Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte II – Imagens soltas de uma União Europeia em decomposição a partir de alguns dos seus Estados membros. 1º Texto – A Grécia – Círculo dos patriotas desaparecidos – Parte A

A Grécia – Círculo dos patriotas desaparecidos – Parte A

(Olivier Delorme, 19 de Fevereiro de 2019)

 

“Se na Grécia, a Europa é a paz, ela assemelha‑se e em muito à paz dos cemitérios”

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 Olivier Delorme é um ensaísta e historiador. Professor no Institut d’Études Politiques de Paris, recebeu o prémio “Mondes en guerre, mondes en paix” pelos três volumes de La Grèce et les Balkans, 30 bonnes raisons pour sortir de l’Europe  nas edições  HO em 2017. Hoje, concede-nos  uma entrevista sobre a Grécia sob o prisma da guerra económica na União Europeia, e que publicaremos em duas partes.

No seu livro  30 boas razões para deixar a Europa (edições HO, 2017), o senhor destaca a origem histórica dos métodos – políticos, bem como legais – de implementação da integração europeia, seja a Alemanha nazista ou o Estado francês de Vichy. De um ponto de vista histórico e político, será que 1945 significou uma ruptura com a construção da União?

O tema da “Europa”, da ordem europeia, da cruzada europeia contra o bolchevismo, prontamente assimilado ao asiatismo  e/ou a uma “conspiração judaica”, é de facto um dos principais temas de propaganda do regime nazi, bem como de todos os governos colaboracionistas da Europa, incluindo Vichy. Esta Europa foi então apresentada como uma “terceira via”, e a luta pela sua construção em torno da Alemanha, modelo e força motriz, visou tanto o bolchevismo como a “plutocracia anglo-saxónica” que, nesta visão delirante do mundo, seria também um instrumento “nas mãos dos judeus”. E a mesma propaganda para acrescentar que esta Europa trará mais empregos, mais tempos livres,  lazer, bem-estar, harmonia e… o fim das guerras.

É engraçado ver que Aachen foi escolhida como o local onde o último tratado franco-alemão foi assinado: a referência ao império de Carlos Magno tem sido constante desde o início do que é conhecido como “integração europeia”, como foi entre os colaboracionistas franceses que apelidaram de  “Carlos Magno” à divisão SS francesa que lutou até às ruínas de Berlim.

Penso que vale a pena salientar estes pontos porque, desde o Tratado que institui a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), em 1951, foi-nos dito que a Europa é “por natureza” um conceito destinado a promover a harmonia e a fraternidade dos povos. No entanto, entre 1941 e 1945, este conceito de Europa serviu para justificar a guerra de agressão como a hierarquização dos povos e o racismo estatal. Assim, a dada altura, os europeístas teriam de deixar de dizer disparates.

Note-se que há também uma notável continuidade entre os totalitarismos do século XX e a chamada “construção europeia”, na medida em que partilham a mesma convicção de que os povos são incapazes de se governar a si próprios: a convicção mais profunda de Jean Monnet, a principal inspiração para a construção europeia, foi, sem dúvida, a de que, se deixamos as pessoas governarem-se a si próprias sem um tutor,  elas fazem necessariamente “coisas estúpidas”: levam ao governo um partido que se apresenta como de esquerda radical na Grécia, “populista” noutros países, votam contra o chamado Tratado Constitucional ou a favor do Brexit, para falarmos dos  exemplos mais recentes. Eles devem, pois,  contar com uma tecnocracia: o governo de conhecedores que sabem melhor do que as pessoas o que é bom para elas e que, no caso da UE, operam através da rede cada vez mais estreita de tratados que privam governos aparentemente democráticos da realidade do poder e, nesta fase, logicamente, privam-nos de qualquer credibilidade. Na próxima etapa, cujas premissas começam a já a aparecer  em alguns discursos, esta lógica levará, se esta evolução não for interrompida, ao questionamento do sufrágio universal em favor de uma nova forma de sufrágio censitário restrita a membros do que alguns chamam de “o círculo da razão”.

