CARTA DE BRAGA -“de Abelaira e Victor Hugo” por António Oliveira

Uma, talvez a maior das minhas frustrações, é nunca ter estado em Florença!

O ‘culpado’ deste desgosto, que talvez me vá acompanhar até partir, é Augusto Abelaira, por se ter ‘atrevido’ a escrever e a publicar o admirável ‘A cidade das flores

Comprei-o em 1960, até por ter ficado encantado com os desenhos da capa onde havia um céu às riscas, encolhido e com medo do pináculo da cúpula de Santa Maria del Fiore.

Descobri o nome da catedral depois, na biblioteca de um tio, com muitos livros antigos e com desenhos e gravuras, alguns deles reproduções de outros muito mais antigos, medievais.

Cheguei a levar para lá o livro de Abelaira porque, indo atrás de Fazio, do Vianello, da Rosabianca e dos outros amigos, poderia aprender os nomes dos lugares onde nunca cheguei a ir, mas muito aprendi noutros livros também ali lidos, a importância das palavras, da reflexão e da veracidade.

Esta Carta não é nenhuma crítica literária, mas tão só o que resta da leitura daquele livro, retomada durante anos, por quase poder garantir a autenticidade das estórias ali desenhadas pela valia de uma narrativa tão eficaz, que me inculcou a vontade de lá ir um dia!

Lembrei-me de ‘A cidade das flores’ por ser o modo com Abelaira ‘aldrabou’ a censura, por enfeitar com nomes italianos, uma admirável condenação a um regime como o salazarista, acabrunhante, vigiado, vivido e aqui penado naqueles anos cinquenta.

Hoje já não haverá necessidade de ir escrever lá para fora, pois parece estarmos ainda bem longe de albergar um salvini à portuguesa, apesar das aventuras de um ‘chega’ que não chegou a ‘basta’, para o totoloto das idas ‘paralamentar’ lá nas Europas!

Não esqueço também já estarmos nos tempos bem identificados por Bauman em ‘Retrotopia’, um dos seus últimos textos, onde faz referência e muita crítica à crescente hostilidade social.

A retrotopia refere um território desconhecido, não-visitado e não-experimentado e é a razão para se recorrer a utopias e retrotopias, na procura uma solução para o presente’ explica Bauman.

Bauman não acreditava na bondade de um futuro tecnológico, aparentemente já começado, por não acreditar também que pudesse melhorar a endémica agressividade humana, já demasiado exacerbada pelo consumismo individualista fomentado pelo (e no) capitalismo.

Para o filósofo, o fim da utopia de um futuro feliz, estaria já a acontecer com ‘a busca retrostópica para encontrar uma base realista a uma civilização já globalmente desumanizada

Desumanização resultante ‘de o indivíduo se ter emancipado das normas morais e sociais da tradição, mas que o deixou isolado e vencido à mercê dos próprios recursos, por se ver e saber impotente para se libertar das dependências tribais e comunitárias

Mas uma impotência que quer ultrapassar com o recurso à ‘criação de mais fronteiras entre os países prósperos e os depauperados’, apelando à ‘identidade nacionalista’, a que cultiva e vive das diferenças entre ‘nós e os outros

Assim também pretende apagar e legitimar um passado, por nem haver um lugar desconhecido e não-experimentado, mas substituindo-o por um outro idealizado agora, quando o futuro já deixou de ser esperança, por só ser entendido como um espaço para o qual não se sente preparado.

Além de tudo o mais que isso possa também indicar, essa idealização do passado aproveita a falta de conhecimentos que a desistência do ensino da História e da Filosofia acarretou e pode levar (leva!) a ideias totalitárias bem perigosas, como se vê pelas dos salvinis (a citar só este) mas a fazer parangonas em tudo o que é media!

Victor Hugo, talvez antevendo os dramas do nosso tempo, deixou escrito em ‘Os miseráveis’, uma das mais obras mais relevantes da literatura mundial, ‘Os tempos primitivos são líricos, os tempos antigos são épicos, os tempos modernos são dramáticos

A importância e valia da cultura através de dois escritores pois, sem leitura e sem compreensão, a democracia não é possível!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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