Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 4. Donald Trump cria o caos com as suas tarifas de guerra comercial. Por Martin Wolf

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4. Donald Trump cria o caos com as suas tarifas de guerra comercial 

Martin Wolf 2 por Martin Wolf

Publicado por FTimes em 10 de julho de 2018 (ver texto aqui)

e republicado por Gonzallo Rafo (ver aqui )

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Permanece a questão de se os outros países devem ripostar por retaliação

O líder do país mais poderoso do mundo é um ignorante perigoso. Então, como é que deve o resto do mundo responder? O que torna isto tão difícil de responder é que Donald Trump criou o caos. É tão difícil negociar com ele porque ninguém sabe o que ele e sua equipa querem. Isto não é normal.

As ações comerciais da Administração Trump e as intenções anunciadas são, neste contexto, importantes em si mesmas e indicativas de um disfuncionamento mais amplo. Os EUA impuseram tarifas sobre as importações de painéis solares, máquinas de lavar, aço e alumínio. Se adicionarmos duas rondas das tarifas com a China em virtude da seção 301 do US Trade Act de 1974, o comércio afetado atinge aproximadamente 7 por cento das importações dos Estados Unidos.

Se tivermos em conta a ameaça de retaliação contra a retaliação, que poderia afetar um valor adicional de $400 mil milhões de importações da China, bem como a possibilidade de tarifas em $275 mil milhões de importações de carros e peças, o total de importações afetadas atinge $800 mil milhões ou seja, cerca de um terço das importações americanas de mercadorias. As ações dos EUA já provocaram retaliação (ver gráficos).

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A administração justificou as acções já em vigor sobre o aço e o alumínio por referência à segurança nacional. A mesma lógica está a ser utilizada sobre uma investigação de importações americanas de carros, lançada em maio. Os medos sobre tal abuso das exceções de segurança devem-se ao facto de que as regras da Organização Mundial do Comércio são restritivas. Tais exceções são enumeradas em relação a “materiais cindíveis”, ou “ao tráfico de armas, munições e de instrumentos de guerra e ao tráfego de outros bens e materiais, destinados direta ou indiretamente ao fornecimento a uma organização militar”, ou “tomadas em tempo de guerra ou outras emergências em relações internacionais”.

As ações dos EUA em matéria de aço, alumínio e, ainda mais absurdas, em matéria de carros violam claramente as regras da OMC. Mas se o Canadá é uma ameaça, qual é o país que o não é? Se os carros são uma preocupação de segurança, o que não é também uma questão de segurança? O protecionismo levar-nos-á a uma grande prosperidade e força”, disse Trump no seu discurso de investidura. Infelizmente, é o que ele pensa.

O fundamento para a ação da seção 301 contra a China é ainda mais obscuro. Às vezes, a ação parece destinada a forçar a China a eliminar os seus excedentes bilaterais com os EUA. Outras vezes o seu alvo parece ser o de querer travar o seu programa “Made in China 2025”. Outras vezes ainda, parece destinado a remediar a transferência de tecnologia por coerção. O primeiro objetivo é ridículo; o segundo não é negociável; o terceiro é razoável, mas difícil de alcançar.

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Como se isso não fosse confusão suficiente, Larry Kudlow, ostensivamente o principal assessor económico de Trump, sugeriu que o Presidente é um defensor do comércio livre e que o seu objetivo é realmente eliminar tarifas. De facto, como uma criança de dois anos de idade, Trump é um “perturbador” sem objetivos claros. Se quisesse reequilibrar a relação com a China, não se teria retirado da Parceria Trans-Pacífico e não teria agredido os seus próprios aliados. Em vez disso, teria confrontado a China com uma poderosa coligação global. Em vez disso, ele desencadeou brigas com toda a gente.

O protecionismo também tende a espalhar-se porque os utilizadores dos produtos protegidos irão exigir também proteção para as suas indústrias e porque o comércio será desviado dos mercados protegidos. As exportações da China, por exemplo, mudarão dos Estados Unidos para os mercados da Europa. A UE pode sentir-se obrigada a agir também contra as importações.

Então, onde é que tudo isto pode acabar? Paul Krugman, um dos economistas mais relevantes à escala mundial argumenta que se isto se transformar numa guerra comercial generalizada de todos contra todos, o comércio mundial pode reduzir-se em cerca de 70 por cento.

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No entanto, surpreendentemente, a produção mundial pode não cair mais de 3 por cento. Tais números assentam sobre os pressupostos de modelos de “equilíbrio geral computorizado”, que ignora o disfuncionamento e a incerteza, uma vez que a estrutura da economia mundial seria reconfigurada. Também não conseguem explicar o dinamismo perdido, uma vez que a concorrência global seja reduzida. Por último, mas não menos importante, eles ignoram o aumento no mal-estar que uma guerra protecionista causaria. A cooperação global seria certamente abalada.

No entanto, Trump insistiu que as “guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”. O argumento de que um país em défice vai “ganhar” numa guerra comercial não é absurdo. Em última análise, em qualquer guerra de retaliação, o outro lado vai ficar sem munições comerciais mais cedo, simplesmente porque as suas importações são menores.

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Mas a retaliação poderia ir além do comércio, ao investimento, por exemplo. Uma vez que a retaliação é tida em conta, e o impacto das tarifas mais elevadas sobre as taxas de câmbio, o benefício para a produção interna agregada é suscetível de ser muito pequeno, mesmo para um país com enormes défices. Qualquer economista sabe que a maneira eficaz de reduzir um défice comercial num país perto do pleno emprego é uma recessão. Esse não é, presumivelmente, o objetivo dos EUA, mas pode ser o resultado da incerteza criada pelas suas políticas.

Talvez a maior questão seja como é que os outros jogadores devem responder à agressão da Casa Branca. O Presidente Trump gosta de conflito. Ele pode não reagir à retaliação como uma pessoa normal faria. Ele pode até considerar bem-vindo o aumento da proteção que uma espiral de retaliação iria desencadear.

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Ao mesmo tempo, só a retaliação o pode convencer a mudar de rumo. Além disso, a acumulação de nuvens de uma guerra de comércio poderia chocar fortemente as empresas americanas e levá-las a reagir eficazmente. A perceção de quão longe se pode prosseguir o ciclo de retaliação, então, não é fácil.

Pessoalmente, eu iria retaliar, mais porque a alternativa parece fraca do que pela crença de que iria funcionar. Outra coisa que o resto do mundo deve fazer é fortalecer a sua cooperação. Mas o mais emocionante – e arriscado – que os outros países de elevado rendimento poderiam fazer é aceitar a oferta de Trump de comércio livre de pautas aduaneiras. Porque não desmontar a sua atitude, provando que se trata de uma enorme mentira dele? Quem sabe? Se calhar, até pode funcionar.

 

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