Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – 19. Porque razão os Estados Unidos perderiam uma guerra comercial com a China. Por Anatole Kaletsky

Tensão EUA China 0

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

19. Porque razão os Estados Unidos perderiam uma guerra comercial com a China

Anatole Kaletsky Por Anatole Kaletsky

Publicado por Project syndicate, em 21 de setembro de 2018 (aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo em 16 de outubro de 2018 (aqui)

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A gestão keynesiana da procura é um melhor guia do que a vantagem comparativa para neutralizar o conflito entre os Estados Unidos e a China. Em princípio, a China pode evitar qualquer dano causado pelas tarifas aduaneiras dos Estados Unidos simplesmente respondendo com um estímulo keynesiano em grande escala.

 

Londres- Os Estados Unidos não podem ganhar a sua guerra das tarifas aduaneiras contra a China, diga ou faça o que quer que seja o Presidente Trump nos meses que se seguem. Trump pensa que tem a vantagem neste conflito, porque a economia americana é forte e porque os políticos de ambos os partidos – republicano e democrata – apoiam o objetivo estratégico de frustrar a ascensão da China e preservar o domínio global dos EUA.

Mas, ironicamente, esta aparente fortaleza é a fraqueza fatal de Trump. Aplicando o princípio das artes marciais de redirecionar a força que o opositor coloca sobre ela, a China pode facilmente ganhar a guerra das tarifas, ou pelo menos impor a Trump um empate.

Desde os tempos de Ricardo que os economistas argumentam que restringir as importações reduz o bem-estar dos consumidores e dificulta o crescimento da produtividade. Mas não é essa a principal razão pela qual Trump será forçado a ceder na guerra comercial. Para avaliar as respetivas forças no conflito entre estas duas potências, há um outro princípio económico – pouco invocado para explicar a futilidade da ameaça das tarifas de Trump – muito mais importante do que o conceito ricardiano de vantagens comparativas: a gestão keynesiana da procura.

Embora não haja dúvida de que as vantagens comparadas influenciam o bem-estar económico a longo prazo, o que determinará qual dos dois países se verá mais pressionado a pedir a paz comercial nos próximos meses serão as condições da procura. E de acordo com este critério, as tarifas de Trump são claramente prejudiciais aos Estados Unidos, mas não farão nenhuma mossa na China.

De um ponto de vista keynesiano, o resultado de uma guerra comercial depende principalmente de se os concorrentes estão em recessão ou se estão perante uma procura agregada relativamente elevada. Numa recessão, as tarifas podem estimular a atividade económica e o emprego, embora ao preço de uma menor eficiência a longo prazo. Mas numa economia que opera ao nível do seu PIB potencial ou próximo, como é claramente o caso dos EUA agora, as tarifas só vão aumentar os preços e adicionar pressão ascendente sobre as taxas de juros.

Ao nível agregado, as empresas americanas não conseguirão encontrar trabalhadores dispostos a trabalhar por salários baixos para substituir os bens importados chineses; e mesmo aquelas poucas empresas que encontram nas tarifas uma força motriz para concorrerem contra as importações vindas da China teriam que aumentar os salários e construir mais fábricas, que contribuiriam para a pressão ascendente na inflação e nas taxas de juro. Dado a falta de capacidade excedentária, os investimentos novos e a contratação necessários para substituir os bens chineses seriam prejudiciais a outras decisões empresariais que eram mais rentáveis antes da guerra das tarifas com a China. Assim, a menos que as empresas americanas tenham a certeza de que as tarifas continuarão por muitos anos, elas não vão investir ou contratar mais trabalhadores para concorrerem com os produtos chineses.

Assumindo que as empresas chinesas estão bem informadas e conscientes disso, elas não vão reduzir os seus preços de exportação para absorver o custo das tarifas dos EUA. Isso vai forçar os importadores a pagar tarifas e a deslocarem o custo para os consumidores (o que irá acrescentar pressão sobre a inflação) ou para os acionistas, reduzindo os lucros.

