Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 5. O perigo do poder não controlado e outras lições de Versailles

Podemos estar a voltar ao multilateralismo primitivo de 1919, quando três homens numa sala tomaram decisões para o mundo inteiro.

versailles

Simon Kuper

O perigo do poder não controlado e outras lições de Versailles

(Editado por Gonzalo Raffo, 05 de Janeiro de 2019)

Há um século, três homens reuniram-se nesta sala para refazer o mundo, ainda que disso não tenhamos tido conhecimento.

A mansão parisiense na Place des Etats-Unis pertence agora a uma empresa de cristais de luxo, pertence à marca Baccarat. O pessoal com quem falei não tinha nenhuma ideia de que o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, emprestou a casa na Primavera de 1919. Não há lá nenhuma placa. No entanto, foi no seu salão que Wilson e os primeiros-ministros britânico e francês David Lloyd George e Georges Clemenceau se sentaram em poltronas ou se arrastaram sobre a tapeçaria em face de um mapa gigante da Europa enquanto redigiam o Tratado de Versalhes. O jovem diplomata britânico Harold Nicolson, que numa tarde os tentou aconselhar, queixou-se: “É terrível que estes homens ignorantes e irresponsáveis estejam a cortar em pedaços a Ásia Menor como se estivessem a dividir um bolo.

As negociações em Paris (só a assinatura foi em Versalhes) representam um caso de estudo sobre o multilateralismo primitivo. De Janeiro a Junho de 1919, esses três homens principalmente redesenharam por si mesmos os mapas do mundo. Eles ignoraram em grande parte os seus próprios conselheiros, e quase que ignoraram inteiramente o resto do mundo. O multilateralismo primitivo diminuiu depois de 1945, mas está hoje a regressar.

As nações vitoriosas da primeira guerra mundial não estavam preparadas para a paz, escreve Margaret MacMillan no seu livro Peacemakers Six Months that Changed The World, que é hoje autoridade nesta matéria. Mas os impérios russo, otomano e Austro-Húngaro tinham sido dissolvidos e a Alemanha tinha sido derrotada, de modo que repentinamente havia fronteiras a redesenhar.

Isto foi feito com pouca contribuição dos povos em causa. A Alemanha e a Rússia, recentemente bolchevique, não estavam representados em Paris. A China mal foi ouvida e as colónias do mundo ainda menos: um jovem auxiliar de cozinha no Ritz de Paris, Ho Chi Minh, nunca recebeu uma resposta à sua petição para a independência do Vietname. Os italianos e os japoneses estavam inicialmente à mesa das negociações, mas tiveram dificuldade em acompanhar as conversas em inglês e foram logo postos de lado. Os italianos abandonaram as suas exigências obsessivas por um pequeno Fiume (agora Rijeka croata).

A opinião pública nos seus respetivos países influenciaram os Três Grandes apenas sobre a Alemanha: os cidadãos e a imprensa exigiram que se castigassem os “hunos”. Mas os eleitores mal se preocupavam com as nações menos conhecidas.

Aos três líderes faltava-lhes concentração, tempo e conhecimentos. Clemenceau tinha 77 anos, era diabético e tinha sido ferido por uma bala de um assassino em Fevereiro, apesar de ter afirmado depois: “Acabámos de ganhar a guerra mais terrível da história, mas aqui está um francês que à queima-roupa erra o seu alvo seis vezes em sete. Wilson estava com pressa, apreensivo com a possibilidade de passar quase seis meses em Paris, uma estadia recorde no estrangeiro para um presidente dos EUA. Lloyd George debatia-se com a geografia: nem sequer sabia que a Nova Zelândia estava a leste da Austrália.

Às vezes, os três disputavam-se, especialmente no que dizia respeito ao Médio Oriente: “Você é o jovem mais malvado”, disse Clemenceau a Lloyd George. Eventualmente, a França conseguiu a Síria, e a Grã-Bretanha um Iraque inventado a partir de grupos étnicos hostis, ainda que isso contradiga o princípio de “autodeterminação” de Wilson. O trio inicialmente esqueceu-se completamente do Curdistão

Às vezes, as delegações de países menores eram autorizadas a entrar na mansão para apresentar os seus casos. Isto raramente correu bem. John Maynard Keynes, representando o Tesouro britânico, testemunhou a apresentação da Bélgica: Clemenceau dormia, Wilson olhava para o seu jornal e Lloyd George, fascinado pelo falso nome de um delegado belga, divertiu-se a compará-lo “com um número de outras vozes, humanas e animais, de que se lembrava”.

Mesmo que a conferência de Paris tenha sido uma verdadeira confusão, esta não deve ser responsabilizada por provocar a Segunda Guerra Mundial, argumenta MacMillan. A história convencional é que um tratado cruel indignou os alemães e provocou a vingança de Hitler. É verdade que os franceses começaram por exigir 44 mil milhões de libras em reparações de guerra à Alemanha, mas mais tarde desceram na sua exigência. MacMillan estima que, em 1932, a Alemanha tinha pago 1,1 mil milhões de libras (72 mil milhões de libras em dinheiro de hoje).

O maior problema com a paz era o ponto de vista de como a  encarar. O plano inicial para negociar com a Alemanha foi esquecido, pois os Três Grandes passaram meses a negociar entre si. Finalmente, os alemães foram simplesmente convidados a assinar o tratado, que incluía uma cláusula duvidosa e provocadora que considerava a Alemanha culpada pela guerra. Versalhes foi de facto um diktat para a Alemanha, diz o historiador Eckart Conze.

Se ao menos os pacificadores não tivessem tido tanta pressa. Nem sequer leram o tratado antes de o darem à Alemanha. Quase instantaneamente, Lloyd George e muitos outros britânicos e americanos lamentaram a sua dureza. “Demasiado rígido”, disse com muita mágoa Harold Nicolson. Mas não conseguiram suavizar o documento, em parte porque não havia instituições multilaterais permanentes onde essas coisas pudessem ser rapidamente resolvidas até aos menores detalhes. A Liga das Nações – uma criação de Wilson – foi criada em 1920, mas nunca conseguiu ajudar grande coisa. Só depois de 1945 é que surgiram organismos multilaterais fortes.

Hoje estão a perder influência. Os três homens mais poderosos do mundo têm todos uma notável independência de ação. Vladimir Putin e Xi Jinping detêm mais poder pessoal do que qualquer outro líder russo ou chinês em décadas. Donald Trump, um mau ouvinte, soa bastante à descrição de Keynes sobre Wilson: “Ele deixou-se fechar, sem apoio, sem conselhos e sozinho, com homens muito mais espertos do que ele próprio, em situações de suprema dificuldade”. Velhos dirigentes sem controlo juntos numa sala é um sistema primitivo que já tentámos antes.


Artigo original aqui

 O sexto texto desta série será publicado, amanhã, 17/01/2019, 22h


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