OS CONTOS DE FADAS FASCINAM CRIANÇAS E ADULTOS por Luísa Lobão Moniz

– Conta-me uma história…

– Conta outra vez a História do Capuchinho Vermelho…

Rita 4 anos, 1992

Os contos de fadas fascinam crianças e adultos.

A Feira do Livro, em Lisboa, acaba hoje, domingo16 de Junho.

Um dia como outro qualquer?

 Não, não é um dia como outro qualquer, desde o dia 29 de Maio que milhares de adultos e de crianças foram à feira. Os adultos compraram ou não, as crianças viram, tocaram, estiveram com livros nas suas mãos trapalhonas que os deixavam cair no chão.

“ Não estragues o livro!” diz um adulto

“Não faz mal, acontece muito com as crianças, não se preocupe que esse livro é só para estar no tabuleiro”, diz alguém que está dentro do pavilhão.

Porque será que as crianças têm essa curiosidade de pegar num livro?

A criança aprende por imitação e aqui limita-se a fazer o que vê os pais fazerem, mas será só isso?

A sociedade preocupa-se, ou devia, com o bem-estar da Criança e com o seu desenvolvimento desde a dependência dos adultos até à sua autonomia.

A Criança sabe que as histórias correspondem a necessidades emocionais dela própria e que apresentam personagens com as quais ela se identifica, fortalecendo a sua vida interior, assim como a capacidade de se relacionar com a realidade em que vive.

Por exemplo, os já tão contestados contos para a infância contêm, em si mesmos, acontecimentos violentos, não de violência gratuita, mas inserida no desenrolar da história para que se possa tirar uma conclusão moral: a expulsão dos filhos “Hensel e Gretel”, o lobo que come a avó, no “Capuchinho Vermelho”, O lobo que quer comer os cabritinhos em ” Os sete cabritinhos”.

A Criança inventa as suas próprias brincadeiras com as regras que lhes são impostas e que ela, muitas vezes, não compreende. A visibilidade dessa capacidade está nas rimas infantis, e na maneira como conseguem brincar com as interdições a que estão sujeitas por serem crianças.

No seu percurso de vida, há momentos em que se sente abandonada ou com medo de o ser, sente-se incompreendida, sente o desejo de agradar a quem gosta, sente a fragilidade dos adultos, a falta de sanções que a proteja dos maus tratos ou das negligências.

Muitas vezes os contos tradicionais, as histórias para Criança, conseguem mostrar o conforto existencial, de que precisa, para pôr em ordem um mundo que não entende.

A criança aprende a regular os seus comportamentos violentos, agressivos com a distância ou a proximidade da figura de vinculação, assim como com as aprendizagens de histórias tradicionais.

Sabe que necessita de comportamentos que regulem a formação dos laços emocionais, precisa de uma imagem que permita a proximidade desejada de uma figura mais forte e sabedora que a ajude a superar dificuldades.

A Criança sabe que a moral, a justiça, a obediência, o respeito mútuo, o reconhecimento são Direitos que lhe assistem.

Vou-me fixar nos famosos contos de fadas, que só por si são ainda um mundo a descobrir por todos nós.

 Acredito que estes contos, através dos seus personagens, das situações vividas com as provações pelas quais têm que passar, das atitudes tomadas, das alegrias e das tristezas dos seus heróis, podem enriquecer o seu desenvolvimento moral.

Os contos de fadas ajudam a Criança a lidar com os conflitos internos que enfrentam, durante o processo de crescimento, na relação com o outro e consigo própria, de acordo com o seu desenvolvimento moral.

Os contos de fadas têm uma narrativa curta, transmitida oralmente, em que os personagens têm que enfrentar obstáculos antes de derrotarem o mal.

Vladimir Propp (1895-1970), académico estruturalista russo considera, a partir dos contos populares russos, que os contos de fadas têm como função contar histórias e o que importa, realmente, é o que fazem os personagens e não quem faz o quê e como o faz.

Em Portugal, entre outros, Maria Amália Vaz de Carvalho organizou uma colectânea Contos para os Nossos Filhos, adaptados de Grimm e Anderson, onde se pode ler: contos que elas entendam, que as interessem, que as façam rir e as façam chorar.

A Criança tem medo que os adultos saibam que ela não gosta do irmão mais novo, tem medo que a mãe não regresse mais a casa, tem medo do abandono, tem medo que não gostem dela.

A violência no seio da família não é um fenómeno dos nossos dias, perde-se nos tempos em que os seres inanimados tinham voz. A violência que os adultos exercem sobre a Criança aparece nos contos de fadas dando-nos uma representação do poder dos adultos face à fragilidade da Criança.

Os contos de fadas não se limitam a conduzir os pequenos ouvintes para a realidade das ansiedades e dos medos ou para a reparação dos fantasmas, eles são o encantamento que faz acreditar no poder de transformar que está em cada pessoa e na sua força estruturante do desejo.

Na Feira do Livro é patente a atenção que a Criança dedica aos contos de fadas. A Criança sabe e vive várias situações de violência em casa e interroga-se de como vai ser quando for grande e se os maus irão ser castigados.

A Feira do Livro é uma gigante Biblioteca que faz da Criança um ser activo na escolha dos seus livros e na descoberta de um mundo, a preto e branco ou colorido, com desenhos e textos que lhe são íntimos.

A Feira do Livro pode vir, ou está já a ser um contributo importante para o despertar de Crianças e de Adultos para uma realidade desconfortável que vive dentro e fora deles face a um mundo que está estilhaçado, que viola todos os dias os Direitos da Criança.

A Feira do Livro é um raio de Sol sempre que uma Criança pega num livro, quando este cai ao chão e quando absorta pelos seus sentimentos escolhe um livro para os pais comprarem.

Bem-vinda Feira do Livro, a Criança despede-se até para o ano.

As fadas… eu creio nelas!

Antero de Quental (1996:70)

Os contos tradicionais são as mais bonitas mensagens à vida que uma criança pode receber.

P.S.

Esta reflexão é baseada num trabalho de investigação, feito por mim, com crianças sobre os contos.

– Conta-me uma história…

– Conta outra vez a História do Capuchinho Vermelho…              Rita 4 anos

 

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