Ainda sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos – “Hong Kong: uma revolução de papel… colorido!” Por Laurent Schiaparelli

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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Acabámos de editar uma pequena série de textos sob o tema Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos. Em sequência publicámos dois textos de Michael Pettis – “Porque é que a dívida dos Estados Unidos vai continuar a aumentar” e “Os Estados Unidos devem ter um excedente comercial?” – nos quais este especialista em macroeconomia analisa aprofundadamente o problema do desequilíbrio comercial dos EUA, e vem colocar o problema em termos muito, ou mesmo radicalmente diferentes daqueles que nos são apresentados pelos economistas do mainstream e pelos meios de comunicação dominantes.

Pensamos que todos aqueles que percorrem o caminho estabelecido pela Viagem dos Argonautas terão ficado esclarecidos sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos. Porém, haverá alguns, não muitos creio, que terão ficado com dúvidas ou permanecido mesmo renitentes em aceitar os múltiplos argumentos que foram levantados. Mas a realidade é teimosa e força sempre em abrir o caminho da realidade para quem ainda tenha dúvidas, para quem ainda não viu esse caminho.

Neste sentido, publicamos dois textos diretamente ligados ao tema, um de Martin Wolf, do Financial Times, e o outro, o Livro Branco publicado pelo governo chinês, onde se traça o que têm sido estes longos meses de tensões e de negociações entre a China e os Estados Unidos, meses tanto mais difíceis quanto a politica de negociação da Administração americana parece ser : “o que o nosso poder pode impor é o que está certo”. A estes dois textos adicionamos dois outros, mas sobre Hong Kong, uma vez que esta antiga colónia inglesa acaba agora de se transformar em mais um foco de tensão entre a China e os Estados Unidos. Sobre Hong Kong, apresento-vos um texto de Ambrose Evans-Pritchard, publicado por The Telegraph, intitulado Washington pode pôr um fim ao modelo económico de Hong Kong a qualquer momento, E um segundo texto de Laurent Schiaparelli, editado por Thé D’Orient e publicado por Antipress, nº 188 de 7 de Julho de 2019, intitulado Hong Kong: uma revolução em papel… colorido!

Os leitores que ficaram esclarecidos com os textos anteriormente publicados na série Sobre as razões que estão na base dos focos de tensão entre a China e os Estados Unidos verão com estes quatro textos confirmadas as suas certezas e os segundos, os que até aqui ficaram renitentes, esperamos que venham a ver dissipadas as suas incertezas.

JM

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Hong Kong: uma revolução de papel… colorido!

Laurent Schiaparelli Por Laurent Schiaparelli

Editado por THÉ D’ORIENT e publicado por Antipresse, nº 188 de 7 de Julho de 2019 , Hong Kong: une révolution en carton… de couleur!

 

As manifestações que se desenrolam desde há um mês em Hong Kong (ver Antipresse 185), estão a tomar um rumo violento e niilista que a maioria dos seus cidadãos rejeita, para que os falsários da informação venham em seu socorro para lhe prolongar a vida: imagens modificadas de manifestações, sobrestimação do número de manifestantes, interferência de agentes estrangeiros, em suma, toda a panóplia de uma “revolução colorida “…

Ainda China EUA 4 Hong Kong revolução papel colorido 1

 

PHOTOSHOP E INFLAÇÃO DAS ESTIMATIVAS

As imagens que circulam “de forma viral ” nas redes sociais têm sido analisadas, e tem sido demonstrado que o truque usado (espelhamento) para aumentar a impressão de maré humana é um truque digno de um estudante de primeiro ano de design em informática. [1], [2][3][4]

Os números apresentados pelos simpáticos organizadores e pelos meios de comunicação social que os apoiam incondicionalmente (um milhão de manifestantes na primeira semana, dois milhões na segunda semana, ou seja, um terço da população de Hong Kong!) não são acompanhados de qualquer método de contagem e contrastam fortemente com os números da polícia, de cerca de 240.000 manifestantes.

O exagero contabilístico dos media é tão flagrante que deu origem a artigos que põem estas análises em dúvida, artigos estes publicados em sites americanos que não são pouco suspeitos de enredos anti-media [5]. Num destes artigos explica-se, por exemplo, que uma das fotos mais difundidas nas redes sociais, supostamente representando o epicentro da maré humana, não poderia conter mais de 7.000 manifestantes. Retomando um método de contagem. incontestado, o artigo utiliza o número oficial de “um milhão” citado na primeira semana, e mostra que se este número fosse exato, teria havido cerca de 27 quilómetros de manifestantes entre o Parque Vitória e o Almirantado, onde as manifestações tiveram lugar oficialmente. Não há fotos que sustentem este número de 27 km de manifestações, pela boa razão de que não há ruas pavimentadas suficientes nesta área para chegar a este número [*].

