Manuel G. Simões
professor univ. aposentado
Carlos Loures pertenceu, muito jovem, ao histórico “Grupo Surrealista do Café Gelo”, sendo então, entre 1959 e 1960, um dos coordenadores da revista literária Pirâmide (3 n.ºs), que publicou textos inéditos de Raul Leal, António Maria Lisboa, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e de outros escritores surrealistas ou próximos desse movimento. De 1964 a 1966 foi o crítico de poesia do suplemento do Jornal de Notícias, do Porto, dirigido por Teixeira Neves. E é precisamente de 1966 a polémica entre Carlos loures e Mário Cesariny nas páginas do então Jornal de Letras e Artes, de Azevedo Martins, em que o primeiro não cancela a sua aventura surrealista, embora sublinhe a situação contextual que marcou a sua evolução literária. Neste aspecto, subscrevo quanto Carlos Loures já escreveu noutro lugar: «contesto o direito de críticos e historiadores literários, à boa maneira dos entomólogos, espetarem alfinetes nas obras com a classificação lineísta e latina do insecto» (Arma Carregada de Futuro, Lisboa, Colibri, 2017).
De então para cá, Carlos Loures publicou vários livros de poesia, organizou, entre outros projectos, a Antologia da Poesia de Trás-os-Montes e Alto Douro (1968), e publicou, no âmbito da ficção, a trilogia 1968 (Talvez um Grito, 1985; A Mão Incendiada, 1995; e Xadrez sem Mestre, 2012), para além da narrativa A Sinfonia da Morte (2008), talvez o romance que melhor retrata os episódios do Regicídio e da I República. E aqui chegamos à sua última proposta, um conjunto de narrativas breves[1], provavelmente escritas ao longo dos anos e agora certamente revistas pelo Autor.
O título explica por si só todo o discurso que Carlos Loures entendeu tornar explícito quando resume os vários textos a «subsídios para uma autobiografia verdadeiramente falsa», o que nos poderia colocar perante a contradição “autobiografia”, escrita pelo Autor, e o problema da veracidade, o que nos leva, desde logo, para o âmbito da ficção. Isto mesmo nos é declarado no texto que serve de introdução ao volume: «Porque não é fácil distinguir a verdade da mentira. Por vezes torna-se mesmo impossível. E, neste caso, a verdade é que ficção e realidade se encontram amalgamadas – muito do que aqui vou contar é autobiográfico – os textos dedicados ao bairro da Graça e à Rua do Desassossego são-no totalmente, os satiagrás e o Gargântua existem (ou existiram) e a sua gloriosa peregrinação decorreu como a narrativa regista. Porém não participei nessa epopeia». E na sua disquisição entre verdade e mentira, Carlos Loures socorre-se da felicíssima definição de Mário Quintana, poeta e jornalista brasileiro: «a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer».
O volume reúne dez narrativas breves, a que o Autor chama “contos”, embora as últimas quatro me pareçam mais crónicas, ainda que a fronteira entre os dois géneros seja, como se sabe, muitas vezes rarefeita. E as primeiras seis são, no conjunto, os textos em que o eu autobiográfico mais explicitamente se “expõe”, acentuando um teatro com cenas com todo o ar de “coisa vivida”. O primeiro texto, “Almofala, mágica Almofala”, participa também dessa conotação cronística, embora de forma mais abrangente e com uma narração que inclui implicitamente o outro, numa reconstituição do que foram os anos de 1942/1943 numa cidade como Lisboa, que necessariamente se estende a um país que sobrevivia entre dois fogos: «as bichas para comprar géneros», «as senhas de racionamento», «as janelas cobertas por fitas de papel dispostas em quadrícula» e onde a curiosidade de um menino contacta com manifestações do chamado “reviralho”, isto é, da resistência clandestina, neste caso os operários da Fábrica dos Tabacos, à propaganda do Estado Novo.
Não vou aqui deter-me sobre cada uma das histórias, aliás saborosíssimas e envolvendo grupos entre a adolescência e a idade adulta, com a passagem dos livros de Emilio Salgari para O Falcão de Malta, de Hammett, e a relativa «eficácia com que o nosso gangue passou a defrontar a cidade, as diabólicas hostes do mal, o poder e a repressão, em suma, as forças da lei que, de mãos dadas com a injustiça, governavam a cidade e o mundo» (“Sam Spade e as forças do mal”). Como pano de fundo sobressaem os cafés históricos de Lisboa, “Império”, Ribatejano” e “Restauração”, este a poucos metros do “Gelo”, lugares vigiados onde se planeavam diariamente revoluções que ficavam no plano da anarquia e do sonho.
Em todas estas histórias o eu é observador, também narrador, mas poucas vezes protagonista. Funciona até como uma espécie de razão ética, o que se poderia configurar como o eu-como-outro, visto que a memória do sujeito parece envolver uma figura colectiva, a de uma geração ou comunidade aqui objecto de representação, Neste aspecto o livro de Carlos loures é transversalmente percorrido por uma relação conflitual e latente, a qual, através da elaboração do discurso, tende a revelar as lacunas da História. Sem nunca o dizer explicitamente, este livro de memórias, representando embora uma geração, fala-nos de uma situação política para revelar as cicatrizes das experiências. E isto através da ironia e da componente de revolta anárquica, próprias da estética do surrealismo, a confirmar que nós somos o que somos pela soma das memórias.
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Uma das leituras mais interessantes e motivadoras que me vieram às mãos nos últimos anos!
Um conjunto de textos brilhantes, falsos ou não!
A.O.