Quanto à ruptura cronológica que mencionou, ela situa-se sobretudo  em 1948-1949. No período imediato do pós-guerra, ano após ano, a Grande Aliança foi mantida. Mas à medida que se multiplicam os conflitos entre os dois sistemas que partilham o espaço europeu (Trieste, a guerra civil grega, a primeira crise de Berlim) e o domínio estalinista sobre a parte oriental da Europa, os europeus ocidentais exigem que os Estados Unidos garantam a sua segurança: é aí que tudo começa.

A primeira organização europeia, a Organização para a Cooperação Económica Europeia (OEEC, transformada em Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, OCDE, em 1961), foi fundada em 1948 para distribuir os fundos e equipamentos fornecidos no âmbito do Plano Marshall. E isto, de acordo com a “doutrina Truman” definida no ano anterior, visava restaurar as economias da Europa Ocidental, a fim de evitar o contágio comunista. Mas a OECE não se limitará a esta tarefa de administração. Irá lançar as bases de uma organização, não da Europa, mas de um espaço transatlântico que inclua os Estados Unidos, o Canadá e os Estados da Europa Ocidental, reduzindo as barreiras aduaneiras, organizando uma união de pagamentos, promovendo a introdução do Fordismo,  harmonizando as normas. Até hoje, essa organização tem produzido consistentemente ideologia neoliberal e de livre comércio, bem como estatísticas e injunções destinadas a expandir ainda mais  o alcance  dessa ideologia. Quanto ao seu primeiro Secretário Geral, de 1948 a 1955, foi nomeado  Robert Marjolin, alma danada de Monnet. Foi sucessivamente um dos criadores dos Tratados de Roma (1957), depois Vice-Presidente (1958-1967) da Comissão Europeia presidida pelo antigo jurista  nazi Walter Hallstein, o qual, prisioneiro em Junho de 1944, foi recrutado pelo programa americano de recriação  das elites alemãs. Além disso, sabe-se agora, a partir dos arquivos americanos, que Marjolin foi atribuída,  pelo Departamento de Estado americano, a partir de 1965,  a missão de  preparar uma união monetária europeia “por forma muito discreta “, até que a sua adopção se tornasse “praticamente inevitável”[1]”.

Depois, enquanto os Estados Unidos, desde a sua independência, tinham como princípio absoluto a rejeição de alianças permanentes em tempo de paz, aceitaram a conclusão de tal aliança com a assinatura do Tratado do Atlântico Norte em Abril de 1949. E isso aconteceu pouco antes de os anglo-saxónicos terem criado a República Federal da Alemanha, à qual responderá a República Democrática Alemã.

É nesta lógica da guerra fria, e em nenhuma outra, que deve ser colocada a conclusão do Tratado CECA em 1951: a defesa da Europa Ocidental pelos Estados Unidos deve ser acompanhada por uma reorganização económica do Ocidente do continente europeu que permita uma melhor penetração dos produtos americanos. Não se deve esquecer que o tremendo boom económico nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e depois de 1945 criou um medo muito forte entre a opinião pública e as autoridades americanas de que a restauração da paz seria acompanhada por uma crise de superprodução e um retorno à Grande Depressão dos anos 1930.

Nestas condições, é uma das outras impostures europeístas que deve ser trazida à luz do dia: somos mais fortes em grupo . No entanto, não se é mais forte com muitos quando se tem interesses divergentes e as decisões são sempre apenas a expressão do menor denominador comum. Por outro lado, da CECA à TAFTA, é muito mais conveniente que os americanos concordem com uma autoridade supranacional que não é democraticamente responsável perante um povo europeu que não existe, que não se decreta e não nascerá de injunções para respeitar uma taxa de inflação ou um nível de défice orçamental,  em vez de  vários governos que, em cada período  eleitoral, devem apresentar contas aos seus respectivos eleitores.

