Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 9. As barreiras comerciais não vão parar a ascensão da China. Por Adair Turner

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

9. As barreiras comerciais não vão parar a ascensão da China 

adair turner Por Adair Turner

Publicado por Project syndicate, em 9 de julho de 2018 (ver aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo (ver aqui)

9 As barreiras comerciais não vão parar a ascensão da China 1

 

Se, nos idos de 1980 e 1990, o governo dos EUA, em vez de defender a abertura económica chinesa tivesse proibido que qualquer empresa americana aí investisse, a ascensão da China teria sido significativamente retardada, embora não impedida de forma permanente. Como isso não aconteceu, a ascensão da China agora é auto-sustentável.

Londres – Há preocupações generalizadas de que o protecionismo do presidente Donald Trump corroerá os benefícios de longo prazo do comércio global. Também há esperanças entre os apoiantes de Trump – incluindo muitas empresas americanas – de que as políticas duras podem impedir que a China se torne tecnologicamente igual à América. Mas as preocupações com o impacto de longo prazo da redução do comércio global podem ser exageradas, e a esperança de bloquear a ascensão da China não tem nenhuma possibilidade de se cumprir.

O comércio ocorre por três razões. Para começar, os países têm inerentemente diferentes recursos: alguns têm petróleo, outros têm cobre; alguns produzem bananas, outros trigo. Se esse comércio fosse interrompido, a prosperidade global sofreria. Mas o comércio de matérias-primas e bens agrícolas, na verdade, conta como uma pequena parcela do comércio total e, sem dúvida, continuará a ser assim.

O comércio também reflete diferenças nos custos laborais. Países de baixo custo produzem bens manufaturados intensivos em mão-de-obra, utilizando maquinaria importada de países com altos custos de mão-de-obra. Como economistas tal como David Autor, do MIT, mostraram, o impacto disso nos países desenvolvidos pode ser mau para alguns trabalhadores e bom para os lucros das empresas. Mas pode ser extremamente bom para um país em vias de desenvolvimento que fomente um equilíbrio frutífero entre os investimentos estrangeiros e o empresariado local e que utilize os lucros do crescimento sustentado pelas exportações para investir em infraestrutura e em competências profissionais. O sucesso económico espetacular da China teria sido impossível sem as trocas comerciais, inicialmente motivadas pelas diferenças de custo da mão-de-obra.

No futuro, porém, este tipo de comércio vai provavelmente tornar-se menos importante. Com os salários na China agora a crescerem a bom ritmo, a sua vantagem nos custos de trabalho está a diminuir rapidamente. E embora muitas pessoas assumam que a indústria transformadora se irá deslocar para outros países de baixos salários – por exemplo, para África – muito desta produção poderá voltar para as economias avançadas, embora para fábricas altamente automatizadas que geram muito poucos empregos.

Finalmente, a especialização e as economias de escala na indústria transformadora, na investigação e desenvolvimento, e as marcas comerciais tudo isto gera comércio entre os países igualmente ricos. Os carros de luxo europeus são exportados para os EUA, as motas Harley Davidsons são importados na Europa, e vários itens altamente especializados e de equipamento de capital são negociados em ambas as direções.

Uma vez que estas ligações comerciais estejam a funcionar, quaisquer mudanças repentinas nas tarifas serão severamente disruptivas. Assim, as políticas de Trump, sem dúvida, representam, no curto prazo, uma ameaça importante para o crescimento global. Mas a longo prazo, o comércio entre continentes de rendimento per capita aproximadamente igual é menos crucial para a prosperidade do que é frequentemente assumido.

A questão fundamental é que tamanho é necessário a um espaço económico para fomentar economias de escala e cadeias de abastecimento complexas integradas, mantendo ainda uma intensa concorrência entre múltiplas empresas. Se um país como a Irlanda, com uma população de 5 milhões, tentasse ser autossuficiente em todos os bens, o seu rendimento seria uma fração do nível de hoje. Mesmo se um país muito maior como a Grã-Bretanha, França, ou a Alemanha tentasse a autarcia, o impacto sobre a produtividade e os padrões de vida seria muito grande.

