PIER PAOLO PASOLINI, “A UM PAPA” – tradução de MANUEL SIMÕES

(1922 – 1975)

 

 

A UN PAPA

 

Pochi giorni prima che tu morissi, la morte

   aveva messo gli occhi su un tuo coetaneo:

a vent’anni, tu eri studente, lui manovale,

   tu nobile, ricco, lui un ragazzaccio plebeo:

ma gli stessi giorni hanno dorato su voi

   la vecchia Roma che stava tornando così nuova.

Ho veduto le sue spoglie, povero Zucchetto.

   Girava di notte ubriaco intorno ai Mercati,

e un tram che veniva da San Paolo, l’ha travolto

   e trascinato un pezzo pei binari tra i platani:

per qualche ora restò lì, sotto le ruote:

   un po’ di gente si radunò intorno a guardarlo,

in silenzio: era tardi, c’erano pochi passanti.

   Uno degli uomini che esistano percè esisti tu,

un vecchio poliziotto sbracato come un guappo,

   a chi s’accostava troppo gridava: «Fuori dai coglioni!»

Poi venne l’automobile d’un ospedale a caricarlo:

   la gente se ne andò, restò qualche brandello qua e là,

e la padrona di un bar notturno, più avanti,

   che lo conosceva, disse a un nuovo venuto

che Zucchetto era andato sotto un tram, era finito.

   Pochi giorni dopo finivi tu: Zucchetto era uno

della tua grande greggia romana ed umana,

   un povero ubriacone, senza famiglia e senza letto,

che girava di notte, vivendo chissà come.

   Tu non sapevi niente: come non sapevi niente

di altri mille e mille cristi come lui.

   Forse io sono feroce a chiedermi per che ragione

la gente come Zucchetto fosse indegna del tuo amore.

   Ci sono posti infami, dove madri e bambini

vivono in una polvere antica, in un fango d’altre epoche.

   Proprio non lontano da dove tu sei vissuto,

in vista della bella cupola di San Pietro,

   c’è uno di questi posti, il Gelsomino…

Un monte tagliato a metà da una cava, e sotto,

   tra una marana e una fila di nuovi palazzi,

un mucchio di misere costruzioni, non case ma porcili.

   Bastava soltanto un tuo gesto, una tua parola,

perchè quei tuoi figli avessero una casa:

   tu non hai fatto un gesto, non hai detto una parola.

Non ti si chiedeva di perdonare Marx! Un’onda

   immensa che si rifrange da millenni di vita

ti separava da lui, dalla sua religione:

   ma nella tua religione non si parla di pietà?

Migliaia di uomini sotto il tuo pontificato,

   davanti ai tuoi occhi, son vissuti in stabbi e porcili.

Lo sapevi, peccare non significa fare il male:

   non fare il bene, questo significa peccare.

Quanto bene tu potevi fare! E non l’hai fatto:

   non c’è stato un peccatore più grande di te.

 

(de “La religione del mio tempo”, 1961)

 

 

A UM PAPA

 

Poucos dias antes que morresses, a morte

   tinha posto os olhos num teu coetâneo:

aos vinte anos, eras estudante, ele servente,

tu nobre, rico, ele um rapazote plebeu:

mas os mesmos dias douraram sobre vós

   a velha Roma que se tornava assim nova.

Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.

   Girava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,

e o eléctrico de San Paulo atropelou-o

   e arrastou uma parte pelas linhas entre os plátanos:

algum tempo ali ficou, sob as rodas:

   alguma gente se reuniu em torno a olhá-lo

em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.

   Um dos homens que existem porque tu existes,

um velho polícia, desleixado como um “guapo”,

   a quem se encostava muito gritava: «Larguem-lhe a braguilha!»

Depois veio a ambulância dum hospital a carregá-lo:

  a gente dispersou, ficou qualquer frangalho aqui e ali,

e a dona de um bar nocturno, mais adiante,

   que o conhecia, disse a um recém-chegado

que Zucchetto acabara sob um eléctrico, finara-se.

   Poucos dias depois acabavas tu: Zucchetto era um

da tua grande grei romana e humana,

   um pobre bebedola, sem família e sem leito,

que girava de noite, vivendo quem sabe como.

   Tu não sabias nada: como não sabias nada

de outros tantos e tantos cristos como ele.

   Talvez seja feroz ao perguntar-me por que razão

a gente como Zucchetto era indigna do teu amor.

   Há lugares infames, onde mães e filhos

vivem numa poeira antiga, em lama de outra época.

   Precisamente não longe donde viveste,

à vista da bela cúpula de San Pedro,

   há um destes lugares, o Gelsomino…

Um monte talhado a meio por uma mina e, em baixo,

   entre um esgoto e uma fila de novos prédios,

um grupo de míseras construções, não casas mas pocilgas.

   Bastava apenas um gesto teu, uma palavra tua,

para que aqueles teus filhos tivessem uma casa:

   tu não fizeste um gesto, não disseste uma palavra.

Não te pedíamos que perdoasses Marx! Uma onda

   imensa que se refracta por milénios de vida

te separava dele, da sua religião:

   mas na tua religião não se fala de piedade?

Milhares de homens sob o teu pontificado,

   perante os teus olhos viveram em estábulos e pocilgas.

Tu sabia-lo, pecar não significa fazer o mal:

   não fazer o bem, isto significa pecar.

Quanto bem podias fazer! E não o fizeste:

   não houve um pecador maior do que tu.

 

NT: Modelo de poesia-testemunho, entre neo-realismo e neo-vanguarda, este poema quer testemunhar a contraposição entre a “religião” dos subproletários (“cristos”) e a “irreligiosidade” do neo-capitalismo, aqui representado pela Igreja, na pessoa do Papa (Pio XII).

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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