Além disso, e não obstante o seu estado civil, Monnet foi, durante toda a sua vida como comerciante de álcool e banqueiro, muito mais americano do que europeu. Assim que foi nomeado para estar à frente da CECA, pediu a Washington que lhe enviasse como embaixador o antigo chefe do ramo europeu da OSS (o antepassado da CIA). A CECA substituiu então o carvão polaco, de excelente qualidade, mas vindo de uma Europa com a qual os Estados Unidos querem acabar com o comércio, por carvão americano muito pobre, subsidiado por Washington devido à sobreprodução. Seguidamente,  Monnet solicitou um empréstimo dos Estados Unidos, cuja contrapartida seria um aumento destas importações, o que acabaria por conduzir à ruína e à liquidação da indústria do carvão nos Estados-Membros da CECA.

Monnet também está por detrás do projecto da Comunidade Europeia de Defesa (CED): devido à Guerra da Coreia, Washington exige que os europeus participem mais na sua defesa e, por conseguinte, que a Alemanha se rearme. Mas, na Europa e em França, a oposição ao renascimento de um exército alemão, cinco anos após o fim da ocupação e dos seus inúmeros crimes, é considerável. Monnet imagina, portanto, um exército alegadamente europeu, na realidade de reservistas  americanos, no qual um contingente alemão seria incluido. Como o projeto  encontrou forte  oposição (antes de fracassar) com em  França pela parte dos gaullistas e comunistas, Monnet foi ainda um dos “sábios” que concebeu a organização militar integrada do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): a circulação de pessoal político entre organizações européias, a OTAN e as multinacionais americanas,  diz muito sobre as raízes americanas desta chamada “construção européia”. O belga Paul-Henri Spaak, um dos principais criadores dos Tratados de Roma, cuja negociação teve início menos de um ano após a morte do CED, tornou-se o segundo Secretário-Geral da OTAN menos de dois meses após a assinatura destes Tratados (25 de Março de 1957), antes de entrar para o Conselho de Administração da companhia telefónica americana ITT em 1966 – nada de novo com Barroso-Goldman Sachs! O mesmo Spaak, e o francês Robert Schuman, outro “pai da Europa”, são descritos como mãos alugadas nos arquivos da CIA que sempre concedeu generosos subsídios aos movimentos europeístas. Quanto ao holandês Joseph Luns, outro “pai” dos Tratados de Roma, bateu todos os recordes de longevidade no Secretariado Geral da OTAN (1971-1984).

Na realidade, a “construção européia” nunca   foi (exceto durante o interlúdio gaulista rapidamente apagado por líderes europeus e franceses), senão uma  construção americana de uma glacis da EuropaLOcidental  no contexto da Guerra Fria, antes de se tornar, no final desta , a antecâmara da entrada na NATO de Estados da Europa Oriental libertados do jugo soviético – Estados para os quais, como está a tornar-se cada vez mais evidente, as relações com os Estados Unidos prevalecem sobre qualquer compromisso assumido no quadro da UE.

O que, agora, no contexto da “convergência de crises” que a Europa tem  de enfrentar e que pode finalmente levar ao seu próprio  desaparecimento, coloca um problema existencial a esta UE. Porque quase todos os seus membros (a começar pela Alemanha) não podem sequer imaginar uma Europa que não seja o quintal dos Estados Unidos…enquanto o criador está a mostrar  cada vez menos amenidade para com a criatura que criou . Isto porque, como resultado da reconfiguração em curso da potência americana,  a Europa se tornou secundária, a UE e a OTAN são cada vez mais vistas como vestígios de um “velho mundo”, visto, na melhor das hipóteses, como pesos mortos e, na pior, como obstáculos. Porque se Trump não é o primeiro a acusar os europeus de não gastarem o suficiente na sua defesa, ele está a inovar ao virar a página do multilateralismo e do comércio livre generalizado porque isto está a funcionar  agora   contra o poder americano – uma direcção que é provavelmente tão sustentável e independente de  futuras alternanças políticas como o foi  a viragem Thatcher-Reagan dos anos 80. O mesmo se aplica à moeda única, que em tempos foi pretendida pelo Departamento de Estado, mas que se transformou – devido ao euro estar subavaliado relativamente à  Alemanha, enquanto que axfixia simultaneamente a maioria dos países da zona euro afce aos  quais  o euro está sobrevalorizada – num poderoso instrumento de dumping dos produtos alemães, em detrimento dos empregos americanos.

