
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Chris Hedges, La crucifixion de Julian Assange – Ce qui arrive à Assange devrait terrifier la presse (Truth Dig)
Le Grand Soir, 13 de Novembro de 2018
Truthdig, 12 de Novembro de 2018
O silêncio sobre o tratamento a Assange não é apenas uma traição que lhe é feita, mas também uma traição à liberdade de imprensa. Vamos pagar um preço alto por esta cumplicidade.
O asilo de Julian Assange na Embaixada do Equador em Londres foi transformado numa pequena loja de horror. Ao longo dos últimos sete meses, ele foi largamente afastado de qualquer comunicação com o mundo exterior. A sua nacionalidade equatoriana, que lhe foi concedida como requerente de asilo, está a ser revogada. A sua saúde deteriorou-se. É-lhe negado o acesso a cuidados médicos apropriados fora da embaixada. Os seus esforços para obter reparação foram paralisados pelas “regras da mordaça” [gag rules] – Uma regra da mordaça é uma regra que limita ou proíbe a discussão, consideração ou discussão de um determinado assunto pelos membros de um órgão legislativo ou executivo. – incluindo ordens equatorianas proibindo-o de tornar públicas as suas condições de vida dentro da embaixada na sua luta contra a revogação da sua cidadania equatoriana.
O primeiro-ministro australiano Scott Morrison recusou-se a interceder em nome de Assange, cidadão australiano, apesar de o novo governo equatoriano, liderado por Lenín Moreno – que chama Assange de “problema herdado” e obstáculo a melhores relações com Washington – tornar insuportável a vida do fundador do Wikileaks nesta insuportável embaixada. Quase todos os dias, a embaixada impõe condições mais duras a Assange, incluindo a cobrança das suas despesas médicas, impondo regras obscuras sobre como ele deve cuidar do seu gato e pedindo-lhe para executar várias tarefas domésticas degradantes.
Os equatorianos, relutantes em deportar Assange após conceder-lhe asilo político e cidadania, pretendem tornar a sua vida tão dolorosa de modo a que ele aceite em deixar a embaixada para ser preso pelos britânicos e extraditado para os Estados Unidos. O ex-presidente equatoriano Rafael Correa, cujo governo concedeu asilo político ao editor , chama de “tortura” as atuais condições de vida de Assange.
A sua mãe, Christine Assange, declarou num recente apelo em vídeo : [o autor cita longos extratos. Veja-se o apelo integral e em francês : https://www.legrandsoir.info/unity4j-christine-assange-lance-un-appel-… – NdT]
Assange foi elogiado e cortejado por alguns dos principais meios de comunicação do mundo, incluindo o New York Times e o Guardian, pela informação que possuía. Mas uma vez que os seus documentos sobre crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos, em grande parte fornecidos por Chelsea Manning, foram publicados por esses meios de comunicação, ele foi marginalizado e diabolizado. Um documento do Pentágono, preparado pela Seção de Avaliações de Contra-Inteligência Cibernética em 8 de março de 2008 que se tornou conhecido dada uma fuga de informação revelou uma campanha de propaganda para desacreditar o WikiLeaks e Assange. O documento afirma que a campanha de difamação deve procurar destruir o “sentimento de confiança” que é o “centro de gravidade” do Wikileaks e manchar a reputação de Assange. Isto tem funcionado bem. Assange é particularmente difamado por publicar 70.000 e-mails obtidos por hacker(s) pertencentes ao Comité Democrático Nacional (DNC) e a altos funcionários democráticos. Democratas e o ex-diretor do FBI James Comey dizem que os e-mails foram copiados das contas de John Podesta, gestor de campanha da candidata democrata Hillary Clinton, por hackers do governo russo. O diretor Comey disse que as mensagens foram provavelmente enviadas para a WikiLeaks através de um intermediário. Assange disse que os e-mails não foram fornecidos por “atores estatais”.
