A GALIZA COMO TAREFA – mass media – Ernesto V. Souza

Houve um tempo, não tão distante, em que os mass media eram apenas os jornais impressos que chegavam frescos cada manhã, de terça a domingo, as rádios e as discretas emissões de TV. Eu, reconheço, sempre fui mais de impresso que de audiovisual.

Daquela, lembro, mocinho de obra de 17-23 anos, ler diariamente, no mínimo dous jornais locais: o que estavam subscritos os meus pais (El Ideal Gallego) com o pequeno almoço;  depois de jantar o que trazia o meu avó: La Voz de Galiza e, anos mais tarde, mais outro que eu comprava, o maravilhoso e breve Diario de Galicia. Nas quintas ou sextas, bem semanalmente, bem quinzenalmente, procurava a nutritiva A Nosa Terra. Sábados e domingos, pelos cafés ou até na casa El País, com os seus suplementos culturais caía também.

Ler a imprensa era um hábito, e também um recurso informativo ou cultural. Esperas de bar, café ou sábados e domingos de ressaca, era frequentes: El Correo Gallego, El Progreso, jornais de bairro e até a Folha paroquial. Era leitor de imprensa e também tinha costume de recortar artigos de opinião e culturais sobre qualquer tema galego e ir deixando em pastas, que fui perdendo ou eliminando, e em documentos relacionados, que de quando em quando topo, nos livros e revistas, como surpresas maravilhosas ou como segundas sobreimpressões em forma de manchas ou intensificativos de amarela umidade galaica e recordatórios da passagem do tempo.

Muita imprensa papei entre os meus 23 e os 35, pesquisando nas hemerotecas e bibliotecas: as locais, a da associação da imprensa, a da RAG, municipais, a da Universidade de Santiago, o Instituto Padre Sarmiento, a Biblioteca Nacional Espanhola. A Restauração e a II República espanhola, o primeiro franquismo, passei anos pervagando neles em fundos locais, regionais, em coleções anarquistas, teosóficas, culturais, nos jornais do galeguismo e da política galega de 1875 a 1936 e intercambiando artigos e fotocopias com Xosé Maria Dobarro, Afonso Mato, Luís Lamela, e aconselhado pelo melhor dos mestres em leitura de jornais: Antón Capelán.

Vêm-me saudades do papel impresso e do microfilme e com elas também a imagem dos jornais que lia no comboio Chicago Central to Kenosha, com parada em Lake Forest. No percorrido diário, à volta podiam-se topar diversos exemplares do Wall Street journal, The Washington Post, Chicago Tribune, abandonados nos bancos. Com a imprensa cubana, uruguaia e argentina, de antes da revolução digital, também conectara mais ou menos bem, o mesmo que com The Economist, que a minha moça e depois mulher, tinha subscrito.

Hoje, curiosamente, detesto a imprensa, nomeadamente a espanhola, compreendendo nela a galega em castelhano. O sentimento de rejeição e o nojo foi crescendo nos últimos anos. Começou com a local há cousa de 15 anos. Passou depois a rádios e televisões. E nos últimos 10 foi atingindo a imprensa espanhola inteira e a todo tipo de media.

No começo pensei que era devido a alguma mudança gráfica, dificuldade ou desábito, com os novos formatos digitais e as mudanças que implicaram. Mas é impossível, a pouco que lembre sei que fui grandíssimo consumidor também da nova imprensa digital, que fui até pioneiro e colaborador de revistas e publicações digitais e que tenho desenhado e sonhado muito no início da revolução digital, que foi exatamente como a da primeira Imprensa antes do estabelecimento da censura e o controlo dos estados.

Não, não foi internet, são os conteúdos. Nunca me interessou a imprensa amarela, nem os jornais sensacionalistas, nem o rumor, nem o sórdido, nem a imediatez espetacular da exclusiva. Gostei sempre dos jornais sóbrios, com muita letra, com artigos de fundo, análise, voz própria e estilo marcante dos jornalistas de ofício.

Acho que na Espanha, o primeiro sintoma, devi detetar intuitivamente, com El Mundo, que compravam, nos seus primeiros anos de andadura, algum companheiro/a e professor nos anos da carreira. E que eu achava, à contrario do que eles um jornalismo profundamente reacionário. Como se tomasse como modelo a seguir, no canto de perceber a crítica exposta, Citizen Kane.

Justo depois aconteceu a involução informativa com a crescente filiação política e propaganda, com uma imprensa adscrita a um setor político, decalque da do sistema da Restauração espanhola. Cumpre lembrar, porque lembro perfeitamente de passagem por Madrid no momento que aconteceu, lá em 1997, que J. Ma. Aznar deu a virada nacionalizadora espanholista e para constitucional, no preciso momento que decidiu celebrar o centenário de Cánovas del Castillo. Com La Voz tenho pendente a análise como órgão e propaganda dos processos de construção do nacionalismo espanhol galego e na Galiza.

O interessante, penso eu, é situar esta transformação (na linha do que aponta a ensaísta norte-americana Marilynne Robinson) em paralelo a muitas outras no espaço académico, cultural e político, causadas pela evolução do capitalismo posterior à queda do muro de Berlim, convertido plenamente numa religião histórica monoteísta e ideologia de pensamento único, dominado pelas suas seitas mais agressivas e radicalizadas.

O facto é que os média pioraram, desapareceu a reflexão, a análise, a crítica e as vozes discrepantes, mais que fake é tudo propaganda, dogmática e apologética. A imprensa cansa. Na Espanha de jeito inquietante. E nos últimos anos, e arredor da questão da Catalunha, acontece como com a polícia e a justiça: quanto mais longe de nós, melhor. Para estar informado é melhor silenciar, apagar os média, ver fragmentariamente, peneirado tudo, pelos filtros dos amigos e colegas, nas redes sociais, e continuar a ler nas hemerotecas.

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