Mas a economia continental da China de 1,4 mil milhões de habitantes poderia conseguir quase todas as economias de escala possíveis e ainda manter uma concorrência interna intensa; em princípio, a Índia também podia. Os Estados Unidos, com 300 milhões de pessoas, sofreriam apenas ligeiramente se exportassem e importassem pouco para além das suas fronteiras, e o mesmo se aplica ao mercado único de 520 milhões da União Europeia.

Para lá de certo ponto, os benefícios potenciais de um comércio mais vasto entre países igualmente ricos declinam inevitavelmente. Se houvesse menos comércio entre as economias continentais da China, os EUA e a Europa em 2050 do que há hoje, o impacto direto nos padrões de vida seria pequeno.

O que seria perdido sem o comércio global – e ainda mais sem fluxos de investimento – seria a transferência de conhecimento, tecnologia e melhores práticas. A decolagem económica da China começou com a arbitragem dos custos laborais, mas foi sustentada pela transferência massiva de conhecimentos. E embora um pequeno elemento dessa transferência refletisse a existência de espionagem industrial, a grande maioria era automática, legal e inevitável.

Os trabalhadores e os gestores chineses empregados por companhias ocidentais aprenderam novas técnicas. Os fornecedores tiveram que cumprir padrões elevados, e os empresários locais puderam tirar partido de cadeias de abastecimento de melhor qualidade para poderem competir. Empreendimentos conjuntos inevitavelmente levaram à transferência de conhecimento para os parceiros locais, e as empresas ocidentais acederam de bom grado a esses empreendimentos para terem acesso ao enorme mercado interno da China.

Os Estados Unidos estão agora preocupados com as crescentes proezas tecnológicas da China. As empresas lamentam a perda das rendas económicas que surge da tecnologia superior e da propriedade intelectual; e os falcões da segurança nacional preocupam-se com as potenciais consequências geopolíticas da erosão tecnológica da América. As tarifas sobre os bens chineses são em parte uma resposta a tais interesses, e os limites em aquisições chinesas de companhias de tecnologia de ponta americanas expressam que essa ameaça é diretamente percebida.

Mas, simplesmente é tarde demais. Se, olhamos para trás nos anos 1980 e 1990, o governo americano, em vez de andar a discutir o grau de abertura económica da China, tivesse proibido a toda a empresa americana investir na China, a ascensão de China teria sido significativamente retardada, embora não impedida de forma permanente.

Porque isso não aconteceu, a ascensão de China é agora autossustentável. Um mercado interno enorme e cada vez mais próspero tornará as exportações menos vitais para o crescimento chinês. Os salários rapidamente em ascensão estão a criar fortes incentivos para a aplicação das melhores práticas da robótica, e as empresas da China estão a tornar-se inovadores de vanguarda em inteligência artificial, veículos elétricos e energia renovável. E o programa do presidente Xi Jinping “Made in China 2025” vai ajudar a promover uma rápida mudança para a fabricação de produtos de alto valor acrescentado tendo como suporte a investigação em I&D promovida pela China. Mesmo se os Estados Unidos batessem agora com as portas do comércio e do investimento, faria pouca diferença ao crescimento do poder económico e político da China.

Isso não é verdade para as economias em desenvolvimento mais pobres, como a Índia e toda a África, que esperam emular a ascensão rápida da China. Essas economias já enfrentam a ameaça de que a automação irá impedir a criação de emprego em fábricas orientadas para exportação. Hoje, a prioridade mais importante no meio da turbulência induzida por Trump é garantir que tais desafios não sejam exacerbados por restrições prejudiciais ao comércio.

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O autor: Adair Turner, antigo presidente da United Kingdom’s Financial Services Authority e antigo membro do UK’s Financial Policy Committee, é atualmente presidente do Institute for New Economic Thinking. O seu último livro é “Between Debt and the Devil”.

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