Assim, as tarifas não serão uma “punição” para a China, como Trump parece acreditar, mas prejudicará primeiramente os consumidores e empresários americanos, como se fosse um aumento de imposto sobre as vendas.

Mas suponhamos que as tarifas podem excluir alguns produtos chineses do mercado americano. De onde é que viriam os substitutos importados ao preço que vêm da China?

Na maioria dos casos, a resposta é: de outras economias emergentes. Alguns bens de gama baixa, tais como sapatos e brinquedos, serão comprados no Vietnam ou na Índia. A montagem final de alguns equipamentos eletrónicos e industriais pode ser deslocada para a Coreia do Sul ou México. Alguns fornecedores japoneses e europeus podem substituir os fabricantes chineses de produtos de alta qualidade. Assim, numa medida muito limitada em que as tarifas possam ser “punitivas” para a China, o efeito sobre os outros mercados emergentes e sobre a economia global não será um “contágio” nocivo, mas sim um ligeiro estímulo à procura, resultante da substituição das exportações chinesas para os Estados Unidos.

É verdade que os exportadores chineses podem sofrer perdas ligeiras quando outros produtores se aproveitarem das nossas tarifas para substituí-los no nosso mercado. Mas utilizando a gestão da procura para compensar a perda de exportações para os EUA, a China pode anular qualquer efeito sobre o crescimento, o emprego e sobre os lucros das empresas. Nesse sentido, o governo já começou a estimular o consumo local e o investimento através da expansão monetária e da redução de impostos.

Mas as medidas de estímulo da China foram até agora cautelosas, tendo em conta o impacto negligenciável que as tarifas dos EUA têm sobre as exportações chinesas. Entretanto, se os sinais de um enfraquecimento das exportações começarem a aparecer, a China pode e deve compensar a perda com medidas adicionais para estimular a procura interna; em princípio, bastaria aplicar um estímulo keynesiano em larga escala para evitar qualquer dano decorrente de tarifas. Mas será que o governo chinês quer fazê-lo?

É neste ponto onde, paradoxalmente, o apoio bipartidário nos Estados Unidos a uma “política de contenção” em relação à China se vira contra Trump. Até agora, os dirigentes chineses têm sido relutantes em recorrer abertamente à aplicação de estímulos sobre a procura como uma arma na guerra comercial, devido ao forte compromisso assumido pelo presidente Xi Jinping de limitar o crescimento da dívida da China e de reformar o setor bancário.

Mas não há qualquer dúvida que esses argumentos da política financeira contra a implementação de uma política keynesiana são irrelevantes agora, uma vez que os Estados Unidos apresentaram a batalha tarifária de Trump como a primeira escaramuça de uma guerra fria geopolítica. É simplesmente impensável que Xi venha a dar mais prioridade à gestão dos problemas do crédito do que ganhar a guerra das tarifas e assim demonstrar a futilidade da estratégia americana de contenção da China.

Isto levanta a questão de saber como é que Trump reagirá quando as suas tarifas começarem a prejudicar as empresas e os eleitores americanos, enquanto que a China e o resto do mundo não estarão a ser atingidos por elas. A resposta provável é que Trump seguirá o precedente dos seus conflitos com a Coreia do Norte, a União Europeia e o México: proporá um “acordo” que não consegue alcançar os seus declarados objetivos, mas que lhe permitirá vangloriar-se de uma “vitória” e justificar a beligerância verbal que excita os seus apoiantes.

A técnica retórica surpreendentemente bem-sucedida de Trump de “começar a gritar e acabar a mostrar a bandeira branca” ajuda a explicar a coerente incoerência da sua política externa. A guerra comercial EUA-China é suscetível de nos oferecer o próximo exemplo disso mesmo.

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O autor: Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-presidente da Gavekal Dragonomics. Ex-colunista do Times of London, do International New York Times e do Financial Times, é o autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy, que antecipou muitas das transformações pós-crise da economia global. O seu livro de 1985, Costs of Default, tornou-se uma cartilha influente para os governos latino-americanos e asiáticos negociando incumprimentos e reestruturações com os bancos e o FMI.

 

 

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