CARTA DE BRAGA – “tempos de vacas magras” por António Oliveira

Dada como verdade adquirida e sem grande contestação, a crise hoje vivida na maioria dos países europeus, foi motivada e decorre pela enorme perda de confiança das gentes, confrontadas com discursos e percursos políticos que são e estão muito longe de serem compreendidos, para poderem perspectivar futuros.

Gentes que continuam a sentir e a penar as inevitáveis e não esperadas consequências de uma globalização caótica, mormente as desigualdades que as arrastaram para uma quebra importante de rendimentos, particularmente sensíveis nas reformas e na proletarização crescente dos mais novos, consequência da quebra acentuada do valor do trabalho.

E, como afirmou há poucos dias a escritora e jornalista Rosa Montero, ‘hoje os filhos vivem pior do que os pais. O presente assusta, o futuro mede medo e, o mais trágico, é esse medo estar a gerar o ódio

A História é fértil em exemplos de classe médias empobrecidas e com poucas esperanças no futuro, atraídas e apanhadas facilmente pelos cantos fáceis e emotivos de sereias nacionalistas e populistas, a explorar-lhes medos e dificuldades.

Usam abertamente e sem quaisquer disfarces, a raiva e o ódio contra tudo o que lhes garantem ser as razões de tais medos e inseguranças, repetindo descabeladamente práticas e metodologias que já nos legaram horrores não esquecidos, nem apagados pelo tempo.

Uma situação, escrevia Soromenho Marques não há muito no “DN”, fruto das ‘políticas que esquecem os mais frágeis. Se a união monetária do euro continuar a servir para exportar carros para a China, à custa de “reformas estruturais” que liquidam os direitos sociais e promovem a injustiça entre gerações, então não haverá retórica idealista que resgate a Europa do beco sem saída, para onde a conduzem aqueles que a dizem defender

Perigos referidos também aqui ao lado, pelo filósofo e escritor Santiago Alba Rico, ‘uma democracia sem cidadãos, reféns do mercado, é uma sociedade dividida entre consumidores e consumidores falidos, onde a crise, ao aumentar o número dos falidos, deixou nua a crise mais profunda do sistema institucional e os limites das democracias de mercado

Do lado de lá do charco, José Mujica, o celebrado e antigo presidente do Uruguai, diz a mesma coisa com palavras muito mais simples, referindo o maior erro dos rotulados governos de esquerda da América Latina, ‘conseguimos até certo ponto, ajudar essa gente (pobres) a tornarem-se bons consumidores, mas não conseguimos transformá-los em cidadãos

E garante ainda o filósofo e sociólogo Daniel Innerarity, que já por aqui passou mais vezes, ‘se os nossos sistemas políticos se mostram incapazes de promover o crescimento económico sem resolver os problemas da desigualdade e garantir a segurança sem lesar os direitos humanos, a possibilidade de confiar em quem o prometa sem se preocupar muito com formalismos democráticos, está já a ser uma tentação irresistível em muitos lugares do mudo’.

Assim chegámos a tempos e espaços onde a compreensão e a tolerância têm vida difícil e, voltando ao texto e às palavras de Rosa Montero, este ‘é um tempo de vacas magras e os tempos de penúria são férteis em sacar o pior de cada um, num círculo vicioso e destrutivo

Esta Carta, pela quantidade e encadeamento das citações, poderá parecer pessimista, mas basta a qualidade dos autores para o editar em vez de um outro qualquer, até possível de resumir num muito mais simples ‘Está tudo bem! Tudo vai bem!

Mas, a ser assim, teria forçosamente de acrescentar ‘Mas não abram os olhos!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

One comment

  1. Amodmiã Ismael

    Aplaudo com ” ambas as mãos” esta carta de Braga. Tudo muito clarinho. O encadeamento das citações com nexo e perfeitamente lógico. Numa visão mais global das injustiças e considerando que os recursos do planeta são limitados eu só acrescentaria que os muito ricos terão de ser um pouco menos ricos para que os muito pobres possam se um pouco menos pobres. Por outro lado a preservação do ambiente tem custos que progressivamente devem ser assumidos pelos pobres e ricos.

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