CARTA DE BRAGA – “A rapariga sozinha da estação do Metro” por António Oliveira

No metro, na plataforma oposta à minha, uma rapariga sentada com as mãos livres de telemóvel, apenas olhava e ouvia. Olhava e ouvia. Olhava e ouvia’.

Este é o lindíssimo e solit(d)ário apontamento, ditado pela estranheza de um facto invulgar e por isso feito acontecimento, postado pelo professor José Ricardo Costa, no blog ‘Ponteiros parados’.

O contexto em que gastamos os dias, onde actualidade e realidade se identificam e confundem, do mesmo modo que se confundem quando se misturam conhecimento, cultura, o ‘Apanha-me se puderes’ ou um qualquer e estrambótico êxito comercial que leva a movimentar milhões de polegares, transforma a rapariga do Metro na metáfora de algo já desgarrado ou pervertido.

É uma das muitas faces esquinadas, planas e limitadas em que se transformou a crise poliédrica que tarda em nos abandonar (acontecerá algum dia?), uma crise decorrente de já só sermos geridos e governados por ícones e emojis operativos, ao mesmo tempo que vemos e sabemos os sucessos e os êxitos do homem a jazer (omitidos e esquecidos) dormindo na sombra deles.

E podemos lembrar-lhes os símbolos, a Marianne com gorro frígio da revolução francesa, a máquina a vapor dos ingleses ou a foice e o martelo dos russos, alegorias os três de revolução e da Europa, por não haver mais nenhuma igual ou parecida em qualquer outro continente.

Revoluções também da mente, copiadas e passadas para todo o mundo porque, afirma Georges Colleuil, filósofo, psicólogo e linguista, ‘Há que encarnar o símbolo! Precisamos de uma sociedade que ofereça arte, poesia, filosofia, sonhos… A criatividade é básica tanto para crescer como para envelhecer bem! A nossa força está na criatividade!

Criatividade para também poder vencer o drama da quase rotina dos dias pois, escreveu Marcel Proust, ‘Elástico é o tempo de cada dia; as paixões que sentimos dilatam, as que inspiramos encurtam e o hábito enche’.

Todo um percurso para conseguir e permitir o equilíbrio cultural, garantiu Charles Chaplin porque ‘importante é a luta para viver a vida, para a sofrer e para a gozar, perder com dignidade e recomeçar de novo com um sorriso. Ri e o mundo rirá contigo; chora e o mundo, virando as costas, deixar-te-á a chorar sozinho

Também o fez Victor Hugo em ‘Os miseráveis’, mas com palavras mais secas e duras ‘Intentar, desafiar, persistir, perseverar, ser fiel a si mesmo, lutar de braço partido contra o destino, assombrar a catástrofe por ver o pouco medo que nos dá, enfrentar o poder injusto e revoltar-se contra a vitória ébria, é o exemplo que os povos necessitam e a luz que os electriza

Para se conseguir este desiderato, não chega ver a actualidade só pela objectiva da câmara, por estar muito longe de ser cultura, mas só por ser igual ao ‘tempo’ de Proust, algo que se mastiga como uma pastilha elástica ou, pior ainda, por parecer ‘uma alka-seltzer desaparecida num copo de água de que apenas fica a mancha’, explicou Bauman.

Não há outro modo de pensar e projectar o porvir pois, também o afirmou há uns e poucos dias a cantautora Mafalda Veiga, ‘Ainda hoje, quando leio os grandes clássicos, eles sempre me sabem a futuro!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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