CARTA DE BRAGA – “hiperactividade e poesia” por António Oliveira

Li algures, confesso já não me lembrar onde, que Paul Valéry, o filósofo, escritor e poeta simbolista, afirmou um dia que gostaria de ter escrito um manual de ginástica para poder treinar as capacidades mentais de cada um.

Teria justificado tal desejo por estar convencido de que melhorar a agilidade mental, serviria para desenvolver o talento, por ‘um poema deve ser uma festa do intelecto. Não pode ser outra coisa, um jogo, um estado em que os esforços são ritmos, redimidos’.

Esta afirmação consta de ‘O cemitério marinho’, onde o poeta defende a produção poética nascida do exercício da inteligência mais as experiências do quotidiano.

Sei perfeitamente que nem todos conseguem ser poetas, apesar de todos também termos feito uns versos, por isto ou para aquilo, mas a terminar honesta e pesarosamente guardados no mal arrumado baú das inutilidades.

Por outro lado, estamos cada vez mais a ser vítimas de um ‘vírus’ benigno e generalizado, classificado pelos especialistas como TDA-H, que nos transforma a todos numa colecção imensa de cérebros impacientes.

Estamos a sofrer do Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperactividade, sem cura conhecida por nem ser doença, mas a pedir tratamento para melhor se conviver com ele.

Trata-se da incapacidade adquirida pelo cérebro, em manter um foco de atenção firme durante algum tempo, uma inaptidão consequente da dependência das novas tecnologias, diz a neurologia e também a psicologia, por querermos tudo muito depressa com a espera a transformar-se numa enorme fonte de angústia.

Tudo se passa depressa à nossa volta, a informação visual e informativa vai acumulando-se num monte, a que também acaba por se juntar informação auditiva e a cultural.

Temos o cérebro cheio de letras, frases, sons, caras e cores, tudo sem catalogar, mas a exigir respostas rápidas, breves, sem sequer tirar dúvidas, sem pensar, como um biscateiro topa-a-tudo para não perder serviços nem clientela.

Não sei como hoje se conseguiriam pôr em prática os exercícios do tal manual de Paul Valéry, quando as pessoas estão a perder aceleradamente toda a capacidade de leitura e o consequente desembaraço na interpretação dos factos, preferindo as emoções por eles provocadas.

Sabemos bem como ficamos ao ouvir quase a diário, num qualquer órgão de informação, o já banal ‘como se sente?’, se calhar a alguém que acabou de cair de um décimo sexto andar ou de ter sido atropelado por um comboio!

Mas como comecei esta Carta a falar de poesia, não resisto a contar esta estória, lida num jornal diário europeu:

«Em certa ocasião perguntaram a T. S. Elliot ‘O que quis dizer com estes versos?’ ao que o poeta respondeu ‘Se o que queria dizer com estes versos o pudesse dizer melhor de outro modo, tê-lo-ia feito desse modo em vez de escrever estes versos»

A resposta perfeita para uma pergunta com pouca preparação e também para o simplismo explicativo, hoje banal, mas bem distante da arte poética.

O filósofo Santiago Alba Rico, em Junho último, aborda numa entrevista todos estes factos, numa frase simples ‘a poesia é uma combinação de austeridade e arte, agora incompatível com os formatos tecnológicos e com o Twitter, onde a transmissão do saber foi completamente destruída’.

Hiperactividade sim, mas nos polegares!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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