O Partido Democrata, que procura atribuir a sua derrota eleitoral à “interferência” russa e não à grotesca desigualdade de rendimento, à traição relativamente a classe trabalhadora americana, à perda de liberdades civis, à desindustrialização e ao golpe de Estado das empresas que o partido ajudou a orquestrar, acusa Assange de ser um traidor, embora não seja um cidadão americano. Nem um espião. E, tanto quanto sei, não há lei contra a publicação dos segredos do governo dos EUA. Ele não cometeu nenhum crime. Hoje, artigos em jornais que uma vez publicaram artigos do Wikileaks centram-se no seu comportamento alegadamente negligente – o que não era óbvio durante as minhas visitas – e no facto de ele ser, segundo as palavras de The Guardian, “um convidado indesejado” na embaixada. A questão vital dos direitos de um editor e de uma imprensa livre deu lugar a calúnias contra a pessoa.
Assange recebeu asilo na embaixada em 2012 para evitar a extradição para a Suécia e responder a perguntas sobre acusações de crimes sexuais que acabaram por ser retiradas. Assange temia que, uma vez detido pelos suecos, fosse extraditado para os Estados Unidos [um acordo de extradição entre a Suécia e os Estados Unidos autoriza a extradição de uma pessoa como mera “testemunha”]. O Governo britânico declarou que, apesar de já não ser procurado para interrogatório na Suécia, Assange será detido e preso se abandonar a embaixada por violar as condições da sua libertação sob caução.
WikiLeaks e Assange fizeram mais para denunciar as maquinações e crimes obscuros do Império Americano do que qualquer outra organização de imprensa. Além de denunciar as atrocidades e crimes cometidos pelo exército americano nas nossas intermináveis guerras e revelar o funcionamento interno da campanha Clinton, Assange tornou públicas as ferramentas de pirataria utilizadas pela CIA e pela NSA, os seus programas de vigilância e sua interferência nas eleições estrangeiras, incluindo nas eleições francesas. Ele revelou a conspiração contra o líder do Partido Trabalhista britânico Jeremy Corbyn pelos deputados trabalhistas do Parlamento. E o Wikileaks mobilizou-se rapidamente para salvar Edward Snowden, que expôs a total vigilância do governo sobre a população americana em relação à extradição para os Estados Unidos, ajudando-o a fugir de Hong Kong para Moscovo. As fugas de informação de Snowden também revelaram, de forma preocupante, que Assange estava numa “lista de alvos de uma caça ao homem” feita pelos americanos.
O que está a acontecer com Assange deveria aterrorizar a imprensa. No entanto, o seu destino é visto com indiferença e desprezo sarcástico. Uma vez expulso da embaixada, será julgado nos Estados Unidos por aquilo que publicou. Isto criará um novo e perigoso precedente jurídico que a administração Trump e as futuras administrações utilizarão contra outros editores, incluindo os que fazem parte da máfia que está a tentar linchar Assange. O silêncio sobre o tratamento de Assange não é apenas uma traição que lhe é feita, mas uma traição à liberdade de imprensa. Vamos pagar um preço alto por esta cumplicidade.
Mesmo que tenham sido os russos a fornecer os e-mails de Podesta a Assange, ele tinha razão em publicá-los. Isso é o que eu teria feito. Essas cartas revelavam as práticas do aparato político de Clinton que ela e os líderes democratas estavam a tentar esconder. Durante as minhas duas décadas como correspondente estrangeiro, organizações e governos têm-me divulgado regularmente documentos roubados. A minha única preocupação era se os documentos eram autênticos ou não. Se eram autênticos, eu publicá-los-ia. Entre os que me transmitiram estavam os rebeldes da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN); o exército salvadorenho, que me deu documentos sangrentos da FMLN encontrados após uma emboscada; o governo sandinista da Nicarágua; a Mossad, o serviço de inteligência israelita; o FBI; a CIA; o grupo rebelde do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK); a Organização para a Libertação da Palestina (OLP); o serviço de informações francês, a Direcção-Geral da Segurança Externa, ou DGSE; e o governo sérvio de Slobodan Milosovic, que mais tarde foi julgado como um criminoso de guerra.