A doxa europeísta gosta de invocar ad nauseam o seu famoso slogan “A Europa é paz”. Como especialista sobre a Grécia, podem as políticas de austeridade que a afectam e as consequências que sempre foram descritas como “pax europeæ“?

Ponhamos primeiro termo a esta fraude intelectual de primeira classe da “Europa é a paz”. A paz na Europa, após a Segunda Guerra Mundial, é o equilíbrio do terror, sendo impossível qualquer guerra em solo europeu – excepto a “destruição mútua assegurada” – a partir do momento em que, em 1949, a URSS adquire a arma nuclear à disposição dos Estados Unidos desde 1945, e cada uma das duas potências considera que o seu interesse vital reside na preservação do seu glacis europeu. Da mesma forma, portanto, qualquer conflito dentro de cada lado é impossível. Os “orgãos” europeus criados por tratados sucessivos não são, portanto, não têm  nada a a ver com a  paz do continente e, na década de 1990, até mostraram  a sua nocividade para a paz durante as guerras de secessão jugoslavas e a agressão ilegal contra a Sérvia.

Então, se na Grécia,  a Europa é paz, esta é então muito semelhante à paz dos cemitérios. E uma vez que nos disseram durante meses e em todos os tons que “a Grécia está melhor” e que os números o mostram, vejamos os números. Entre 2009 e 2017, a taxa de mortalidade caiu de 9,8 ‰ para 11 ‰, a taxa de natalidade caiu de 10,6 ‰ para 8 ‰, enquanto entre 2009 e 2015 a esperança de vida saudável caiu dois anos, de 66 para 64 anos. Tais variações nas estatísticas populacionais, que refletem mudanças que são geralmente de natureza de longo prazo, são mais parecidas com as variações dos tempos de guerra.

A abolição da protecção social, a evaporação de todos os direitos laborais, os cortes nos orçamentos da saúde têm vindo a matar pessoas desde 2010, enquanto a emigração está a privar o país da sua capacidade de recuperação, tanto demográfica como económica. Um terço dos gregos vive agora abaixo do limiar da pobreza, outro terço em torno deste limiar, com o risco de cair abaixo do limitar . 30% dos gregos já não têm cobertura de segurança social e têm de recorrer a clínicas de solidariedade. Os hospitais estão num estado terrível.

Muitas vezes, pacientes com cancro  são encaminhados para casa sem tratamento porque a sua instituição  está em rutura de  quimioterapia. O maior hospital da Ática, a região mais populosa do país, foi privado de qualquer equipamento de angiografia coronária durante três semanas no verão de 2018. Esta foi a segunda vez este ano que as falhas afectaram todos os equipamentos ao mesmo tempo, em que o último aparelho foi adquirido há quinze anos. Os sindicatos chamaram a atenção do público para o facto de que esse estabelecimento também carece de MRIs, respiradores, monitores de monitorização, microscópios cirúrgicos e até mesmo autoclaves para esterilização de instrumentos cirúrgicos! Em 10 de novembro de 2018, um teto do maior hospital do Pireu desabou sobre um paciente: não houve manutenção do prédio desde o início dos cortes orçamentais  no sistema de saúde em 2010. E soubemos no início de 2019 que a administração do hospital de Kastoria, no norte do país, está a solicitar o uma doação de óleo combustível de uma empresa petrolífera para aquecer as suas instalações. A medicina psiquiátrica é particularmente afectada: os fundos para a reabilitação de doentes mentais no hospital de Léros, no Dodecaneso, diminuíram 55%. E em 2012, o diretor dessa unidade teve que apelar à  opinião pública para que lhe enviasse  alimentos que ele já não podia fornecer aos seus pacientes. Muitos outros pequenos hospitais nas províncias, nas ilhas, são constantemente confrontados com situações incontroláveis.

