A GALIZA COMO TAREFA – não é nossa – Ernesto V. Souza

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Esta é uma das mais conhecidas estampas de Castelao, depois citada, contracitada, variada, repetida em reprodução inúmeras vezes na imprensa galeguista e protagonista da Campanha Pro-estatuto de Autonomia de 1936. Levava por pé o seguinte texto:

A nosa Terra non é nosa, rapaces.

O Álbum Nós, editado em 1931, foi um conjunto de estampas críticas e sarcásticas, de negro humor, realizadas pelo rianjeiro entre 1917 e 1919, que percorreram como exposição diversos pontos da Galiza e de Madrid. O seu objetivo, como o próprio autor destaca era evidente:

Con este medio cento de dibuxos intentei desacougar a todol-os licenciados da Universidade (amas de cría do caciquismo), a todol-os homes que vivían do favor oficial… As intencións eran nobles e o pesimismo aparente. Certo que a tristura d´estes dibuxos queima com´a raxeira do sol que pasa por unha lupa; mais eu non quixen cantal-a ledicia das nosas festas, nin a fartura dos casamentos, sinón as tremendas angurias do decotío labrego e mariñeiro. Algúns espíritos sensibles que choran co-a melanconía dos tangos e dos fados, atoparon desmedida esta door das miñas estampas; outros espíritos inertes ollaron pouco patriotismo no afán de ser verdadeiro. Con todo, eu sigo coidando que o pesimismo pode ser libertador cando desperta carraxes e cobizas d´unha vida máis limpa. Cicáis hoxe atácase as nosas mágoas c´un humor menos acedo; mais ninguén pode negarme que as vellas inxusticias siguen en pé: velahi porqué me arrisco a publicar esta obra. Ela foi amostrada en todal-as cibdades e vilas de Galiza e sirven de pretesto para “conferencias” que influiron no actual rexurdimento da galeguidade.

Album Nós, 1931.

Pessoalmente sempre achei maravilhoso o repertório icónico de Castelao e nomeadamente o universo simbólico, centralizado em síntese alegórica neste Álbum, declarativa e narrativa de um discurso que cala fortemente no destinatário. A poderosa capacidade sintética e conectiva do rianjeiro deixou neste conjunto de peças as linhas centrais de todo o seu discurso e os elementos chaves do seu repertório de mensagens.

Todas e cada uma das gravuras merecem um estudo de detalhe. A análise do que representam, feitos concretos da dor, da repressão política, social, cultural, do caciquismo, do sistema eleitoral… e a análise dos detalhes simbólicos, sindicados com a tradição, os modos de vida, os jeitos, a linguagem da gente que os convertem em alegoria da Galiza e chaves do pensamento galego.

Neste sentido a mensagem do quadrinho é bastante impactante. Provavelmente na origem ecoa os despejos produzidos por causa da questão foral e dos novos impostos nos inícios do século XX. No sentido direito é uma negação pessimista. Mas também implica, naquele machado, uma ideia de protesto e reivindicação e no abraço uma ideia de proteção. Protestos e reivindicações, com enfrontamentos e repressão violenta da autoridade que salferiram a Galiza das primeiras décadas do século XX.

Porém a imagem e a mensagem salta logo do singular ao coletivo, dos rapazes ao Nós, rapazes. Não por acaso o jornal das Irmandades e depois do PG levava por lema: A Nosa Terra, e o objetivo de a redimir.

A nossa Terra não é nossa. E a realidade é que continua a não ser, e a imagem e lema permanece. E quem diz a Terra diz tudo: o ensino não é nosso, a administração não é nossa, a universidade também não, nem as instituições, nem as leis, nem as estruturas, nem as comunicações, nem a planificação económica, nem a cultura, nem a política, nem mesmo a língua é nossa.

E, em não sendo nossas, é difícil entender como o pessoal continua topando com elas, nomeadamente nos casos do ensino, do funcionariado público, das leis, da administração e do governo, laiando-se estuporado porque não são nossas e querendo entre suspiros que sejam nossas no canto de primeiro fazer que sejam verdadeiramente nossas.

E, francamente, quando vem a calhar, é questão de voto.

para_que_a_nosa_terra_sexa_nosa_estatuto_gravado_tinta_papel_1936

 

 

 

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