CARTA DE BRAGA – “O PROBLEMA DOS ESPELHOS” por António Oliveira

Se procurarmos o termo ‘cultura’ mas evocando os clássicos, logo nos acode a conhecida proposição de Aristóteles ‘todos os homens, por natureza, desejam saber

Recorrendo depois aos modernos, ‘devemos definir cultura como o esforço da aquisição de um saber maior, para além do património espiritual, procurando a unidade do estilo artístico em todas as manifestações vitais de um povo’, deixou escrito Roland Barthes.

A cultura, vista assim, mesmo só recorrendo a estes duas sentenças, institui-se como fundamento integrador e humanizante por excelência.

Depois e evocando como antes se aprendia, era importante juntar teoria e prática mas, acima de tudo, olhar em volta para saber de culturas, para questionar, investigar e seguir os caminhos indicados por esse trabalho, por a vida ser também uma interrogação constante.

Hoje, neste mundo novo e tecnológico, o único que os jovens conhecem, saber é aprender a internet, as redes sociais e a conexão permanente, tendo a ‘certeza’ de já não existirem sem essa ligação, sem saber como isso não passa de um modo de apoucar e subverter Descartes!

E a indústria tecnológica, a mesma dos conteúdos, usa e ajuda a criar, distribui e expande os algoritmos necessários para nos manter agarrados aos ecrãs, principalmente aos de formato pequeno, porque os grandes já contam com a abstrusa companhia de pipocas e refrigerantes.

E assim se desaprende a leitura das imagens e até se recusam se não tiverem movimento, mais uns picos de emoção a espaços curtos e regulares, não se atende à ligação da imagem com o contexto por ela se ter transformado na própria totalidade e, se acontecer uma imagem única, um fresco ou uma tela, é para ser olhada rapidamente e de costas mas com selfie a testemunhar, por só assim se poder garantir a veracidade da presença como um verdadeiro acontecimento.

A verdade foi posta de lado por já não haver interpretação, substituída pelo testemunho da selfie exigida e própria dos ‘não-lugares’ da vivência virtual, esquecendo que as pessoas que apenas ali ‘existem’ acabam também por ser ‘não-pessoas’, por não ser concebível alguém ter dezenas, às vezes centenas, de amigos.

Mesmo tendo em conta a afirmação de André Maurois ‘a verdade é relativa’, este fenómeno global parece indicar a ausência de um sentido para a vida, cada um a confiar no facto de serem os tais amigos a atribuir-lho, pela visibilidade conseguida no pequeno ecrã.

Mas indica certamente o falhanço de um modelo educacional que procura formar diplomados obedientes, formatados, homogeneizados, mas fáceis de ordenar e comandar, como se pode ver todos os anos pelos indigentes e indignantes ‘passeios’ dos caloiros nas ruas das nossas cidades.

E também não são raras e nunca ocasionais as visitas de estudo às novas catedrais, os grandes centros comerciais, repetindo esquemas e metodologias com muitos séculos.

Não resisto, pela óbvia actualidade, a transcrever um pequeno excerto do ‘Discurso sobre a servidão voluntária’ de La Boétie, escrito entre 1546 e 1548:

Atrair o pássaro com apito ou o peixe com isco no anzol, é menos fácil do que atrair os povos para a servidão, pois basta passar-lhe junto à boca um engodo insignificante. Os teatros, os jogos, as farsas, os espectáculos, os gladiadores, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram, para os povos antigos, engodos de servidão, o preço da liberdade que perdiam, as ferramentas da tirania’ .

Como La Boétie, outros pensadores como o grego Castoríades, garantem que o capitalismo não quer autonomia por preferir o conformismo, ‘o seu actual triunfo reside no facto de vivermos numa época de conformismo generalizado, não só no que diz respeito ao consumo, mas também à política, às ideias, à cultura, etc.

Uma afirmação decorrente do facto de a cultura passar pela capacidade reflexiva e a reflexão exigir silêncio, pelo óbvio confronto entre as novas ideias e as outras já interiorizadas.

É por isso que se considera a cultura uma actividade ‘ruminante’, por pedir reflexão, inconciliável com a pouca veracidade de um instante, dada apenas por um ecrã minorca.

Convém não esquecer que, apesar disto tudo, a cultura é uma riqueza incalculável e ao alcance de todos e cada um pois, dizia Henry Ford, ‘qualquer que deixe de tentar aprender é um velho, tenha vinte ou oitenta anos; mantém-se jovem quem continua a querer aprender

Só não sei se Henry Ford se lembrou dos espelhos, um problema arrasador em tempos de selfies!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

One comment

  1. Jose Cruz de Magalhães

    Muito bom.

    Gostar

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