Além disso, sob pressão económica e em resposta a cortes salariais, mais de doze mil médicos emigraram nos últimos dez anos, criando enormes desertos medicais. Um grande número de especialistas em ORL, pediatria, pneumologia, oftalmologia partiram  e, cada vez mais frequentemente, as operações não podem ser realizadas a tempo devido à escassez de anestesistas ou ao encerramento de camas e salas de cirurgia.

Em muitas pequenas ilhas, as pessoas cujo nível de vida se degradou já não podem consultar um especialista em Atenas ou numa ilha maior com recursos médicos mais diversificados. Muitas vezes têm de esperar, uma ou duas vezes por ano, por equipas enviadas para um ou dois dias por uma fundação privada (Onassis, Niarchos…) para serem examinadas por um cardiologista, um dermatologista, um pediatra, etc. Há anos que o Dr. Vichas, fundador da primeira e maior clínica de solidariedade da Grécia em Ellinikon, nos subúrbios atenienses, vem testemunhando que a sua estrutura deve cuidar, demasiado tarde, de diabéticos que, por não terem acesso a cuidados, ficam cegos ou têm de ser amputados. Juntamente com Kostas Polychronopoulos, um desempregado que criou a cozinha social[2] “O Outro Ser Humano”, recusou em 2015 o Prémio do Cidadão Europeu atribuído às suas organizações pelo chamado Parlamento Europeu (que não tem nem a legitimidade nem as competências de um Parlamento). O dispensário  indicava  depois que :

“Esta Europa que nos quer atribuir um prémio não parece estar preocupada  (…) pela morte de milhares de concidadãos nossos sem seguro de saúde. (…) Seria hipócrita da nossa parte aceitar um prémio quando esta Europa fecha os olhos para que não se vejam  crianças desnutridas, doentes com cancro a morrer, os olhares desesperados de doentes e mães em sofrimento a dizer-nos que se encontram numa situação terrível de abandono, sabendo que as suas famílias terão de viver mais um ano sem electricidade, água e muito pouca comida[3]. »

Acresce que a abolição dos programas de prevenção e apoio aos toxicodependentes levou a um aumento considerável da contaminação pelo VIH e que o desmantelamento e a ansiedade de vida provocaram uma explosão de suicídios (a Grécia tinha a taxa mais baixa da Europa antes da “crise”), bem como, entre 2010 e 2014, um aumento de quatro vezes da depressão grave, um aumento de onze vezes do uso de antidepressivos, um aumento de dezanove vezes da utilização de ansiolíticos e um aumento de trinta e cinco vezes da psicotrópicos.

As políticas impostas à Grécia e destinadas a “salvar o euro”, bem como os bancos, nomeadamente os bancos alemães e franceses, grandes detentores da dívida grega antes dos programas de resgate, que consistiram em transformar os títulos de dívida detidos por estes bancos em títulos detidos pelos mecanismos europeus criados ad hoc, ou seja, em dívidas suportadas pelos contribuintes europeus, geraram também mais de novecentas mil falências, o encerramento de um terço das empresas em Atenas e muitas mais em certos distritos.

A perda de rendimento em dez anos, para a maioria dos gregos que ainda trabalham ou se reformam, é da ordem dos 40% a 50% e o afluxo de migrantes coloca uma pressão adicional sobre os salários. Mas esses números não refletem a explosão de desigualdades entre  um terço da população que se protregeu da crise ou mesmo enriqueceu com ela  e os dois terços restantes – as classes médias fortemente empobrecidas e brutalmente pauperizadas, cujos estilos de vida foram radicalmente  modificados. . A taxa de pobreza infantil aumentou de 23% para 40% e a proporção de famílias com crianças que já não podem pagar pelo menos uma refeição proteica por dia aumentou de 4,7% em 2009 para 8,9% em 2014. Um inquérito realizado pelo instituto grego de estatística ELSTAT no Outono de 2018 mostrou que as despesas das famílias tinham diminuído – em média! – de  37%. Isto significa uma queda de 55% nas despesas com vestuário e calçado, uma queda de 31% nas despesas com a saúde, uma queda de 35% nas despesas com a educação, e mesmo uma queda de 22% nas despesas com a alimentação, a última rubrica a ser cortada. Em pormenor, verificamos que as despesas com queijo e iogurte diminuíram 24% e 14%, respectivamente, as despesas com peixe e carne 19% e 11%, enquanto o consumo de arroz, massas e ovos aumentou 15%, 18% e 23%.

