BOLÍVIA, ANATOMIA DE UM GOLPE, por SLAVOJ ŽIŽEK

OBRIGADO A SLAVOJ ŽIŽEK, ARTUR RENZO E BLOG DA BOITEMPO

Fotografia de Mariusz Kubik
Obrigado à Wikipedia

Bolívia, anatomia de um golpe, por Slavoj Žižek

Blog da Boitempo, 18 de Novembro de 2019

Tradução de Artur Renzo

 

É precisamente por terem sido bem-sucedidos que Evo Morales, García Linera e seus seguidores representavam um incômodo tão grande ao establishment liberal.

Bolivianos em apoio a Evo Morales erguem uma bandeira wiphala
que representa povos indígenas durante uma manifestação em La Paz na última terça-feira, 12 nov. 2019
Foto: Natacha Pisarenko -AP Photo

Embora eu seja por mais de uma década um firme apoiador de Evo Morales, devo admitir que, depois de ter lido sobre a confusão que se seguiu a controversa vitória eleitoral de Morales, fiquei mergulhado em dúvidas… Teria ele também sucumbido à tentação autoritária, como ocorreu com muitos esquerdistas radicais no poder? Contudo, depois de um ou dois dias, as coisas logo ficaram claras.

Brandindo uma enorme Bíblia encadernada em couro e se autoproclamando presidente interina da Bolívia, Jeanine Añes, a segunda vice-presidente do Senado declarou: “A Bíblia retornou ao palácio do governo.” E emendou: “Queremos ser uma ferramenta democrática de inclusão e unidade”. O recém-empossado gabinete de transição, contudo, não continha uma única pessoa indígena. E isso já diz tudo. Embora a maioria da população da Bolívia seja composta de indígenas ou mestiços, até a ascensão de Morales esses setores eram efetivamente excluídos da vida política, reduzidos à maioria silenciosa daqueles que fazem seu trabalho sujo nas sombras. O que aconteceu com Morales foi o despertar político dessa maioria silenciosa que não se enquadrava na rede de relações capitalistas. Não eram ainda proletários no sentido moderno, permaneciam imersos em suas identidades sociais tribais pré-modernas – foi assim que Álvaro García Linera, o vice de Morales, descreveu a situação:

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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