CARTA DE BRAGA – “de desamparados e senadores” por António Oliveira

Os números são dramáticos e foram divulgados pela O.I.T há uma dúzia de dias no relatório ‘Panorama Social do Trabalho no Mundo em 2019

«– 700 milhões de pessoas trabalham e vivem com menos de 2,80€ por dia;

– 265 milhões delas, com apenas alguns cêntimos acima de 1€;

– estas importâncias são salários de trabalho;

– as mulheres e os jovens são os mais afectados pela desigualdade salarial, pelo desemprego e pelas menores possibilidades de aceder à formação»

Mais diz o relatório, entre outras e várias (acusações) conclusões, o modelo económico em que vivemos está obsoleto e não garante um salário aceitável para os trabalhadores terem uma vida digna bem como 80% dos países recusam aos trabalhadores a possibilidade de se organizarem e levar a cabo negociações colectivas

Boaventura Sousa Santos em ‘Descolonizar o saber e o poder’ (blog ‘Outras Palavras’) afirma que os conflitos do nosso tempo decorrem do modo como a sociedade está articulada em volta do capitalismo, do colonialismo e do hetero-patriarcado.

Para o articulista ‘enquanto o capitalismo pressupõe a igualdade abstracta de todos os seres humanos, o colonialismo e o patriarcado pressupõem que as vítimas deles são seres sem plena dignidade humana, seres sub-humanos

Acusações duríssimas que poderão levar a perguntar como se chegou e se alimenta tudo isto, mas BVS logo afirma que estes modos de domínio sempre agiram de forma articulada e aguentam-se pois ‘A continuidade da dominação segrega um senso comum capitalista, racista e sexista que serve as forças de direita, até porque é reproduzido incessantemente por grande parte da opinião publicada e pelas redes sociais

Se juntarmos a tudo isto as alterações climáticas (já aqui referidas) que os poderosos também tentam desestimar ‘O património do médio ambiente mundial – terra, oceanos, atmosfera e biosfera – de que depende a humanidade – está a ser alterado a um nível sem precedentes, afirma-se num texto recente das Nações Unidas.

Para Joel Stewart (El País, 21.07) o veterano capitão da Greenpeace, ‘Estamos num ponto muito importante da história, em que podemos destroçar o mundo ou movê-lo para uma direcção mais sustentável e justa. E o mundo todo tem de levantar a voz, ou cairemos na parte mais negra da história e as gerações futuras vão perguntar – porque não fizeram nada?

Nas fronteiras terrestres e marítimas com os chamados (ou tidos por) países ricos, nota-se bem todo este gravíssimo conjunto de questões, a ver nas catadupas de gente sem arrimo nem perspectivas de futuro, só à procura de sobreviver.

Um problema a levantar muitos mais por esse mundo fora mas que, de acordo com o filósofo Enzo Traverso, professor de história em Cornell ‘podemos salvar-nos se renunciarmos ao princípio único do mercado, da competição, da avareza e da eterna luta pelo domínio de uns humanos por outros, para ganharem sempre mais e mais

Sabe-se de tudo isto, ouvem-se palavras bonitas mas não se sabem de acções, só sabemos de trumpasborisbolsonarossalvinisorbans (por cá temos um castelo branco candidato a senador, a saber pelo que afirmou numa tv dos states!) e acabamos a olhar perplexos para o céu e a perguntar ‘que mal fizemos nós para nos acontecer isto?

Complicado mundo este onde parece já não haver mais gente como Garcia Márquez que, na carta de despedida aos amigos, deixou escrito ‘Un hombre sólo tiene derecho a mirar a otro hombre hacia abajo cuando ha de ayudarle a levantarse

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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