Um estudo de opinião  realizado em 2018 (Instituto Marc) indica que 43% dos gregos são incapazes de terem aquecimento adequado.  A maioria dos edifícios de apartamentos na cidade são agora aquecidos na melhor das hipóteses uma a duas horas de manhã e uma a duas horas à noite. Atenas, no Inverno, cheira a fogo de madeira, pois o número de sistemas de aquecimento improvisados aumentou, com danos colaterais: poluição por partículas finas, aumento dos incêndios, asfixias e intoxicações – os materiais queimados recuperados são por vezes perigosos. O mesmo estudo indica igualmente que 52% dos gregos já não são capazes de fazer face a uma despesa inesperada de 500 euros.

Tudo isto, reconheçam-me, refere-se mais a uma economia de guerra do que a uma situação de paz perpétua em que a promessa do euro era emprego e prosperidade para todos!

Emprego, exatamente isso! Muito tem sido faalado, empolado,  na imprensa de serviço sobre um declínio no desemprego que seria devido aos “esforços” feitos pelos gregos. Mas, mais uma vez, os números são teimosos: o desemprego na Grécia explodiu de 8% da população ativa antes da “crise” para um máximo de 28% em 2013, antes de cair para 19% em 2018. Se relacionarmos esta evolução com a população activa, é cerca de quatrocentos e cinquenta mil menos desempregados. Mas onde reside o problema é que, durante o mesmo período, quatrocentos mil a quinhentos mil gregos partiram emigraram. Isto significa que o desemprego permanece, de facto, no seu nível mais elevado. No entanto, na Grécia, as condições são tão restritivas que apenas 8% dos desempregados são compensados por um máximo de um ano e com  360 euros por mês. Os outros têm de conseguir sobreviver.

Além disso, os que deixam o país são jovens e a sua partida acentua o declínio da taxa de natalidade, contribuindo para fazer da Grécia um “país de idosos”. Embora, ao contrário dos séculos XIX e XX, que afectaram os menos qualificados, esta emigração diz respeito aos mais bem formados, à custa do contribuinte grego, ao passo que eles irão criar valor acrescentado noutros locais. Trata-se, portanto, de uma dupla catástrofe para o país, que não está sozinho neste caso: a Bulgária e a Roménia também vêem o seu futuro seriamente afectado por esta predação ocidental.

Nestas condições, como poderia a economia grega recomeçar a funcionar para, finalmente, dar razão aos Purgões e Diafoiros da UE que têm sangrado e purgado a Grécia nos últimos dez anos, sobretudo devido à sobrevalorização do euro em relação às estruturas da sua economia? Estas sangrias e purgas apenas conduziram a Grécia a uma espiral deflacionista comparável apenas à Grande Depressão Americana dos anos 30 ou ao caos criado pela política deflacionista do Chanceler Brüning que, em dois anos, fez do grupo nazi o principal partido da Alemanha. Purgons et aux Diafoirus de l’UE

O fim dos acordos colectivos, a eliminação de todos os obstáculos aos despedimentos, o desemprego em massa levaram a um aumento generalizado da precariedade: um terço dos postos de trabalho declarados são a tempo parcial. Muitos gregos, como os funcionários do Cosco chinês que compraram o porto do Pireu, não sabem na véspera quantas horas vão trabalhar no dia seguinte e muito menos quanto vão receber no final do mês. A relação empregador/empregado tem sido tão desequilibrada a favor do primeiro que  se veem  anúncios publicitários em que se  oferece  alojamento e refeições como a única remuneração. O jornal conservador Kathimerini revelou que duzentos mil gregos foram pagos em parte com vouchers (sem qualquer contribuição para a pensão de reforma, é claro). Quanto ao turismo, apresentado como uma oportunidade, apesar de gerar custos ambientais cada vez mais desastrosos, passou em grande parte para as mãos das multinacionais que, com tudo incluído, deslocalizam os lucros enquanto pressionam os subcontratantes locais dispostos a trabalhar sob qualquer condição: durante o verão de 2018, alguns salários no setor caíram para 1,60 euros por hora.

