A GALIZA COMO TAREFA – Aliyah – Ernesto V. Souza

Nunca seria, reconheço, um bom general, nem um desses grandes estrategistas militares, políticos ou empresariais, capazes de sacrificar grandes recursos e contingentes humanos por um objetivo considerado de mais valor, por uma meta.

Não. Duvido que eu passasse de sargento, ou oficial subalterno básico, numa guerra. Eu não sou assim capaz de sacrificar materiais, recursos e menos pessoas por nenhum objetivo tático e palpável, e menos por um estratégico. Até me sabem mal, as perdas absurdas dos contrários. Nada mais absurdo e cruel que botar sal sobre as ruínas, o genocídio e a devastação de Cartago.

Para mim, os conflitos são, em geral, derrotas, perde-se tempo, energias, interesses e adoito os resultados derivam em inimizades perenes. Quando obrigadas, os conflitos, as brigas, e os enfrontamentos devem ser breves, fluídos, procurando fazer o maior resultado com o mínimo de desgaste e perdas humanas. A paciência, a análise, a posição vantajosa, e o tempo jogam a favor. Os choques, têm de ser dissuasórios, procurando no possível que os contrários recapacitem e tornem em vizinhos, colegas, companheiros.

A maior derrota é o enfrentamento continuado, o desgaste de recursos permanente. O extermínio do outro nunca é vitória: é uma perda de valores, de recursos, de cultura, de vida, de pessoas, de futuros possíveis. É melhor liquidar rápido os conflitos, mas ser magnánimo e humilde na vitória e orgulhoso e ativo na derrota. Derrotados ou vitoriosos, o mais importante é permitir o antes possível a gente recuperar as suas vidas e facilitar as circunstâncias, para que possam contribuir e se integrar no conjunto.

Bem que a metáfora militar é, afortunadamente, apenas isso, metáfora. Infelizmente, no mundo das finanças, da empresa, da política, guiam-nos em muitos casos com essa lógica impessoal e frivolidade criminal de gabinetes distantes de Estado-Maior.

Objetivos eleitorais, económicos, estratégicos conseguidos… isso nos contam, uns e outras, mas miramos arredor e facilmente observamos o custo, as destruições, o aniquilamento de pessoas e de grupos, deixados no caminho do ascenso dos líderes, nos enfrontamentos de grupos e das suas jogadas vencedoras. Guerras externas e internas, enfim, uma absurdidade, a gente é o recurso mais valioso.

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“En Galicia non se pide nada, emigrase”, Castelao, Album Nós, 1921

Um dos grandes dramas da Galiza política e social contemporânea é ter prescindido desse valor, de ter dado tão pouca importância, ao recurso humano.

Fora de discursos, programas, aparatos políticos e desenvolvimentos teóricos nacionais, os séculos XIX e XX foram uma pequena desfeita à hora de organizarmos um movimento de construção nacional; e o que é pior, uma devastação incalculável a respeito da construção de um Estado galego.

A política de partidos foi, a partir do XIX, uma sucessão de enfrontamentos, cisões, conflitos, de líderes, grupos e clãs, que se tem saldado, potenciado e a prol do nacionalismo español, da primeira geração romântica a hoje, com a impossibilidade de consolidar um movimento nacional comum e com a prolongação de grupos diversos irreconciliáveis, com uma hemorragia constante de valiosos elementos: aniquilados, deslocados, periferizados, marginalizados, expulsados, fora de lugar. O de hoje é nenhuma novidade. Infelizmente fica gente desaproveitada e afastada e não haverá nenhuma generosidade, nas organizações com estrutura, para tender a mão os derrotados, para reciclar projetos, militantes.

Mas isso é o de menos, porque tem amanho, bem com habilidade, bem com novos personagens, gerações. Nada que o tempo não solucione. O problema a sério é o outro. A começos do século XIX e até quase finais do século XX, a Galiza contava com dous eixos centrais que permitiam com facilidade que existisse um Estado Galego: Geografia e População.

Quem diz geografia, diz também território, comunicação, organização dessa população e quem diz população diz também essa característica massa humana nortenha, fortemente vinculada a um território espalhado, diverso e característico.

A construção do Estado espanhol moderno, a partir de 1813 e até hoje, e de 1950, sem pausa, conseguiu em boa medida liquidar ambos, aos entender como obstáculos. A desorganização administrativa do território e a promoção obrigada de modelos de habitação próprios das Castelas, produziram uma evolução absurda da habitação e dos serviços. A Galiza galeguista, sonhara com os modelos habitacionais do Reino Unido, Irlanda, Belgica, Suíça, por enquanto a Galiza real, desaparece e emigra.

