Desafios para a política monetária: em torno do Simpósio de Jackson Hole, em torno de grandes temas que afligem o mundo, hoje – 8. “As coisas nunca mais serão as mesmas”: Aqui estão 20 perguntas, agora que os bancos centrais admitem a derrota. Por Tyler Durden

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

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8. “As coisas nunca mais serão as mesmas”: Aqui estão 20 perguntas, agora que os bancos centrais admitem a derrota

tyler-durden Por Tyler Durden

Publicado por zero hedge logo em 26 de agosto de 2019 (ver aqui)

 

Ao contrário de anos anteriores, houve uma clara sensação de apreensão e impotência na reunião deste ano do Jackson Hole, a começar pelo discurso “chato” de Jerome Powell, no qual ele culpou a guerra comercial de Trump pela incapacidade do Fed de estimular a economia, e culminando com uma capitulação sem precedentes de Mark Carney, ao admitir efetivamente que o sistema de moedas fiduciárias falhou e o dólar não pode continuar a ser a moeda de reserva mundial (projetando ao invés essa função de “banqueiro central global” para Mark Zuckerberg e a sua Libracoin).

De facto, como até mesmo o FT conclui, “havia um sentimento de que as coisas nunca mais voltarão a ser as mesmas”.

No seu resumo de saída do Simpósio de Wyoming desta semana, o FT também escreveu que o mundo desenvolvido havia experimentado uma “mudança de regime” nas condições económicas, disse ao Financial Times James Bullard, presidente da Reserva Federal de St Louis.

Algo está a acontecer, e isso está-me a levar a pensar que devemos reequacionar completamente o que deve ser um banco central e todas as nossas noções caras sobre o que temos estado a fazer “, admitiu Bullard. “Só devemos deixar de pensar que no próximo ano as coisas vão ficar normais… Eles têm argumentado que vai haver incerteza, vai haver tweets, vai haver ameaças e contra-ameaças“, disse o presidente do St Louis Fed. “E é assim que vai ser“.

E como o FT admite depois, “as taxas de juros não irão voltar a subir tão cedo, o papel do dólar está sob escrutínio tanto como um ativo considerado de porto seguro quanto como um meio de troca, e a incerteza comercial tornou-se uma característica permanente da formulação de políticas“.

Em suma, os bancos centrais “reconheceram que tinham chegado a um ponto de viragem na forma como têm encarado o sistema global. Não podem contar com as ferramentas que usaram antes da crise financeira para moldar o ambiente económico, e os EUA já< não podem mais continuar a ser considerados um ator previsível na política económica ou comercial – mesmo que não haja uma substituição iminente do dólar americano à vista“.

Se bem que esperada desde há muito tempo, a contundente autoanálise dos banqueiros centrais foi inesperada: uma mudança de paradigma na perceção e na autoavaliação geralmente ocorre após anos de fracasso – como a observada desde a crise financeira, onde em vez de provocar uma recuperação económica, os banqueiros centrais só enriqueceram os ricos mais ricos através da criação de hiperinflação em ativos financeiros enquanto se mantiveram os salários e rendimentos para a grande maioria das pessoas com menores rendimentos e inspiraram a maior divisão de riqueza e rendimento da história, culminando em eventos 6-sigma como Brexit, Trump e a revolução populista observada na maior parte da Europa.

Embora em retrospetiva, o que aconteceu este fim de semana em Wyoming não deveria ter sido uma surpresa. Afinal, este ano, o simpósio tem um tema apropriado para todos: “Desafios para a Política Monetária”, e como disse Alan Ruskin, do Deutsche Bank, “fiquem descansados que há muitos desafios“, acrescentando que “provavelmente o quadro básico da política monetária enfrenta os seus maiores desafios desde os anos 70, quando o quadro Keynesiano da curva Philips estava a sucumbir à crítica monetarista e das expectativas racionais“.

