CARTA DE BRAGA – “dos tempos e dos deveres” por António Oliveira

O ‘velhinho’ Bertrand Russel, que nunca entrou em telenovela nem jogou futebol, costumava dizer, apoiado pela sua imensa sabedoria, ‘os cientistas esforçam-se por fazer possível o impossível. Os políticos por fazer o possível impossível’.

E, a seguir, tinha o cuidado de afirmar ‘parece desonesto e nocivo para a integridade intelectual, acreditar em algo só porque beneficia e não por pensar ser verdade’.

Vem isto a propósito de uma entrevista feita a Ricardo Garcia, jornalista freelancer hoje especialista em questões do ambiente, fundador do ‘Público’ onde trabalhou largos anos, que afirmou, em respostas à pergunta ‘O capitalismo não é verde?

-‘É verde sempre que alguém ganhe dinheiro com as soluções. O grande motor da mudança é o mercado e não a boa vontade das pessoas. No sistema capitalista, as soluções só aparecem quando alguém ganha dinheiro com elas’.

E, para o bem ou para o mal, creio que não podemos nem devemos esquecer aquele provérbio bem antigo ‘segue o cheiro do dinheiro, se queres saber o que se passa’.

Todo um conjunto de questões, sustentadas por um problema maior, uma sociedade onde é evidente a ausência de reflexão, maioritariamente favorecida pelos órgãos de comunicação que temos, mais preocupados em manter os seus níveis de audiências do que levá-las a regras de aprendizagem, de análise e crítica, a reconsiderar certezas e a tentar saltar fórmulas e hábitos, estabelecidos apenas pelo entretenimento puro e duro.

Não há muito tempo, Ivan Krastev, politólogo num país do leste europeu, referiu este estado de coisas de uma maneira bem rude ‘passámos de uma república de cidadãos a uma república de adeptos, tratam-se os cidadãos como fanáticos do futebol porque, quando perdem, as derrotas nunca são justas. Alguém terá culpa, nunca a sua equipa’.

A letargia da reflexão e da razão é o pilar onde assenta o sistema dos não pensadores, alienados por uma maquinaria social e económica que os leva a acreditar que a filosofia é inútil, que não tem saídas profissionais, que é um luxo cultural e nem dá dinheiro.

Também ‘não foi por acaso que o governo do bolsonaro se propôs reduzir o investimento público nas ciências sociais e na filosofia’, garante Antoni Aguiló, filósofo na Universidade de Coimbra.

Talvez seja bom recordar uma pequena estória de Gabriel Garcia Marquez, a contar de uma senhora que, ao aproximar-se do protagonista num dia de sol, o vê de guarda-chuva e cachecol, pergunta se está constipado e tem como resposta ‘Não, senhora, estou a preparar-me para a tempestade que aí vem’.

Na verdade o descontrolo é enorme, as previsões já não seguras por mais de umas horas, a qualquer altura podemos ser ‘atacados’ por uma daquelas intempéries com nome incríveis, a fazer esquecer o tempo em que as estações do ano eram previsíveis, as frutas apanhadas e comidas na data certa e os saldos marcados com antecedência.

Tudo está a mudar e, aqui, derrota e a culpa são da nossa equipa mas, para não finalizar esta Carta num hino revolucionário, prefiro terminar com uma reflexão do poeta brasileiro Mário Quintana, que diz assim:

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

 

Só para pensar em pouco!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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