JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – JEREMY CORBYN, A RECONQUISTA DA ESQUERDA DO PARTIDO TRABALHISTA, por FRANÇOIS CHESNAIS

 

Jeremy Corbyn, la reconquête du Parti travailliste par la gauche et ses perspectives gouvernementales, por François Chesnais

ATTAC, 4 de Abril de 2018

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Resumo

Dois livros foram publicados no Reino Unido no final de 2017, em edições alargadas que incidem sobre a clara deslocação para a esquerda do Partido Trabalhista, que agora virou a página do New labour de Tony Blair, bem como sobre o percurso político e a personalidade do seu novo líder Jeremy Corbyn. Tratando-se do maior partido socialista/social-democrata do mundo, com uma filiação atual de 570.000 membros, o seu sucesso eleitoral em Junho de 2017, com uma agenda claramente anti austeridade, mereceria já que se desse atenção a esses desenvolvimentos. A possibilidade de uma vitória do Partido Trabalhista, em novas eleições para as quais a crise interna do governo conservador nos pode levar num futuro não muito distante, incentiva ainda mais a propor uma leitura sobre o futuro do Labour e do seu atual líder.

Índice

As eleições gerais de Junho de 2017 preparadas a partir das eleições de 2015 e 2016 no Partido Trabalhista

Um partido fundado por sindicatos onde estes mantêm uma forte influência

Uma estrutura de base em que os seus membros têm um peso significativo

Momentum, a resposta a “um movimento que buscava uma casa comum”

E amanhã?

 

Isso ajuda-nos a entender como é que um veterano membro do parlamento que se tornou conhecido pelo seu apoio a uma série de causas progressistas – anti-nuclear, anti-guerra, anti-apartheid, direitos dos homossexuais, acolhimento dos migrantes – e uma constante recusa em votar as leis de austeridade dos governos Blair e Brown, conseguiu fazer convergir três processos: o processo interno ao Partido Trabalhista de aumento da resistência dos militantes de base ao programa de Thatcher-Blair, processo este nunca acabado, de destruição dos serviços públicos; o processo de decisão dos sindicatos, incluindo os dois maiores, de se envolverem novamente na orientação do partido do qual eles são uma componente; finalmente, milhares de estudantes e ativistas recorreram ao Partido Trabalhista como uma ferramenta política na sua luta contra o Partido Conservador e a City.

O livro de Richard Seymour, Corbyn, The Strange Rebirth of Radical Politics [1], também está particularmente interessado nos ataques sem quartel que os media tem feito contra Corbyn desde a sua eleição como chefe do Labour em 2015 [2], e a tenaz oposição que lhe foi (e é) movida pela maioria dos deputados trabalhistas, muitos dos quais ainda estão alinhados com o blairismo. O livro de Alex Nunns The Candidate, Jeremy Corbyn’s Improbable Path to Power [3] é baseado numa longa investigação sobre ativistas e simpatizantes do Partido Trabalhista, de que é apresentada uma síntese num artigo publicado em 2015 no Le Monde diplomatique [4]. Segue-se a evolução micro-política interna no Labour que nenhum observador britânico tinha visto, [5] e ainda menos os editorialistas estrangeiros [6]. É um texto valioso pela riqueza de informações que fornece sobre Momentum, um “movimento dos movimentos” que deu apoio massivo a Corbyn “nas ruas, no trabalho político feito de porta-a-porta, nas urnas”, constituído por dezenas de milhares de jovens politizados.

A experiência britânica tem fortes características que lhe são sui generis. Estas referem-se tanto à história muito especial do Partido Trabalhista e à escala e intensidade da mobilização da juventude no caminho político que ela escolheu. No final de seu livro, Nunns perde-se um pouco nos detalhes da campanha de 2017, por mais importantes que eles tenham sido. Por outro lado, Seymour concluiu recordando o poder das forças sociais e os bloqueios institucionais contra os quais um governo Corbyn se irá confrontar, se for eleito. Seymour questiona-se sobre que medidas Corbyn realmente poderia implementar. Essa preocupação também orienta um terceiro livro, muito mais curto e com um estatuto  diferente. É publicado por ativistas da ala esquerda à qual pertence John McDonnell, o braço direito de Corbyn e Chanceler do Tesouro no Gabinete Sombra do New Labour. Tendo como título For the Many: Preparing Labour for Power, examina-se o programa do Partido Trabalhista aquando das eleições de Junho de 2017 e como ele poderia ser melhorado para subsequentes processos eleitorais [7]

As eleições gerais de Junho de 2017 preparadas a partir das eleições de 2015 e 2016 no Partido Trabalhista