Além disso, como a tributação delirante imposta pelos memorandos europeus faz com que as pequenas empresas paguem mais de 70% do volume de negócios em impostos e taxas diversas, a dupla contabilidade torna-se uma questão de sobrevivência para muitos, e estima-se agora que um em cada cinco trabalhadores não é declarado. A combinação de precariedade, desemprego em massa e excesso de tributação também significa que os empregadores só pagam salários quando querem, ou quando podem: um quarto dos trabalhadores gregos já não recebem regularmente os seus salários, seja porque são pagos com atraso ou porque são pagos apenas um mês em cada dois, três ou cinco. Em 26 de janeiro de 2019, foi relatado que seiscentos e vinte trabalhadores dos estaleiros navais Eleusis não tinham recebido salário desde… Maio de 2018. Os outros devem trabalhar a tempo inteiro enquanto estão  oficialmente empregados a tempo parcial e remunerados com base neste regime, ou receberem apenas uma parte do salário declarado, ou são  obrigados a pagar ao patrão, em dinheiro, uma parte do que receberam e declararam. O primeiro-ministro Tsipras pode, portanto, anunciar um aumento de 11% no salário mínimo (reduzido em cerca de um quarto entre 2009 e 2012, congelado desde então ao nível de 586 euros brutos e 510 para os menores de 25 anos): na prática, este salário mínimo há muito que deixou de ter qualquer significado.

Seria também necessário falar sobre as inúmeras consequências destas políticas na deterioração dos serviços públicos, cujas deficiências, mesmo antes da “crise”, explicavam em parte o baixo nível de consentimento à tributação. A natureza catastrófica dos incêndios na Ática no Verão de 2018 (mais de oitenta mortes) é o resultado de múltiplas causas. Mas os cortes de pessoal que afectaram a protecção civil e os bombeiros (cujos salários foram reduzidos para 850 euros), a recusa de lhes conceder, apesar das numerosas greves, um estatuto permanente, o adiamento da idade da reforma para 67 anos, a não renovação do equipamento,  não estão obviamente desligados da dimensão desta catástrofe.

Finalmente, estas políticas estão a colocar um número cada vez maior de gregos em situações inextricáveis. Todos os anos, milhares de automobilistas têm de apresentar as matrículas dos seus veículos às autoridades fiscais porque não podem pagar pelo autocolante. Um terço dos clientes da empresa de eletricidade não consegue pagar faturas que aumentaram acentuadamente devido ao aumento das tarifas e do IVA, e dois terços dos contribuintes não conseguiram, em 2017, pagar todos os seus impostos, cujo peso foi aumentado e a base tributável alargada (o limiar de tributação foi reduzido para 8.600 euros de rendimento anual para pessoas sós e 9.000 euros para um casal com dois filhos a cargo), enquanto os rendimentos estavam em forte queda.

