A vida não tem sentido! És tu a dar sentido à tua vida!
Não sei quem o disse primeiro, mas é uma verdade tão evidente que qualquer pessoa com dois dedos de testa o poderia ter afirmado.
Mas disse-o, exactamente isto, o padre João e já lá vão algumas dezenas de anos, quando lhe disse o que procurava na biblioteca, livros para procurar e tentar saber o que teria de fazer na vida.
Disse-me isto e muitas coisas mais, já o contei aqui, mas nunca desisti de falar com ele por me ter dito tudo sem nunca alardear superioridade e o que li nos escritos que ali levantei ainda me ‘serve’ todos os dias.
Esta é também a forma que vou usando para tentar evitar o perigo maior dos que nos assolam e afligem hoje – a falta de memória – que, com a palavra, é a outra das razões que fazem do homem um animal gregário e, por consequência, um animal político.
E falo de perigos porque, a ver pelas imagens com que diariamente nos confrontamos em casa, na rua e principalmente nas novas catedrais do consumo, este se transformou no maior acto político dos nossos dias.
Mas são a razão e filosofia a servir preferencialmente porque ‘o indivíduo usa a primeira pessoa para expressar-se e enuncia características que fazem dele um ser único’, como diria Foucault.
O uso da palavra é, na realidade e apesar de tudo, o que faz de cada sentença ‘metade de quem a pronuncia e metade de quem a escuta’, escreveu Montaigne há mais de cinco séculos, convidando-nos assim a uma verdadeira vida em sociedade, política também, por nos incitar à tolerância e à reflexão.
Lembrei todas estas coisas quando ouvi há alguns dias, a entrevista que Jorge de Sena deu a Maria José Mauperrin, em 1977, já lá vão quarenta e dois anos.
Com a evocação daquela entrevista, celebrava-se o centenário do nascimento do poeta, dramaturgo, escritor e crítico, uma das figuras maiores da cultura portuguesa.
E contou de se ter confrontado nos EUA onde se exilou, com ‘analfabetos funcionais, pessoas, que não lêem nada, não escrevem nada, não fazem nada a não ser olhar o ecrã, uma actividade meramente passiva’.
Ouvi isto e pensei na maioria das pessoas que aqui, alternam entre os ecrãs pequenos e grandes, num acto de auto-isolamento funcional e sem sentido.
Depois retive mais uma outra afirmação ‘Devemos criar uma relação séria entre o povo português e a cultura, não o insultando nunca com divulgações culturais, achando que ele precisa que lhe traduzam alguma coisa. O povo só precisa que lhe traduzam aquilo que é escrito para ele não entender!’
Do sentido da vida ele ‘povo’ vai sabendo porque, por tê-lo aprendido sozinho e, como disse um dia Bertrand Russell, ‘A coisa mais difícil de aprender na vida é qual a ponte precisamos atravessar e qual devemos queimar’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Grave será saber-se qual queimar, ou qual atravessar mas – tal como as coisas estão, isto é, “para ele não entender” – estar-se impossibilitado de poder fazê-lo. CLV
Grave será saber-se qual queimar, ou qual atravessar mas – tal como as coisas estão, isto é, “para ele não entender” – estar-se impossibilitado de poder fazê-lo. CLV
Exactamente isso!
Um abraço caro Carlos Leça da Veiga
A.O.