Sobre bandeiras falsas e pretextos para a próxima guerra. Por Doug Casey

False flag

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Sobre bandeiras falsas e pretextos para a próxima guerra

Doug Casey Por Doug Casey

Publicado por International Man em 22 de junho de 2019 (ver aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo (ver aqui)

Falsas bandeiras

International Man: As pessoas que olham para lá da narrativa dominante dos eventos históricos muitas vezes encontram o termo ataque sob “falsa bandeira “. O que é que isso significa exatamente? Quem é que utiliza essa tática?

Doug Casey: Vamos definir esse termo com precisão. O Dicionário Oxford define uma bandeira falsa como “Um ato político ou militar orquestrado de tal forma que parece ter sido realizado por uma parte ou entidade que não é de facto a responsável por esse mesmo ato”.

O conceito de bandeiras falsas ganhou má reputação nos meios de comunicação e nos círculos governamentais e talvez com a população em geral, porque elas passaram a ser associadas a teorias da conspiração. E a “teoria da conspiração”, válida ou não, é usada como pejorativa. Embora haja definitivamente algumas pessoas que gostam de andar com chapéus de folha de alumínio, o establishment gosta de rotular qualquer crença que não siga a linha do Partido como uma teoria da conspiração.

Na verdade, as falsas bandeiras fazem todo o sentido no mundo para alguém que quer começar uma guerra ou que precisa de uma cobertura para algum outro empreendimento criminoso. O senhor nunca quer ser visto como o agressor ou o mau da fita. O senhor quer sempre poder culpar alguém sobre o que está a acontecer. Se o senhor está interessado em iniciar uma guerra, o senhor quer parecer como sendo a parte inocente que está a ser prejudicada, a fim de colocar a população do seu lado.

Dizem que na guerra, a verdade é a primeira vítima. Usar uma bandeira falsa para disfarçar a criminalidade é nisso uma parte essencial. E não é apenas um dos dois maiores partidos numa guerra que usa bandeiras falsas. Pode ser um terceiro interessado que está a procurar criar problemas entre os outros dois.

Vou usar uma analogia do recreio da escola. Às vezes um terceiro vai ter com o Billy e diz que Joey está a falar mal dele. O mesmo vai depois ter com Joey e diz que Billy está a falar mal dele. Um “terceiro” pode criar um monte de antagonismos mútuos onde não existiam antes. Há muitas variações na rotina da falsa bandeira.

Eu diria que a maioria das guerras são iniciadas com bandeiras falsas de uma forma ou de outra, onde o verdadeiro criminoso está disfarçado.

As pessoas que dirigem os estados-nação nunca são do mais alto carácter moral. Na verdade, quando se trata de líderes políticos, a escumalha sobe ao topo. Estas pessoas são necessariamente maquiavélicas e capazes de tudo para se manterem no poder; têm de o ser para poderem chegar ao topo, ao ninho das serpentes políticas. Mesmo que uma pessoa seja basicamente decente quando entra na política, ela inevitavelmente será corrompida pelo seu ambiente – e pelo facto de que é esperado que ela exerça poder e use a força para preservar os interesses do Estado. Você pode esperar deles principalmente muita duplicidade e hipocrisia.

 

International Man: Houve muitos exemplos de eventos de falsa bandeira que mudaram o curso da história – levando a guerras, intervenções militares e convulsões políticas. O que acha de alguns dos exemplos históricos mais notáveis, como o Golfo de Tonkin, por exemplo?

Doug Casey: Esse é um excelente exemplo. O Golfo de Tonkin foi inteiramente fabricado pela administração Johnson, que estava a procurar uma desculpa para invadir o Vietname.

Na história recente, quando os japoneses precisaram de uma desculpa para invadir a China em 1931, fabricaram o chamado Incidente de Mukden, a destruição de uma linha férrea na Manchúria. Quando os alemães invadiram a Polónia, em 1939, fabricaram o que é conhecido como o Incidente de Gleiwitz, vestindo os soldados alemães com uniformes polacos para fazer parecer que os polacos eram os agressores. Em 1962, os EUA criaram a Operação Northwoods, que planeou todo o tipo de incidentes – disparar contra um avião americano, afundar navios americanos – para culpar Cuba. Essa conspiração, felizmente, nunca foi executada.