Em resposta a esta situação, o FMI e o BCE colocaram como condição ao pagamento da quarta parcela de créditos em 2017 a adoção em  (janeiro de 2018) de uma lei que permite a confiscação e colocação em  leilão de imóveis a partir de uma dívida fiscal de €501 E como os cidadãos se mobilizaram para impedir os leilões físicos, o governo de “esquerda radical” fez aprovar  outro texto, ainda a pedido desta Europa de paz e fraternidade, organizando o leilão destes bens pela  Internet, e com aqueles que se opuseram a isso a terem de enfrentar uma  pena de prisão de três a seis meses. Foi ao abrigo desta lei que foram instaurados processos judiciais contra Panagiotis Lafazanis, um antigo ministro de Syriza que se juntou à oposição após a capitulação de Tsipras e que dirige o pequeno Partido da Unidade Popular – a Grécia é também um laboratório para a criminalização da oposição às políticas neoliberais da UE. O governo, que prometeu antes das eleições manter a proibição de confiscações de imóveis de residência principal, está agora a confiscar e a vender estes mesmos imóveis.  No total, neste país onde mais de 80% dos activos imobiliários das famílias são detidos por famílias, estima-se que 2,3 milhões de gregos (em menos de 11 milhões) estão ameaçados de terem os seus activos vendidos a um valor que é frequentemente superior ou muito superior à sua dívida. Além disso, a criação de um registo predial (cujo criação  foi obviamente concedido a uma empresa privada), exigido pela UE, permitirá ao Estado apreender bens imóveis cujos proprietários não poderão fornecer títulos a tempo ou pagar os serviços de um inspector para elaborar um plano.

No total, o que está a acontecer  na Grécia é uma espoliação[4] de uma magnitude que na minha opinião é inédita fora dos tempos de guerra ou de revolução. É também uma espoliação de bens públicos. E tudo nela é incluído:  portos, aeroportos, infra-estruturas, empresas e edifícios públicos… Seguindo o modelo da Anschluss económica da Alemanha de Leste,  os bens comuns dos gregos é transferida para uma estrutura de liquidação que vende tudo a compradores estrangeiros muito abaixo do valor real destes  mesmos equipamentos. Levou meses de luta obstinada pela associação de arqueólogos para que o governo finalmente concedesse, em janeiro de 2019, que sítios arqueológicos e museus seriam preservados (definitivamente?) deste saque. Opinião não publicada fora dos tempos de guerra ou revolução. É também uma espoliação de bens públicos. E tudo passa por ela: portos, aeroportos, infra-estruturas, empresas e edifícios públicos… Seguindo o modelo da antiga Anschluss, a propriedade comum dos gregos é transferida para uma estrutura de liquidação que vende tudo a compradores estrangeiros muito abaixo do valor real deste equipamento. Levou meses de luta persistente por parte da associação de arqueólogos para que o governo finalmente concedesse, em janeiro de 2019, que os sítios arqueológicos e os  museus fossem preservados (permanentemente?) desta pilhagem.


Notas:

[1] « The State Department also played a role. A memo from the European section, dated June 11, 1965, advises the vice-president of the European Economic Community, Robert Marjolin, to pursue monetary union by stealth. It recommends suppressing debate until the point at which « adoption of such proposals would become virtually inescapable ». » Ambrose Evans-Pritchard, « Euro-federalists financed by US spy chiefs », The Telegraph, 19 septembre 2000.

[2] Il ne s’agit pas de charité mais de solidarité dont les chômeurs sont eux-mêmes les acteurs. Le fondateur en a pris l’initiative à la vue de personnes fouillant dans les poubelles pour se nourrir. Chômeurs, les volontaires vont d’un quartier à l’autre, récupèrent les invendus sur les marchés ou convainquent les commerçants de les leur céder, préparent les repas et les partagent en commun.

[3] Texte complet sur le site de « Solidarité France-Grèce pour la santé » : https://solidaritefrancogrecque.wordpress.com/2015/10/07/deux-organisations-de-solidarite-grecques-disent-non-a-un-prix-europeen/

[4] Voir notamment sur le site du Comité pour l’abolition des dettes illégitimes, les articles de Louv Coukoutsi, « Les Grecs otages fiscaux de la Troïka et des banquiers » (http://www.cadtm.org/Les-Grecs-otages-fiscaux-de-la-Troika-et-des-banquiers), Marie-Laure Coulmin Koutsaftis, « La Grèce sous tutelle jusqu’au remboursement des prêts » (http://www.cadtm.org/La-Grece-sous-tutelle-jusqu-au-remboursement-des-prets), et « Appauvris par les memoranda, les Grecs vont perdre tous leurs biens » (http://www.cadtm.org/Appauvris-par-les-memoranda-les)


A segunda parte desta entrevista será publicada amanhã, 01/08/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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