CARTA DE BRAGA – “orfandade geriátrica” por António Oliveira

 

 

Saí do quiosque depois de ter apostado outra vez na hipótese de enricar com o beneplácito da Fortuna, uma amiga que já me proporcionou algumas mas raríssimas surpresas, mas não aquela com que sonhávamos os que estávamos na fila, à espera de vez para trocar uns euritos pelos talões vertidos pela máquina intermediária dos favores da Deusa.

Um texto arrebicado só para dizer que tinha ido meter duas apostas para o ‘milhões’.

Mas fui empurrado para isso (até me custou a guardar os talões e o porta-moedas!) quando, à saída do quiosque, estaco mas com o cuidado instintivo de fechar a boca, ao deparar-me com um personagem ‘fantástico’ a olhar a montra do quiosque, mas do lado de fora.

Quando consegui fazer as pazes com os talões, o porta-moedas e o saco de pendurar no ombro, afasto-me e vou encostar-me a uma das colunas do centro comercial, para poder olhar o sujeito, a olhar alternadamente a montra e um telemóvel que, pela dimensão, não era dos mais baratos.

Andaria com certeza pelos setenta anos, a ver pelas rugas do rosto e pela barbela que lhe dava um outro queixo, embora o corpo mostrasse bem um trabalho diário e continuado no ginásio.

As botas eram de marca, com certeza o último modelo, mas uns dedos abaixo do fim das calças, curtas, apertadas, afuniladas e difíceis de descalçar, como agora se usam, mas sem a camisola de alças que vestiria com certeza, se tivesse menos quarenta anos.

Lá em cima, o cabelo respeitava as novas tendências (as de enjoar barbeiros!) pois o cabelo quase branco, mostrava a moda dos barber shops, rapadinho dos lados e uma esfregona em cima, cuja função não consigo entender e nem sequer sei se aquilo poderá beneficiar um qualquer rosto!

Nego-me a fazer desta Carta uma crítica por respeitar inteiramente a vontade e o direito de uma criatura se apresentar como quiser (já contei aliás, o cuidado de ter fechado a boca!) por também respeitar a representação que cada um assume e faz, para mostrar a imagem com que pretende ser visto e apreciado.

Neste teatro da vida, o homem contemporâneo, visto e tratado simultaneamente como indivíduo, espectador, cliente, consumidor, número e objecto, nem se apercebe que o seu sentido crítico já desapareceu ou está em vias de desaparecer, por se terem esquecido dele como entidade, depois de a imagem lhe ter invadido a intimidade.

Já não passa de ser apenas o ‘homo communicans’ definido por Breton, ‘aquele cuja interioridade é comandada do exterior, pelos vastos sistemas de informação que necessita para viver’.

O problema só está em haver uma altura na vida para nós todos, em que se ganham mais deveres para com o passado do que com o futuro.

Na verdade, os jovens parecem e continuam jovens por ali terem os seus símbolos e modelos, mas os mais idosos não querem parecer como os outros mais velhos, por ali já quase nem haver modelos e, por isso mesmo, muitos ainda querem voltar a parecer novos outra vez!

Mas no dia em que Clint Eastwood desparecer também, a orfandade geriátrica será então enorme e dramática!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

One comment

  1. Morenito

    Parabéns por esta carta e esta reflexão tão verdadeira sobre o que hoje se passa.

    Gostar

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