Este é um procedimento operacional padrão quando se quer iniciar uma guerra. O senhor precisa de um casus belli – uma causa de guerra – mas quer culpar o outro.

Mais recentemente, veja-se a Guerra do Golfo de 1991, que foi simplesmente uma questão de criminosos no Iraque a tentar expulsar os criminosos que governavam o Kuwait, principalmente a família Sabah. Os meios de comunicação social divulgaram de imediato a notícia de que os soldados iraquianos estavam a tirar bebés kuwaitianos das suas incubadoras nos hospitais e a colocá-los num chão frio para poderem enviar as incubadoras de volta para o Iraque.

Depois descobriu-se que a fonte desta informação era a filha do embaixador do Kuwait, que nunca deu uma entrevista subsequente. Foi tudo uma mentira, mas antes que a verdade viesse ao de cima, o mal já estava feito.

Não se pode acreditar em nada do que se ouve sobre uma guerra, nem nos relatos sobre uma guerra. A guerra psicológica é tão importante quanto a guerra propriamente dita, certamente no mundo de hoje.

 

International Man: Parece que quase não importa que a verdade se saiba a longo prazo. Mas então o dano já está feito. Desde que a propaganda sirva o seu propósito de criar a reação pretendida a curto prazo, isso é o que realmente interessa.

Outro exemplo recente disso é na Síria, onde um incidente suspeito provocou uma resposta militar direta dos EUA.

O famoso jornalista de investigação Seymour Hersh afirmou que um suposto ataque com armas químicas na Síria, supostamente cometido pelo presidente sírio Bashar al-Assad, foi de facto um evento de falsa bandeira encenado, projetado para desencadear a intervenção militar dos EUA. O que pensa disto?

 Doug Casey: Hersh é um dos poucos repórteres que faz investigação original e pensa por si próprio. Não havia nada para o governo sírio e Assad lançarem esses ataques químicos. Eles estavam bem cientes de que isso só prejudicaria a sua imagem. Para já não falar de que as armas químicas são quase tão perigosas para as pessoas que as lançam quanto são para as pessoas contra quem são lançadas. Além disso, esses ataques eram militarmente completamente desnecessários.

Então, parece-me que é outra bandeira falsa lançada por quem sabe que partido fará passar o governo de Assad como um muito mau governo. Para fazer de Assad um novo diabo, como Saddam. Assad não é nenhum santo, mas é uma consequência natural de tentar manter juntas dezenas de grupos religiosos e étnicos antagónicos. Mas isso é outra história, para outra conversa.

Aliás, as pessoas esquecem que Assad foi nosso aliado na Guerra do Golfo de 1991. Ele foi nosso aliado subsidiado naquele momento, assim como o próprio Saddam foi um aliado dos EUA no momento em que lançou uma guerra contra os iranianos nos anos 80.

O facto é que os americanos sabem pouco sobre qualquer coisa que se passe no exterior, além do que eles veem ou ouvem na TV e outros meios de comunicação de massa. A maioria das “reportagens” é apenas uma repetição dos comunicados de imprensa oficiais.

International Man: Recentemente, dois petroleiros foram atacados perto do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico. O governo dos EUA disse que foi o Irão. O Irão disse que foi um ataque de falsa bandeira. O que é que acha? O senhor acha que em breve veremos um evento suspeito ser usado como um casus belli para outra guerra no Oriente Médio?

Doug Casey: Eu diria que as chances dos iranianos terem feito isso são poucas ou nenhumas. A última coisa que os iranianos querem é parecer que estão a tentar interromper um quarto do fornecimento de petróleo do mundo e talvez provocar os EUA para atacar o Irão. Eles não têm nada a ganhar com isso. Então, é uma questão de cui bono (a quem beneficia).