Ironicamente, e em oposição polar aos dias de hoje, o debate na segunda metade da década de 1970 foi querer saber como vencer a inflação, quando o compromisso de curto prazo entre desemprego e inflação estava a dar lugar a uma curva vertical de longo prazo da Philips, onde não havia compromisso entre crescimento e inflação. Agora, o debate é exatamente o contrário: como criar inflação quando a curva de Phillips parece estar estável! Na verdade, o quadro básico da inflação pode ter perdido muito do seu atrativo, o que significa que toda a “sabedoria convencional” em que os banqueiros se basearam durante décadas foi virada do avesso.

Então, tendo efetivamente admitido que já não lhes pode pedido para tirarem o mundo fora da próxima recessão, Mark Carney do BOE vai tão longe ao ponto de admitir que os banqueiros centrais serão responsáveis não só pela próxima crise, mas pela próxima guerra, algo que temos argumentado durante a última década, quando ele disse que “casos passados de taxas muito baixas têm estado  a coincidir com eventos de alto risco, como guerras, crises financeiras e quebras no regime monetário” – a propósito, as mesmas taxas baixas que durante anos os banqueiros centrais disseram que salvariam o mundo e que agora ficamos a saber que o condenaram, daí que abaixo estão 20 perguntas diretas (com algumas respostas implícitas nas próprias perguntas) para os Banqueiros Centrais, cortesia de Alan Ruskin, do DB, enquanto se preparam para ser varridos pelo tsunami da história:

  1. Se a curva Philips é tão plana, e não há nenhum modelo alternativo sério para explicar/prever a inflação, a meta de inflação é ainda assim viável? Quais são as metas intermediárias para atingir a meta de inflação final?
  2. Se os fatores da inflação dos bens são dominados por variáveis globais como crescimento/capacidade internacional, como pode um Banco Central que influencia variáveis específicas do país pretender ter como meta a inflação?
  3. Se os Bancos Centrais atingirem a meta de inflação será que este é o “objetivo último e o fim de tudo para o Banco Central”? O Fed fez um trabalho particularmente bom ao atingir a sua meta de inflação nos anos anteriores ao grande colapso financeiro em 2008 – o que é que isso nos diz sobre a meta de inflação para criar estabilidade?
  4. Os bancos centrais são ótimos na criação de inflação de ativos a que se dedicam com declarações de intenções, mas têm como meta a inflação de bens e serviços que têm dificuldade em criar. A inflação de ativos que apoia o crescimento é bem-vinda. Quais são as repercussões de longo prazo de um enviesamento assimétrico em favor da inflação de ativos? Como essa assimetria favorece a disparidade riqueza/rendimento, será isso importante, ou esta é a solução menos má? Quem ficará exposto quando a maré de ativos voltar a cair?
  5. É tarefa dos Bancos Centrais eliminar o ciclo económico? E a que preço? Estamos nós a assistir a uma grande moderação intercalada com um grande colapso da confiança e um grande ciclo de crédito mais selvagem acompanhado por uma maior má afetação de recursos a longo prazo?
  6. Poderá a inflação ser medida com precisão suficiente para garantir a distinção entre inflação de base +/-0,25% em ambos os lados da meta considerada? Da mesma forma, no que diz respeito aos preços hedonistas, em que medida será pois pertinente para o consumidor o facto de que um aparelho técnico valha uma fração do seu preço de há uma década quando este é ajustado pela sua funcionalidade, mas na prática pode custar mais do que o aparelho antigo quando a qualidade não é ajustada? Os índices de inflação ajustados hedonisticamente são eles o denominador relevante para avaliar as taxas de juro reais e a oferta de moeda real?
  7. Qual a melhor forma de medir o custo real da moeda? O custo real da compra de uma habitação deve basear-se na inflação esperada dos preços da habitação (ativos)? Inflação mais elevada dos ativos reduz o custo real da moeda criando pró-ciclicidade.
  8. Estamos nós a chegar a um fim natural do declínio secular da inflação e das taxas que impulsionou o ciclo de ativos nos últimos 40 anos? Será que a inflação de ativos escondeu uma desaceleração ainda mais significativa na taxa natural de crescimento que se tornará evidente na próxima década?
  9. Em que dimensão é que os Bancos Centrais vão ser cúmplices de um colapso dos padrões orçamentais, comprando ativos do setor público? Um banco central passivo irá simplesmente acomodar e facilitar as ações orçamentais relacionadas com o MMT? Qual é o papel futuro dos bancos centrais na luta contra a teoria monetária moderna?
  10. Em que medida é que o colapso sem precedentes dos prémios a prazo no mercado obrigacionista antecipou o impacto da política monetária que irá apoiar o crescimento dos EUA nos próximos 6 a 12 meses, mas deixa muito menos capacidade ao Federal Reserve para aliviar as condições financeiras no segundo semestre de 2020 e em 2021?
  11. A “japonização” é o destino da maioria das economias avançadas? Quão diferente do Japão é o resto do mundo desenvolvido quando mudar a sua demografia? Será que estes dados demográficos baixam tanto a taxa natural de crescimento como a taxa de juro de equilíbrio ao longo do ciclo, como parece provável?
  12. A curva de juros do Japão tem parecido ser um sucesso relativo, mas como é que isso se encaixaria no contexto dos EUA. O que fará com que os EUA/mundo saiam de uma péssima situação de taxa de juro zero/negativa? Ou isso é simplesmente o futuro?
  13. Será que a modesta deflação dos bens (digamos -1% em variação anual) é má, especialmente quando em qualquer ano um certo valor de taxa de deflação reflete o progresso técnico? A força do rendimento per capita do Japão sugere que uma deflação relativamente estável e modesta pode não ser tão negativa para o crescimento quanto se supõe. Será mesmo isto?
  14. A que taxa de juro negativa é que a procura agregada exige que a elasticidade da taxa de juro se torne positiva? À medida que os países desenvolvidos envelhecem, as baixas taxas de juro são um mecanismo de política ainda menos eficaz para uma população em crescimento que procura fontes de rendimento estáveis?
  15. O Fed/BCE irá comprar ações/ETFs? Em que medida é que os Bancos Centrais estão dispostos a distorcer o valor subjacente, ou o valor deformado é ele intrínseco ao Banco Central, de acordo com a crítica austríaca? A distorção do preço/quantidade de crédito é importante a longo prazo ou contribuirá para um menor crescimento tendencial? Que má alocação ou realocação de recursos já causaram políticas pouco ortodoxas?
  16. É r* um relógio quebrado que funciona corretamente em cada 24 horas, ou é um conceito mais útil? É r* como descrito pelos pontos do FOMC, realmente melhor descrito como “pico r”, e porque é que o Fed não reconhece que não há taxas de juros estáveis l/t, e as taxas têm o seu próprio ciclo?
  17. Qual é a mensagem que podemos tirar da peremia recorde de curto prazo, mas com uma taxa neutra de risco de 10 anos que se estima surpreendentemente alta perto de 2,8%?
  18. Banco Central num mundo de desglobalização, ou pelo menos uma guerra fria no setor de tecnologia. A taxa natural de crescimento (y*) ficará mais deprimida neste contexto? A economia global ultrapassou ela a fase mais fácil de recuperação do crescimento dos países emergentes e aumentou a intermediação financeira? Os fatores de desglobalização / degradação ambiental devem ser considerados?
  19. A oferta monetária: porque é que isso não está a ter nenhuma atenção? O valor de M1 está a enviar sinais indicadores importantes para todo os EUA, para a zona euro e a China. O valor M1 está a enviar os mesmos sinais indicadores corroboradores da curva de juros, mas ninguém fala sobre a oferta de moeda. Novamente, essa é outra reversão completa do final da década de 1970.
  20. Guerras cambiais? Quais são as circunstâncias em que o Fed não deve participar na intervenção inspirada na Casa Branca? Quais são as opiniões do Fed (e do Tesouro) sobre a acumulação de ativos em yuans? Têm outros grandes bancos centrais alguma aversão a deter atualmente ativos em yuans?

 

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