 

INGERÊNCIAS

O ministro dos negócios estrangeiros britânico Jeremy Hunt, que desde o início apoiou inequivocamente os manifestantes, permitindo-se ameaçar a China com “graves consequências”, foi colocado no seu lugar pelo embaixador chinês no Reino Unido, que considerou as suas declarações “um surto de febre pós-colonial”, recordando-lhe que a antiga colónia regressou de facto à China há 22 anos e que a “Lei Básica” não pode ser invocada para justificar uma ingerência estrangeira nos assuntos internos da China, nem os tumultos como os que tiveram lugar até mesmo no Conselho Legislativo (Parlamento), que os jovens aprendizes democratas saquearam esta semana.

Apoio mais sulfuroso do que o cómico ministro inglês, é dado por Guo Wengui, um famoso empresário de Pequim, processado por corrupção ativa de funcionários públicos e outros delitos, e que tem estado em fuga nos Estados Unidos  desde há vários anos, que teve a brilhante ideia contraproducente de transmitir nas redes sociais as conversas de vídeo que tinha com líderes do movimento (idade média de 25 anos), nas quais lhes assegura que está em contato direto com altos funcionários do governo dos EUA, prometendo ao movimento fundos ilimitados, proteção pessoal para os líderes de Hong Kong, bem como a preparação de procedimentos de emigração para os Estados Unidos, exortando-os em troca a intensificar a insurreição sem demora para não dar tempo a Pequim de organizar a resposta. O vídeo tornou-se viral na China, mostrando ao público chinês que Hong Kong é de facto o elo fraco que os Estados Unidos badalam constantemente e por procuração (o inevitável caráter vaudeville do “dissidente chinês”), numa tentativa de desestabilizar a China.

A guerreira democrata americana Nancy Pelosi lembrou-nos carinhosamente o seu tributo público à “coragem” dos manifestantes (corajosos mas todos mascarados, até para distribuir durante a semana os folhetos nas ruas para a manifestação do fim de semana).

Finalmente, a Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, e os líderes do seu partido independentista, o DPP, a meia haste nas sondagens de opinião para as eleições presidenciais de 2020, aproveitaram a oportunidade para apoiar o movimento de Hong Kong em seu próprio benefício eleitoral, apoiando a criação, em Junho, de uma “Aliança Taiwan-Hong Kong” em “apoio preocupado aos seus homólogos de Hong Kong”. Em duas semanas, passou do terceiro para o primeiro lugar nas sondagens de opinião. Recompensa eleitoral imediata a baixo custo.

 

ORDO AB CHAO [ordem através do caos]

Os debates na cidade dividem a população, tanto de Hong Kong como de expatriados, em dois grupos. O que é, como podemos imaginar, o objetivo procurado:

  • por um lado, uma minoria de manifestantes que reúne jovens revoltados (contra a falta de um futuro brilhante, não contra a probabilidade quase nula de serem extraditados para a China), pequenos comerciantes e alguns empregados de escritório, expatriados ou locais, que apoiam verbalmente os jovens sem se irem confrontar com a polícia que, ao contrário da polícia francesa, mostra uma contenção notável em relação aos manifestantes, frequentemente violentos.
  • do outro lado, uma grande maioria de cidadãos indiferentes ou mesmo hostis a esta violência e a estas exigências exageradas (ver foto) que apenas põem em perigo a já febril economia de Hong Kong e que estão conscientes de que Pequim pode pôr termo ao regime privilegiado de Hong Kong, nomeadamente no domínio dos serviços financeiros, e transferir estes serviços para Xangai. Aqueles, mais velhos, com um emprego e uma família a seu cargo, ficam nos seus locais de trabalho sem perguntar aos colegas de que lado estão (esta pergunta feita de forma ansiosa é naturalmente própria do fanfarrão que apoia verbalmente os manifestantes), ou também se manifestam, mas para apoiar a polícia.

É lamentável que nenhum dos manifestantes perceba, e ninguém lhes explique definitivamente, que o quadro “um país, dois sistemas” que tem regido as relações entre Hong Kong e a China desde a transferência de 1997, garantindo a Hong Kong um certo grau de autonomia durante 50 anos, é essencialmente um período de adaptação e transformação do sistema de Hong Kong para o integrar no sistema chinês.

Imaginar por um momento que estes cinquenta anos de adaptação poderiam ter sido uma garantia do status quo para Hong Kong é uma ingenuidade de adolescente, ou um engano que consiste em fazer crer a Hong Kong que a China precisaria de 50 anos para se adaptar a Hong Kong, quando, obviamente, só poderia ser o contrário. Como podemos imaginar seriamente que 1,5 mil milhões de pessoas governadas por um único partido, que durante 30 anos teve um crescimento de dois dígitos, se conformariam a um sistema herdado do colonialismo ocidental em declínio e governava apenas 6 milhões de pessoas em 1997 (7,5 milhões hoje)?

Hoje, podemos compreender melhor as verdadeiras intenções do eixo anglo-saxónico em 1984, quando foi assinada a Declaração Conjunta Sino-Britânica, preparando a entrega de 1997 e estabelecendo o quadro “Um país, dois sistemas”, que deveria durar até 2047: “Estamos a dar-nos 50 anos para derrubar o comunismo na China, como fizemos na Rússia. Por conseguinte, não haverá qualquer problema com a integração de Hong Kong na China”. Ou como tomar os seus desejos por realidades.

