ADÃO CRUZ – CARPE DIEM – O GESTO DAS COISAS SIMPLES

 

O poema CARPE DIEM (Aproveita o dia) de Walt Whitman

(Embora eu entenda bem a alma do poema, e pense que será um bom conselho para encarar a vida, custa-me aceitar à letra o significado de Carpe Diem, como um convite para que se aproveite o tempo presente, usufruindo os momentos intensamente, sem pensar muito no que o futuro reserva. Na minha maneira de ver, eu diria: vive intensamente o teu presente de forma a ergueres no teu futuro um memorial de coisas simples).


“Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones a tua ânsia de fazer da tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, a nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Derruba-nos, lastima-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas da nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos o homem pode ser livre.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valoriza a beleza das coisas simples, pode-se fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes as tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida num inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante.
Procura vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…”

 

O gesto das coisas simples (adão cruz, sem qualquer presunção)

Fui à caixa dos gestos e baralhei-os todos

cheio de raiva por não encontrar o gesto das coisas simples.

Há muitos anos que o perdi e nunca mais consegui encontrá-lo.

Esperemos mais um par de noites

pois os sonhos às vezes trazem-nos aquilo que julgamos perdido para sempre.

Os sonhos adormecem muitas vezes no regaço da realidade

e outras vezes a realidade esconde-se no meio dos sonhos.

Onde estará o meu gesto das coisas simples?

Ora bem

talvez o gesto das coisas simples ande por aí perdido nalgum sonho.

Foi numa noite de tempestade.

Um refulgente relâmpago estralejou lá fora

e faíscas de luz incendiaram as frinchas da janela.

Um ribombante trovão abanou o quarto e o sonho foi-se.

Os sonhos não gostam de tempestades nem do abuso das realidades.

Acendi a luz e vi no tapete o meu gesto das coisas simples.

Peguei-lhe com toda a ternura

e pareceu-me que ele queria aninhar-se entre os meus dedos.

Confesso

dei-lhe um beijinho.

Fui ao monte das recordações.

O meu gesto das coisas simples espremeu uma lágrima

quando lhe mostrei as grandes coisas esquecidas e abandonadas

desde os tempos em que nós os dois éramos apenas simples.

O entrosamento das palavras e das imagens

teciam uma espécie de fábula que deliciava a nossa inocência.

Nas curvas do tempo não é fácil reter as coisas simples.

Como o amor

as coisas simples vão perdendo os seus lugares nas curvas do tempo.

O meu gesto das coisas simples parecia tremer de desânimo e fadiga

confundindo ingénuos impulsos com efemérides de granito.

O gesto das coisas simples estava com medo

mas a grande afeição entre nós há-de ser uma nova aliança

renascida entre a poesia e o novo gesto das coisas simples.

                                                           adão cruz

Leave a Reply