EXIGIR O QUE PARECE IMPOSSÍVEL por Luísa Lobão Moniz

Entre notícias de um jornal que prima por divulgar escândalos, a menina dos olhinhos pretos e brilhantes relembra passagens da sua vida enquanto criança, adolescente…enquanto Mulher e mãe de três filhos.

O nome dos filhos foi escolhido por ela porque queria que os nomes próprios tivessem sentido na família paterna e materna. As identidades dos seus três filhos foram moldadas pelos exemplos nas famílias de “gente séria”.

Os nomes das suas crianças foram escolhidos pelo afecto que sentia em relação a certos familiares.

O mais velho é Carlos porque é o nome do seu pai que morreu quando a menina era ainda muito pequena.

O pai era um homem bom.

A mãe negligenciara a sua relação com a filha, agora também mãe. Porquê? Não sabe.

O seu corpinho frágil foi durante sete anos sovado pelo seu cavaleiro! Porquê? Não sabe. Ele bebia e ficava assim, violento.

Não, não podia mais, afinal os seus filhos também estavam a ser vítimas dos socos e dos pontapés que ela levava.

Não, não podia, não pôde mais. Quebrou o círculo.

Deu a volta por cima, foi viver transitoriamente para uma casa de “abrigo”. Os seus filhos foram para uma instituição que trata muito deles.

Ela agora só quer ter uma vida bem longe do homem que tanto a maltratou!

Ela agora também quer ajudar outras mulheres que são vítimas de violência, seja ela qual for.

Nunca mais será maltratada.

Compreendeu, à custa do seu sofrimento, que os homens se sentem poderosos, que têm armas secretas à vista de toda a gente.

As sociedades vão-se modificando à custa de homens e de mulheres que vivem envoltos num ambiente de submissão, de medo, de falta de amor próprio… vivem envoltos num ambiente já construído pelos poderosos.

Para eles a mulher continua a ser “o descanso do guerreiro” ! Os filhos e as filhas continuam a ser “propriedade privada”. As crianças são dele e ele faz o que quer, até os pode matar!

Pode matar?! Quem lhe confere autoridade para decidir da vida ou da morte dos mais fracos, daqueles em que pouca gente acredita porque as crianças inventam “coisas” para… castigar os mais poderosos.

Não se pode negligenciar a força dos mais fracos, dos que não têm voz, nem para chorar.

A força das mulheres e das crianças anda muito subestimada.

A mulher pode bater com a porta, a criança pode crescer em silêncio até ao dia em que grita “não posso mais”.

A revolta faz parte do ser humano, a justiça faz parte do ser humano.

O ser humano está onde está outro ser humano.

Todos temos que dar as mãos e exigir o que parece impossível: uma educação baseada na inclusão, na liberdade da livre escolha que pode transformar, pelo menos, alguns comportamentos sociais.

 A igualdade de género faz parte da matriz humana. A violência contra os elos mais fracos da sociedade anda por aí porque deixam.

Quem deixa? Nós que continuamos a ficar indignados, mas sentados num sofá a fazer zapping para ver tudo o que for escândalo.

Não sei por onde começar, mas sei que as grandes mudanças sociais foram feitas porque alguém se revoltou, porque muitos acreditaram nos mais fracos mesmo sem ouvir as suas vozes.

A violência está a ser banalizada. Toda a gente bate e mata muita gente.

A divulgação da violência contra as mulheres, contra as crianças está a ser feita de modo a que a fraqueza, a desistência da comunicação de crime público está a ser mais forte do que a divulgação da força dos mais fracos.

A sanção judicial não faz eco, a sanção social está esquecida.

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