 

AS UVAS AINDA VERDES DA CÓLERA

Os jovens cidadãos de Hong Kong expressam um sentimento de cólera sobre a qual não podem colocar um nome, sendo os perus da cruel farsa que lhes fez a Pérfida Albion ao conceder-lhes, em 1995 (após 150 anos de colonização britânica, de forma alguma sob o signo da democracia participativa), um semi-direito de voto (nem mesmo por sufrágio universal, mas por um colégio eleitoral de 1200 representantes do povo), fazendo-os crer, apenas dois anos antes do retorno à esfera chinesa, que estavam a alcançar a democracia liberal à  Ocidental. O problema é que eles acreditaram nisso!

As atuais manifestações em Hong Kong não são ilegítimas. Eles são uma expressão da raiva da juventude de Hong Kong, que percebe que eles foram sacrificados aos interesses do Império Anglo-Saxónico e da casta de compradores locais que os substituiu desde 1997. Os cidadãos mais ricos de Hong Kong compraram todos passaporte americano, canadiano e australiano nos anos 80 e 90, alguns da classe média alta obtiveram passaportes British National [Overseas] na década anterior à transferência de poderes, mas a grande maioria da população tornou-se cidadã chinesa do dia para a noite, desfrutando ainda assim de um passaporte especial que é um sésamo desejado por todos os chineses.

Desde 1997, a especulação imobiliária por parte de uma pequena casta de oligarcas de Hong Kong tornou impossível que as pessoas comuns comprassem casa. Os jovens de Hong Kong percebem, tarde demais, que nunca poderão adquirir um apartamento apertado nos subúrbios, mesmo que se endividem por mais de trinta anos. Os jovens casais de trinta e poucos anos em Hong Kong ainda têm de viver com os seus pais porque não podem pagar uma habitação decente, mesmo com dois salários.

Tais exigências económicas, se elas fossem expressas como tal, seriam compreendidas por Pequim, que sabe muito bem que a pobreza, a sobrecarga fiscal e a injustiça social são os fatores que desencadeiam as grandes convulsões dinásticas que marcam a história do país.

Infelizmente, esta juventude em cólera, assim como uma franja da população empobrecida, tem sido enganada durante 22 anos pela ilusão do capitalismo liberal de estilo ocidental, deixou-se distrair pela miragem de Hollywood, enamorada da sua especificidade e sentimento de superioridade sobre os chineses (o famoso “Eu não sou chinês” pronunciado por todos os habitantes de Hong Kong ), e por exigências sociais e separatistas, cada uma delas mais estéril que as outras, sem sequer considerar por um minuto o modelo de desenvolvimento local proposto por Pequim, certamente mais austero, mas mais eficiente, de uma economia de mercado com características chinesas.

Apoiada no princípio “Um país, dois sistemas” que não compreendia, a grande maioria da população de Hong Kong tem agido, desde 1997, como se a China não existisse, como se não lhes dissesse respeito. À medida que se aproxima a data fatídica de 2047, o regresso à realidade é doloroso.

Hoje, os jovens marcham atrás de bandeiras desenhadas em Washington, saqueando edifícios públicos e atacando a polícia usando métodos de guerrilha urbana ensinados por estrangeiros, sobre assuntos periféricos que não lhes dizem respeito diariamente. Estes jovens só podem encontrar uma recusa de Pequim, para grande desagrado dos detratores ocidentais, que aí só veem táticas de curto prazo, enquanto Pequim, pelo contrário, só joga a longo prazo.

 

NOTA

[*] Para melhor harmonizar a imagem, a CNN retirou do seu sítio uma entrevista com Grenville Cross, o ex-procurador geral (britânico) de Hong-Kong porque os seus pontos de vista não se enquadravam com a narrativa contada pelos meios de comunicação ocidentais e com o discurso politico neoliberal que é tido à volta deste tema.

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O autor: Laurent Schiaparelli é um empresário e consultor de empresas chinesas, sediado na Ásia há três décadas, duas delas na China. Oferece aos leitores de Antipress um novo olhar sobre a China, longe do sensacionalismo, do catastrofismo e das posturas moralizantes que caracterizam o apelo dos media e da investigação europeia sobre este assunto.

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Notas de tradutor

[1] Veja-se : https://factcheck.afp.com/incredibly-beautiful-photo-hong-kong-protest-its-cropped-reflected-image

[2] Veja-se: https://news.yahoo.com/massive-demonstration-chokes-hong-kong-extradition-anger-boils-104658230.html

[3] Veja-se: https://www.msn.com/en-sg/news/world/million-march-huge-hong-kong-protest-against-china-extradition-law/ar-AACCqEq?li=AAaGkVj e

https://web.archive.org/web/20190617091319/https:/twitter.com/CanFriendsHK/status/1140301278888644608

[4] https://www.photoshopessentials.com/photo-effects/mirror-image-effect-with-photoshop/

[5] Veja-se, por exemplo, o artigo How many really marched in Hong Kong? And how should we best guess crowd size, publicado por Columbia Journalism Review  e disponível em https://www.cjr.org/analysis/how-many-marched-protests-hong-kong-how-guess-crowd-size.php

 

 

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