Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 10. Duas Universidades, dois discursos, dois textos. Aqui apresentamos o texto de Barry Eichengreen da Universidade de Berkeley, “Globalização com características chinesas”

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Sugerimos ao leitor uma leitura atenta deste texto e se confronte com os textos anteriores da série ou com o texto 11 desta série, da Universidade de Pensilvânia, que será apresentado a seguir.

10. Duas Universidades, dois discursos, dois textos. Aqui apresentamos o texto de Barry Eichengreen da Universidade de Berkeley, “Globalização com características chinesas”

Publicado por Project syndicate, em 10 de abril de 2018 (ver aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo (ver aqui)

10 Globalização com características chinesas 1

 

Berkeley – O unilateralismo errático do Presidente dos EUA, Donald Trump, representa nada menos que estar a abdicar da liderança económica e política mundial. A retirada de Trump do acordo climático de Paris, a sua rejeição do acordo nuclear iraniano, a sua guerra das tarifas aduaneiras e os seus frequentes ataques a aliados e abraços aos adversários têm rapidamente transformado os Estados Unidos num parceiro não fiável na manutenção da ordem internacional.

Mas as políticas do “América First” da administração Trump fizeram mais do que desqualificar os Estados Unidos da liderança global. Elas também criaram espaço para outros países refazerem e modelarem o sistema internacional a seu gosto. A influência da China, em particular, é provável que seja reforçada.

Considere, por exemplo, que se a União Europeia olhar para os EUA como um parceiro comercial pouco fiável, terá um incentivo correspondentemente mais forte para negociar um acordo comercial com a China em termos aceitáveis para o governo do presidente Xi Jinping. Mais em geral, se os Estados Unidos voltarem as costas à ordem global, a China estará bem posicionada para assumir a liderança na reformulação das regras do comércio internacional e do investimento.

Assim a pergunta chave que enfrenta o mundo é esta: que deseja a China? Que tipo de ordem económica internacional é que os seus líderes têm em mente?

Para começar, a China provavelmente irá continuar a ser um país cuja dinâmica de crescimento assenta no crescimento das suas exportações. Como Xi disse em Davos, em 2017, a China está empenhada “no crescimento de uma economia global aberta”. Xi e o seu círculo, obviamente, não vão querer desmantelar o sistema de comércio global.

Mas, noutros aspetos, a globalização com características chinesas difere da globalização tal como a conhecemos. Em comparação com a prática padrão do pós-segunda guerra mundial, a China confia mais nos acordos comerciais bilaterais e regionais e menos nas rondas de negociações multilaterais.

Em 2002, a China assinou o acordo-quadro sobre a cooperação económica abrangente com a Associação das Nações do Sudeste Asiático. Posteriormente, negociou acordos bilaterais de comércio livre com outros 12 países. Na medida em que a China continua a preferir os acordos bilaterais sobre as negociações multilaterais, a sua abordagem implica uma redução do papel da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O Conselho de Estado chinês pronunciou-se a favor de uma estratégia de comércio que seja “baseada na periferia da China, que irradie ao longo da Iniciativa Belt and Road [estratégia que envolve desenvolvimento de rotas terrestres e marítimas com países da Europa, Ásia e África], e enfrentando o mundo”. Isto sugere que os líderes chineses têm em mente um sistema de uma plataforma radial, com a China a ser a plataforma e os países na sua periferia a serem os raios.

Outros preveem o surgimento de sistemas comerciais radiais centrados na China e também, possivelmente, na Europa e nos Estados Unidos – um cenário que se torna mais provável com a China a reformular o sistema comercial mundial.

O governo pode então elaborar outros arranjos institucionais centrados na China para complementar a sua estratégia comercial. Esse processo já começou. As autoridades estabeleceram o Banco Asiático de Investimento sobre Infraestruturas chefiado por Jin Liqun, como uma alternativa regional ao Banco Mundial. O Banco Popular da China criou $500 mil milhões em linhas de swap disponíveis para mais de 30 bancos centrais, desafiando o papel do Fundo Monetário Internacional. Para ilustrar a influência da China, em 2016, o Banco de Desenvolvimento da China e o Banco Industrial e Comercial da China forneceram $900 milhões de assistência de emergência ao Paquistão, ajudando o seu governo a evitar, ou pelo menos a retardar, o recurso ao FMI.

Um sistema internacional a ser moldado pela China irá também atribuir menos importância aos direitos de propriedade intelectual.

Embora se possa imaginar que a atitude do governo chinês mude à medida que o país se transforma num desenvolvedor de novas tecnologias, o carácter sagrado da propriedade privada tem sido sempre limitado no sistema socialista do Estado Chinês. Consequentemente a proteção da propriedade intelectual virá a ser mais fraca do que num regime internacional liderado pelos EUA.

O governo da China procura moldar a sua economia através de subsídios e diretivas às empresas estatais e outras. O seu programa Made in China 2025 para promover as capacidades de alta tecnologia do país é apenas a última encarnação desta abordagem. A OMC tem regras destinadas a limitar os subsídios. Um sistema de comércio internacional moldado pela China iria, no mínimo, afrouxar tais limitações.

Um regime internacional liderado pela China seria também menos aberto a fluxos de investimento direto estrangeiro. Em 2017, a China ficou classificada atrás apenas das Filipinas, Arábia Saudita e Indonésia entre os mais de 60 países avaliados pela OCDE de acordo com a restrição dos seus regimes à entrada de IDE no respetivo país.

Estas restrições são, porém, outro dispositivo projetado para dar espaço às empresas chinesas para desenvolver as suas capacidades tecnológicas. O governo presumivelmente favoreceria um sistema que autorizaria outros países a utilizar tais políticas. Neste mundo, as multinacionais dos EUA que procuram operar no estrangeiro enfrentariam novos obstáculos.

Finalmente, a China continua a exercer um controlo rigoroso sobre o seu sistema financeiro, bem como a manutenção de restrições quanto às saídas e entradas de capitais. Embora o FMI tenha evidenciado recentemente mais simpatia por tais controlos, um regime internacional liderado pela China seria ainda mais favorável à sua utilização. O resultado seriam barreiras adicionais às instituições financeiras dos EUA que procuram fazer negócios internacionalmente.

Em suma, embora uma economia global moldada pela China permaneça aberta ao comércio, ela será menos respeitadora da propriedade intelectual dos EUA, menos recetiva ao investimento estrangeiro americano e menos acomodatícia para os exportadores e multinacionais que procuram concorrer em pé de igualdade. Isto é o oposto do que a administração Trump diz que quer. Mas é o sistema que as próprias políticas da administração Trump são suscetíveis de gerar.

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O autor: barry eichengreen Barry Eichengreen é Professor de Economia na Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-conselheiro do Fundo Monetário Internacional. O seu último livro é The Populist Temptation: Economic Grievance and Political Reaction in the Modern Era.

 

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