Soubemos por e-mails publicados pela WikiLeaks que a Fundação Clinton recebeu milhões de dólares da Arábia Saudita e do Qatar, dois dos principais doadores do Estado Islâmico. Como secretária de Estado, Hillary Clinton reembolsou os seus doadores ao aprovar a venda de armas no valor de US$ 80 mil milhões à Arábia Saudita, o que permitiu que o reino iniciasse uma guerra devastadora no Iémen que desencadeou uma crise humanitária, incluindo uma grave escassez de alimentos e um surto de cólera, e deixou quase 60.000 pessoas mortas. Soubemos que Clinton tinha recebido $675.000 para uma conferência no Goldman Sachs, uma quantia tão grande que só pode ser qualificada como suborno. Soubemos que a Sra. Clinton disse às elites financeiras nas suas lucrativas conversas que queria o “comércio aberto e sem fronteiras” e que acreditava que os líderes de Wall Street estavam em melhor posição para gerirem a economia, uma declaração que foi diretamente contra as suas promessas eleitorais. Soubemos que a campanha de Clinton se destinava a influenciar as primárias republicanas para garantir que Donald Trump fosse o candidato republicano. Soubemos que a Sra. Clinton obteve antecipadamente as perguntas feitas durante o debate feitas para as primárias. Soubemos, porque 1.700 dos 33.000 e-mails vieram de Hillary Clinton, que ela foi a principal arquiteta da guerra na Líbia. Nós ficámos a saber que ela acreditava que o derrube de Moammar Gaddafi iria melhorar as suas possibilidades como candidata presidencial. A guerra que ela pretendia mergulhou a Líbia no caos, viu a ascensão ao poder dos jihadistas radicais no que é agora um Estado falhado, provocou um êxodo massivo de migrantes para a Europa, viu os stocks de armas líbias apreendidos pelas milícias rebeldes e radicais islâmicos em toda a região e deixou 40.000 mortos. Esta informação deveria ter ficado escondida? Pode dizer que sim, mas neste caso não se pode considerar um jornalista.
“Eles estão a prender o meu filho para terem uma desculpa para o entregarem aos Estados Unidos, onde ele será sujeito a um falso julgamento”, advertiu Christine Assange. “Nos últimos oito anos, ele não teve acesso a um processo legal apropriado. Em cada etapa, a injustiça prevaleceu, com uma enorme negação da justiça. Não há razão para crer que não será esse o caso no futuro. O grande júri americano que produz o mandado de extradição é mantido em segredo, tem quatro procuradores, mas não tem nem defesa nem juiz.
O tratado de extradição entre o Reino Unido e os Estados Unidos permite que o Reino Unido extradite Julian para os Estados Unidos sem provas prima facie. Uma vez nos Estados Unidos, a National Defense Authorization Act permite a detenção ilimitada sem julgamento. Julian enfrenta o risco de ser preso e colocado na Baía de Guantánamo e torturado, com uma pena de prisão de alta segurança de 45 anos ou a pena de morte”.
Assange está sozinho. Cada dia que passa é-lhe mais difícil. Esse é o objetivo. Cabe-nos a nós protestar. Somos a sua última esperança, e a última esperança, receio eu, de uma imprensa livre.
Chris Hedges
Chris Hedges, passou quase duas décadas como correspondente estrangeiro na América Central, Médio Oriente, África e Balcãs. Ele fez relatos relatou aa partir de mais de 50 países e trabalhou para o The Christian Science Monitor, National Public Radio, The Dallas Morning News e The New York Times, para o qual foi correspondente estrangeiro durante 15 anos.
Tradução Le Grand Soir, “haverá contas a prestar” por VD para Le Grand Soir com provavelmente todos os erros e erros habituais
Chris Hedges
Fonte: Chris HEDGES, La crucifixion de Julian Assange – Ce qui arrive à Assange devrait terrifier la presse (Truth Dig). Publicado pelo sitio Le Grand Soir e disponível em:
https://www.legrandsoir.info/la-crucifixion-de-julian-assange-ce-qui-arrive-a-assange-devrait-terrifier-la-presse-truth-dig.html
Ver também em:
Crucifying Julian Assange