A população da Galiza foi alargada durante toda a história e portanto fundamental na história da Península. Essa população, seguindo o magistério de Otero Pedrayo, humanizou a geografia e a paisagem no decurso das gerações. Mas, hoje não é mais: está envelhecida e é minguante. Vai desaparecendo, com ela a sua cultura e paisagem, paróquias, comarcas especializadas, comunicações, modelos de habitação do território, paisagem, produção, organização política e social.

Por causa disto e em paralelo, a emigração, a brutal e prolongada diáspora galega, foi e é o maior dos dramas políticos, sociais e nacionais contemporâneos. Ir viver em terra alheia e contribuir nela, privando Galiza, de trabalho, de energias, de mentes, cérebros, iniciativas, de figuras, artistas, empresários, famílias, de trabalhadores, de valiosos recursos humanos.

E paralelo a esta destruição contemporânea e moderna na Galiza, foram-se também desintegrando os poderosos coletivos da emigração. Careciam de valor para Espanha, e o nacionalismo político galego não soube ver o valioso capital social e identitário de tantos galegos sem passaporte espanhol, de tantos galegos educados, socializados e afeitos a sistemas educativos, políticos e administrativos não espanhóis.

Cumpriria uma refundação a sério do galeguismo. Com o reintegracionismo, com a recuperação territorial com base comarcal e paroquial como base. E a partir de aí elaborar um programa de nação, de base alargada, com modelos territoriais, educativos, administrativos e legislativos não espanhóis. E já postos a imaginar um Estado Galego com base social, pensemos num direito galego com base na Common Law, mais ajeitado ao sentido comum e humor céltico; a recuperação e desenvolvimento  territorial e habitacional com um jeito mais atlântico, com a implicação nos transportes, planificação urbanística e paisagística, na administração; pensemos num sistema de espaços educativos, bibliotecas e arquivos da escola rural à universidade, polivalentes, modulares e comunitários, seguindo o Plano republicano de Maria Moliner e as notas de Vicente Risco.

Podemos responder à pergunta de Diaz Castro em Penélope:

Traguerão os caminhos algum dia
a gente que levaram…?

Pensando que também seria preciso incluir e promover uma lei do retorno. Um grande chamado,  para recuperar essa valiosa diáspora galega enriquecida. Total, quem sabe de quem vem sendo, é, e será – se quiser – galego/a.

 

* A Aliá ou Aliyah (a ascensão, a elevação) é o termo que designa a imigração judaica para a Terra de Israel. Em contrapartida, a emigração judaica, a diáspora, é chamada yerida:  descida). A Aliyah é um importante conceito no Judaísmo, fundamental para o Sionismo, foi consagrado na Lei do retorno.

 

 

2 comments

  1. abanhos

    A Minoria nacional galega, (Vítor assim vai adorar https://www.vilaweb.cat/noticies/minoria-nacional-dret-autodeterminacio-editorial-vicent-partal/) tinha geografia e território, porém não tinha o fermento, havia farinha e água, porém não havia o fermento, o fermento são as elites, as classes dirigentes: Essa miinoria nacional era acéfala.
    Ernesto, não és general, estou de acordo contigo, mas és um dos melhores oficiais de estado maior que conheço
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado-Maior,
    é não há sucesso sem bons estados maiores.

    eis dous magníficos romances de clima bélico, que vas gostar se ainda não os teres lido.
    https://lletra.uoc.edu/ca/obra/incerta-gloria-1956.pdf
    https://www.ebookelo.com/ebook/26321/incerta-gloria
    http://lelivros.love/book/baixar-livro-vida-e-destino-vassili-grossman-em-pdf-epub-e-mobi/

    abraço, abanhos

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  2. abanhos

    o da emigração judia é mito
    https://www.academia.edu/6414866/INVENCAO_DO_POVO_JUDEU_A_-_1a_edi%C3%A7%C3%A3o
    o sionismo é o nacion açlismo jiudaico criado como reação aos cristãos nacionalistas de estados nações europeias, que não reconheciam a condição plena de nacionais das sjuas nações aos que definkiam jiudaicos, e que +podia signifgicatr muiitas cousas discriminatórias

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