A GALIZA COMO TAREFA – coordenadas – Ernesto V. Souza

Cultura e imperialismo é um livro de ensaios de Edward W. Said, publicado em 1993, no qual pretendia estabelecer a natureza da relação e a conexão entre imperialismo e cultura nos séculos XVIII, XIX e XX.

Agrupa ensaios, como uma proposta para desenvolver, em casos e episódios concretos, a intuição projetada no seu famoso Orientalismo (1978), sobre a construção conflituosa, tensionada e violenta do cânone ocidental, da cultura dominante e da cultura das elites, dentro das estratégias de poder e dominação das potências europeias. 

These two factors -a general world-wide pattern of imperial culture, and a historical experience of resistance against empire – inform this book in ways that make it not just a sequel to Orientalism but an attempt to do something else. (Introduction p. xii)

As achegas são fascinantes, por momentos vibrantes, não isentas de humor. Penetram o mundo literário, os clássicos ingleses do século XIX. Uma análise sobre produções, reflexões sobre estilos literários, e desvendamento dos significados epocais, culturais e políticos formulados em troppos, conteúdos, tópicos, metáforas e alegorias na moda. Desfilam pelas suas páginas Robinson Crusoe, Jane Austen, Verdi, Camus, o onipresente Joseph Conrad, entre um universo de citações.

O paper é o espaço natural de Said, as suas compilações de artigos, palestras e textos, sobre um tema comum, são provavelmente as mais atrativas obras da sua extensa produção. A natureza da escrita académica concreta, polemista e reflexiva, concentrada em personagens, obras, produções, explicadas sempre à luz de novas perspectivas elucidativas, em relação contextual e cultural, permitiram-lhe uma produção densa continuada. Amplificada a mensagem por uma prosa cuidada, presença pública e marcada voz pessoal.

Analista de obras literárias e de estilos, o seu próprio estilo, reflete, ou vai-se desenhando com os anos, para refletir o seu pensamento, e isto implica uma prosa à vez sólida (pela sua deslumbrante erudição), atrativa (pela potência evocadora da sua palavra escrita) e muito fluída (a importância da música na obra e vida de Said reflete-se na sua prosa), quase diríamos incansável (pelo jeito em que os artigos vão-se escrevendo, sem se demorar num aspecto, mas retomando-se e completando no decurso dos anos ou as décadas).

Os trabalhos de Said, pois, concentram-se em explicar a cultura, por meio da explicação das narrativas, não apenas da técnica com que se constroem, senão a respeito do papel e função que desempenham como exemplos e propaganda dessa cultura da que fazem parte e da que participam, propositada, casual ou a contra, a construir.

Readers of this book will quickly discover that narrative is crucial to my argument here, my basic point being that stories are at the heart of what explorers and novelists say about strange regions of the world; they also become the method colonized people use to assert their own identity and the existence of their own history. (p. Xiii)

O esforço de Said por definir o termo “Cultura” implica também o sentido amplo que dá o termo “Imperialismo”. Não fica restrito as manifestações culturais produzidas na etapa dos impérios, propriamente terminada após a Segunda Guerra Mundial, com a descolonização. A noção “império” significa, e os anos transcorridos desde 1993, dão a razão, a capacidade para as elites dos países colonialistas e imperialistas colocarem o seu discurso, estética, tópicos, motivos e elementos de debate e através deles controlar o discurso, a produção, os temas de narração noutros espaços, terras e povos.

Efetivamente, a produção de uma narração de emancipação mobilizadora que conecte com o público a que se destina exige: por uma banda uma originalidade – contrastiva com o modelo dominante do que foge – propositada (a soberania estética no intuito formidável de V. Risco na Declaração de Lugo de 1918) e por outra está condicionada pelos recursos, os espaços, média e circuitos para a produção e divulgação, necessárias para a polêmica e a concorrência de narrativas e mensagens.

Aí a importância das grandes vozes narrativas, dos vates, poetas e autores teatrais, dos polemistas da impressa. E o jogo de recursos, editoras, espaços de encenação definidos à vez pelo capital e o capitalismo (do que é contemporâneo estrito a ideia de cultura, nação e narração). Aí também a muitas vezes falta de relação entre os protagonistas no tempo presente e as leituras e impacto no futuro.

Alinhar-se com o modelo imperial produz benefícios imediatos a autores e obras. Capital, promoções, status, espaços e plataformas. Produzir dentro de esquemas anti-colonais, ou de emancipação social ou nacional dá benefícios anímicos, sociais, sentimentais, nalguns casos comparáveis, na exaltação e na ressaca, a uso de drogas. São apostas.

Fascina o percorrido por autores e obras, nas escolhas casuais ou conscientes, no acaso de momentos, ou de roteiros planificados e a implicação em cada um dos casos, e no diálogo e debate, da cessão, da reinterpretação, da apropriação, da mimese, da imitação servil ou sarcástica e perversão na construção das narrativas nacionais ou imperiais em assaltos diversos de fases, umas vezes sucedidas, outras aniquiladas e outras como repetições ou tentativas com sucessos e fracassos parciais, diversos, prolongados.

Resulta determinante comprovar como se vão situando autores e autoras, obras e linhas de tópicos e troppos no eixo de coordenadas entre o nacional e o social e a respeito da linha temporal. Linha esta última que vem definida não apenas pelo sucesso, paralise, demora, reconstrução da narrativa nacional ou imperial dominante; senão também pela perspectiva desde onde se leia e analise, dado que o próprio leitor desocupado e mais o investigador interpretador, participam de contextos e narrativas em função do campo em que se situam, sejam conscientes ou inconscientes.

Isto tudo define, não apenas o favor do público contemporâneo, quanto a canonização ou a exclusão dos cânones, e portanto a permanência nesse favor por fazer parte (ou por ter sido situado, interpretado ou metido a machada) da linha canônica estabelecida.

Aspectos todos e elementos que são mui de ter em conta, como bem destaca o amigo Carlos Calvo, em casos como o galego, cujos escritores tratam de participar (influindo e sendo influenciados) de vários sistemas literários canônicos desde uma posição de subalternidade ou como componentes periférico-exóticos autorizados, e a um mesmo tempo tratando de desenvolver (mas espelhando nela os registros da subalternidade e o conflito) uma própria narrativa soberana.

Se as nações são narrações, o poder da narração e o seu domínio é fulcral na construção ou na negação da nação. Controlar a narrativa da nação (os média de comunicação e produção, as mensagens à moda e debates pertinentes, as épocas, as fases, cronologia, a estilística, os desvios e imitações, o sentido e as temáticas, o controlo do cânone) é controlar a capacidade de construir e explicar a nação.

One comment

  1. Abanhos

    Que prazer estas leituras de wue nos forneces para o nosso percurso vital.
    Abanhos

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