CARTA DE BRAGA – “o lado de lá está a ganhar!” por António Oliveira

 

O economista Victor Hill, financeiro e também escritor, garante (‘Brexit ou Borexit?’ no blog ‘A viagem dos Argonautas’, 25.07) ‘Mr Johnson tem uma cabeleira loira; Ms Kardashian tem um traseiro generoso’, para afirmar que o Boris é só uma celebridade, não um político.

As comparações são inevitáveis, mas o lado de lá do charco está a ganhar por ter mais uma outra celebridade loura com ‘peso’, o Mr trumpa do golfe e assim, o lado de lá está a ganhar por dois a um!

A única hipótese de haver um qualquer equilíbrio seria se um tal Mr castelo branco cá do pedaço, pudesse algum dia vir a ser eleito para o cargo de senador, como ele afirmou!

 ‘E assim vai o mundo’ era o título de um daqueles documentários que antes, ajudavam a passar os intervalos dos cinemas aos que não gostavam de sair para fumar um cigarro. Hoje, a ver pela quantidade de singularidades que os dias nos vão brindando, mais apetecia juntá-las todas num outro documentário com título ‘A realidade á real?’ para ser passado nos telemóveis.

 É também o título de um livro do psicólogo e psicoterapeuta Paul Watzlawick, um dos mais importantes teóricos da comunicação. Watzlawick defendia não ser simples a interpretação das relações humanas, por depender de pessoas concretas, da sua educação e formação, das suas ideias e preocupações.

 Os dois primeiros parágrafos desta Carta apontam para uma ligeireza de análise que, de minha só tem a junção de mais dados e personagens para lhe potenciar os efeitos.

 Tudo decorrente de um problema que o contador de estórias Tony Rahm explica bem ‘Hoje a sociedade apropriou-se tanto de nós, que se diluíram os motivos por que, no passado, se contavam estórias, mitos e lendas!’

 A normalização mediática da vida pessoal busca minorar os impactos dos conflitos mas sem os suprimir, por serem uma parte fundamental desta sociedade aberta.

Chega-lhe simplificá-los, reduzi-los e mesmo ridicularizá-los, porque os senhores dos media sabem bem que o fio condutor da sociedade é a distinção entre realidade e fantasia, pois ‘O mundo não é composto de coisas, mas de processos’ afirmou um dia Karl Popper.

 Parece termos esquecido, nós todos, que a sociedade e o mundo não são sequências de ‘short stories’ a preto e branco, mas sequências de factos a cores ou em variadíssimos tons de cinzento pois, salientou Walter Benjamim, ‘Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie’

 De qualquer maneira e por esta Carta ter começado pelo Boris, um fulano tão mentiroso como culto (afirmam todas as crónicas sobre o sujeito), não posso esquecer ter ele reafirmado logo que teve consciência do cargo que, com acordo ou sem ele, sairiam da EU a 31 de Outubro, dizendo com convicção ‘Aqueles que apostem contra o Reino unido, vão perder até a camisa’

 Também não esqueço a afirmação de um dos meus comentadores preferidos ao criticar tal declaração, dizendo apenas ‘Isso foi dito por alguém que só as veste com dois números acima e de punhos dobrados!’

 Lembro também Dostoievski em ‘Recordações da casa dos mortos’ por ali ter garantido ‘Não há nada mais desesperador para o homem do que, vendo-se livre, encontrar a quem sujeitar-se’ e, a ver pelo que foi dito, voltar a ler Watzlawick!

 António M. Oliveira

 Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

 

3 comments

  1. Carlos Leça da Veiga

    Entre o pensamento inteligente e livre de K. Popper e o o cinzentismo de W. Benjamim não parece possível uma aproximação. Se a Ciência caminha pela eliminação dos erros e não pela afirmação de verdades como é possível que um documento de cultura seja, também – contenha em si – um documento da barbárie.. O germe da própria destruição – ao que parece uma constante inevitável – nada leva a poder considerar-se, com bastante razoabilidade que seja, necessariamente, um documento da barbárie. CLV

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  2. António Oliveira

    Em “O narrador” Benjamim explora a dualidade trágica da natureza humana a da escrita, explicando longamente como o ‘narrador é a forma na qual o justo se encontra a si próprio’, o que me parece bem longe de se lhe atribuir algum cinzentismo.
    E Simone Weil em “Opressão e liberdade” salienta ‘a civilização actual, que legará aos nossos descendentes pelo menos os fragmentos, contém em si, sentimo-lo demasiado bem, a capacidade de esmagar o homem; mas contém também, ao menos sob a forma de germe, a capacidade de o libertar’ criticando a barbárie nazi.
    Popper e Benjamim parecem-me mais próximos do que afastados ao oporem-se a todas as formas de domínio do homem pelo homem.
    A ciência depende do que vê e pode classificar, mas não o pode fazer com a intuição, o sonho ou a ilusão, os motores da poética de todas as utopias.
    Obrigado pelas suas anotações, sempre!
    António Oliveira

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  3. Carlos Leça da Veiga

    Desde que o narrador seja justo.Quantos sê-lo-ão ?
    Próximos para serem oposição a todas as formas de domínio do homem pelo homem, porém, um deles ao usar demasiado o sonho e a ilusão, dificilmente, dá o salto em frente.
    Agradecido estou eu, não pelas sua anotações, mas pelas suas considerações autorizadas. CLV

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