Canal e canais com a preocupação visível de apresentarem tudo como sendo a ‘verdade’ que, por tanto ser afirmada, faz estranhamente lembrar a história do rapaz e do lobo porque, quando for mesmo verdade, já cá não deve haver ninguém com capacidade para acreditar!

E não acredita por já nem conseguir fazer apelo à memória! Como afirmou há dias o filósofo José Gil, ‘há uma erosão de tudo o que é a tradição. O passado está a ser engavetado, digitalizado e virtualizado, e cada vez menos lhe atribuímos uma realidade com peso. O passado é cada vez mais uma imagem que se transforma numa colecção de imagens enquanto objectos de consumo

Este facto, aparentemente pequeno, leva a outra questão maior: em entrevista recente, o historiador e escritor Yuval Noah Harari, autor de ‘Homo Deus’ e ‘Sapiens’, afirma ‘algumas das mentes mais brilhantes do planeta estão há anos a investigar como piratear o cérebro humano, para que sigamos determinados anúncios ou ligações, num método já usado para nos venderem políticos e ideologias

Mas sei, sabemos todos, como estas práticas podem levar a choques e confrontos, a ultrapassar muito as ideias que se possam ter dos conflitos entre potências. Agora passarão a ser entre os potentados do ciberespaço, cada qual a tentar destruir os muros e as barreiras alheias, tão ineficazes como foram a Maginot da 1ª Grande Guerra, o de Berlim saído da 2ª, ou o da fronteira do México, por enquanto ainda e só na cabeça do patético loiro americano.

Mas será esta realidade e a sua representação, a acentuar a já perigosa perda da importância do valor da palavra, pois a cultura mediática acabará por destruir tanto a cultura do saber popular como a do saber erudito, numa normalização em que língua é a moeda para trocarmos e perdermos a cultura nossa pelos imaginários que nos vão querer impor, por nisso residir o poder.

Temo vir a ter de me resignar ao que Woody Allen disse algures ‘o mago fez um gesto e desapareceu a fome; fez outro gesto e desapareceu a injustiça; fez um terceiro gesto e acabou a guerra. O político fez um gesto e desapareceu o mago!

Muito contribui para tudo isto sentir-me, exactamente como alguém escreveu há dias, ‘ao acordar, vi que o dinossauro ainda continuava aqui!

 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

2 comments

  1. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha

    Meu amigo, após a leitura do teu artigo, fico com um misto de admiração e sobressalto…Não quero seu “uma Velha do Restelo”, mas temo, seriamente, que estejamos em fim de ciclo,,,Os princípios e valores que nos formaram( e que nos orientam )perderam a bússola,,,Temo pelo Futuro1Temo pela civilização!O Homem há. – de autodestruir-se e só Fénix poderá acenar a quem restar, ao que restar…Pessimismo a mais?Se calhar…Oxalá seja!!!!!!!Um abraço para ti, com quem entrelaço as minhas interrogações!!!!
    Conceição Lima

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  2. António Oliveira

    Simone Weil, escreveu em 1936, mais ou menos isto – ‘esta civilização que tem tudo para a levar à destruição também tem em si tudo o que a pode salvar’
    Um regresso?

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