Poderiam ser os sauditas que fabricaram isso; eles são inimigos do Irão, mas têm um exército completamente inútil. Eles preferem enganar os americanos para que façam a luta. Poderiam ser os israelitas. Eles são muito antagónicos em relação ao Irão, que é o último país da região capaz de criar um desafio militar contra eles.

Poderia ser outra terceira parte que não estamos sequer a pensar neste momento, que beneficiaria se os EUA ficassem atolados em mais uma guerra batendo nos iranianos.

Sou cético em relação a tudo o que leio nos jornais ou vejo na televisão. As chances são excelentes, as explosões de petroleiros foram fabricadas, torcidas ou deformadas.

Vale a pena mencionar que a Marinha dos EUA não tem o seu lugar no Golfo Pérsico ou perto dele, assim como as marinhas chinesas ou russas não têm o seu lugar na Califórnia ou no Golfo do México, a 20 milhas da costa americana.

Isto é pura provocação. Os EUA recebem muito pouco petróleo do Golfo Pérsico. A maior parte desse petróleo vai para a Ásia – os chineses, os indianos e os japoneses. Este não é o nosso problema.

Os EUA não são o polícia do mundo, e o resto do mundo não gosta que lhe deem ordens. Os EUA estão -se a colocar em posição de provocar uma grande guerra. Mas isto não será apenas mais uma guerra desportiva, como as do Afeganistão e do Iraque.

International Man: O que diz sobre a natureza do governo dos EUA – ou de qualquer governo – que usaria uma bandeira falsa para fazer aceitar uma guerra aos seus cidadãos?

Doug Casey: Bem, deixe-me dizer novamente, a maioria das pessoas nos altos níveis de governo são na verdade personalidades criminosas que são capazes de fazer absolutamente seja o que for.

Quando isto se complica tornando-se um “nós” contra “eles”, será muito perigoso para qualquer um, num ou no outro país, manifestar-se contra a guerra. Até mesmo H.L. Mencken ficou em silêncio quando os EUA entraram na Primeira Guerra Mundial, embora fosse óbvio que o nosso envolvimento foi fomentado por Woodrow Wilson – que perseguiu os opositores que se manifestaram abertamente contra a entrada na guerra. As possibilidades de que o senhor seja rotulado de traidor e ser preso – ou preso pela multidão – são extremamente altas quando o primeiro tiro é disparado.

Como disse Randolf Bourne, “A guerra é a saúde do Estado.”

A guerra é sempre destruidora da liberdade individual e aumenta sempre o poder do Estado.

 

International Man: É verdade que a guerra pode levar a consequências negativas imprevisíveis para as liberdades civis em casa. O que é que as pessoas podem fazer para se protegerem?

Doug Casey: Você não quer estar num país que está a travar uma grande guerra. Você quer estar num país neutro e isolado – embora a natureza da próxima grande guerra faça com que não haja quase nenhum lugar seguro para se esconder. Mas alguns lugares serão mais seguros do que outros. Na verdade, o seu maior perigo pode não ser “o inimigo”. O seu maior perigo podem ser os seus chamados concidadãos.

É muito importante ter um apoio. Qualquer coisa pode dar errado em qualquer lugar.

Qualquer pessoa que disponha de meios deve ter uma segunda residência fora do seu país de origem, e talvez uma segunda cidadania e um segundo passaporte. Nunca se sabe quando é que um governo pode decidir reunir os suspeitos habituais. E durante a guerra todos e qualquer um é suspeito. Nesse momento é mais sensato sair imediatamente, fugir.

 

Nota do Editor: Astensões com o Irão podem explodir em breve. Nos últimos 2 meses, seis petroleiros foram atacados perto do Estreito de Ormuz. E ontem, o Irão admitiu ter abatido um drone americano que, segundo ele, estava a sobrevoar o seu espaço aéreo. A situação pode disparar e ficar fora de controle muito em breve e fazer com que os preços do petróleo subam durante a noite.

O próximo choque petrolífero pode estar muito mais perto do que muitas pessoas pensam.

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