CARTA DE BRAGA – “o peso da sombra” por António Oliveira

O traje era antigo, às riscas cinzentas quase brancas e bem marcadas, o casaco era ainda dos de chumaços nos ombros para não descaírem, um aspecto coçado de muitos anos de uso mas impecavelmente limpo e, lá dentro, um homem a condizer com o traje ou o traje a condizer com ele!

Notei uma barba de meia dúzia de dias (naquele tampo ninguém se atrevia a sair assim à rua!), a acompanhar as rugas vincadas de lhe marcarem o rosto, a mais funda a subir do nariz e a separar a testa em duas partes, seguidas de mais duas rugas fundas a descer dos cantos do nariz e a separar o queixo do resto do rosto.

Queixo algo reentrado debaixo de uma boca larga e lábios finos, talvez da idade que não por falta de dentes e, mais acima, uns olhos escuros, ou escuros pelo efeito das sobrancelhas fartas e bem desenhadas, tão brancas como o cabelo.

Cabelo a precisar de tesoura, desalinhado (onde o teria cortado?) mas como lhe caía suave pelos lados, separado por um risco natural, mal se notava e nem escandalizava.

Olhava-o ali sentado, duas mesas para além daquela em que eu tomava o pequeno-almoço e, quando percebeu como o olhava também me fixou, mas continuei a olhar, nenhum dos dois se encolheu e ele começou a sorrir.

Um sorriso leve, de apenas lhe esticar os lábios e melhor lhe fazer notar as rugas e a beber deliciado, o abatanado que lhe ouvi pedir.

Levantou-se quando o acabou e, calmamente ou andando muito devagar, abeirou-se da minha mesa e perguntou se se podia sentar.

Satisfeito mas um pouco encabulado pela minha atitude e pela sua resposta que o trouxe até mim, levantei-me também e apontei-lhe a cadeira ao lado da que eu ocupava.

Sentou-se não ao lado mas em frente e, só então, tive noção dos olhos, por me fixarem joviais, quase sem pestanejar nem fazer perguntas, uns olhos escuros, serenos, solenes.

Escrevo assim, lentamente, por também assim se ter sentado, lento e sem perguntas e assim se quedou depois, durante um bom bocado, até eu ter deitado fora todo o constrangimento provocado pela minha atitude e pela sua vinda.

Quando me sentiu totalmente calmo perguntou, inclinando-se na minha direcção, de maneira a que as suas palavras não fossem ouvidas em volta, ‘Diga-me, se não lhe custar, a razão do seu exame!

Calmo, tão calmo que até me espantei, disse-lhe do que pensava da sua figura toda e também que, por isso, cuidava já ele ter andado muitos caminhos.

Não sou capaz de recordar a conversa de uma boa hora no piso de baixo de um café de Lisboa que até já nem é café, mas percebi que a cidade seria a última paragem de um longo périplo pelo mundo, a procurar no alto das montanhas a tranquilidade que as cidades lhe tinham levado.

Fez tudo, aprendeu e ensinou o que levava e também o que foi aprendendo. Voltava de anos a anos, quando tinha dinheiro, a um pequeno apartamento, mas já sabia que teria de voltar aos caminhos das montanhas outra vez.

Para onde?’ perguntei.

Ainda não sei! Mas a andar é que se faz caminho!

E andar para onde?

Não sei meu filho, mas tu também não sabes ainda, qual o peso da tua sombra!’

Não sabia, cuido que ainda não sei, mas gostei mesmo muito daquele ‘meu filho’!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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