No dia 8 de Junho de 2017, as eleições parlamentares antecipadas convocadas pela primeira-ministra Theresa May viram o Partido Trabalhista liderado por Jeremy Corbyn, o histórico chefe da ala anti-blairista da New Labour, conquistar mais de 3,5 milhões de votos em comparação com as eleições anteriores e subir 9,6 pontos percentuais nos seus resultados nacionais, o seu maior aumento desde as eleições de 1945. Em Abril, quando Theresa May tomou a decisão de realizar essas eleições, as sondagens creditavam o Partido Conservador do dobro dos resultados eleitorais do Labour. A pontuação do Partido Trabalhista de Junho de 2017 foi ainda mais espetacular à medida que o seu programa, claramente marcado à esquerda, rompia com mais de duas décadas de blairismo e Corbyn foi apresentado pelos media como um agitador irresponsável apoiado por um aparato político caído nas mãos da extrema-esquerda. É assim que os media caracterizam o atual “Comité de Representação do Partido Trabalhista” , situado à esquerda, a que pertence McDonnell. Durante a campanha eleitoral, parte da direita blairista fez uma campanha aberta contra os candidatos que apoiavam Corbyn. [8]

A situação pós-Brexit obviamente pesou muito na deceção dos Conservadores e de Theresa May em particular. Mas, também terá pesado pelos menos outro tanto o facto de que, pela primeira vez desde a sua derrota às mãos de Margaret Thatcher em 1979, o Partido Trabalhista se apresentou com um programa claramente de esquerda e com  um líder audível por todos os estratos da juventude..

Os resultados confirmaram e reforçaram o processo que primeiro viu em Setembro de 2015 Corbyn ser eleito chefe do Partido Trabalhista, com 59,5% dos votos numa eleição aberta aos simpatizantes (ver abaixo), viu-o resistir em Junho de 2016 a uma tentativa dos parlamentares para forçá-lo a renunciar, antes de ser eleito por 62% dos delegados no congresso do partido em Setembro de 2016. Os três fatores, que acima acabámos de enunciar permitiram este resultado: a rejeição muito forte, por parte das estruturas básicas do Partido, das posições tomadas em Westminster pelos deputados do grupo parlamentar que Tony Blair manteve nas mãos, mesmo após a sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro em 2007; um deslocamento para a esquerda dos sindicatos que são membros históricos do Partido Trabalhista; finalmente, o apoio decidido de dezenas de milhares de jovens politizados. É necessário acrescentar um elemento próprio à Constituição não escrita do Reino Unido, a saber, o seu sistema eleitoral de votação uninominal a uma volta, (first past the post) que incita muito fortemente a tentar fazer do Partido Trabalhista um instrumento de luta.

Por causa do sistema de votação pequenos partidos, como o Partido Verde, ficam bloqueados do lado de fora do Parlamento. O partido nacionalista xenófobo, o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), não entrou até 2015. A maior organização trotskista britânica foi o The Militant, que entretanto escolheu tornar-se uma corrente do Labour. [9]

Com os conservadores tal como com o Partido Trabalhista, o sistema de votação gera divisões suicidas. Hoje, os amigos de Blair não pensam mais nisso, tal como a esquerda em torno de Tony Benn nos anos 80. Portanto, é dentro do Partido Trabalhista que a oposição à política neoliberal é organizada durante as lutas internas tanto pelos sindicatos, que são uma componente histórica, como pelos aderentes nas estruturas de base nas circunscrições de eleitorado popular. Mesmo antes de os jovens lançarem as suas forças na batalha, durante um período de pelo menos dez anos, testemunhámos mudanças micropolíticas que eram difíceis de detetar, mesmo por aqueles que eram os seus protagonistas. Um partido cujo nome Blair mudara para o New Labour em 1994 e que a maioria dos observadores acreditava irreversivelmente “blairizado”, deslocou-se para a esquerda sem que quase ninguém se percebesse, até que Corbyn ganhou a corrida nas eleições feitas por voto por correspondência em Setembro de 2015.

Um Partido fundado por sindicatos onde estes mantêm uma forte influência

Nessa eleição, o voto sindical foi decisivo e, mais precisamente, o apoio público que Corbyn recebeu de duas federações poderosas, a do serviço público “Unison” e a dos trabalhadores não especializados “Unite” que conta 3 milhões de aderentes. As relações entre sindicalismo e política no Reino Unido foram desde o início muito diferentes das da França, onde a Carta de Amiens estabeleceu uma separação entre sindicato e partido. O congresso da CGT de 1906 declarou “total liberdade para os membros dos sindicatos em participar, fora do grupo empresarial, a tais formas de luta correspondentes à sua conceção filosófica ou política, pedindo-lhe apenas, em reciprocidade, que não introduza no sindicato as opiniões que professa fora dele (…) Organizações confederadas que não têm, como grupos sindicais, a preocupação com os partidos e as seitas que, fora e ao lado, podem prosseguir em toda a liberdade a transformação social. “

Exatamente na mesma época, no Reino Unido, os dirigentes sindicais estavam a trabalhar para a criação do Partido Trabalhista, cuja fundação lhes parecia indispensável, enquanto o sufrágio censitário começou a dar lugar ao sufrágio universal (foi necessário chegar a 1918 para este ficar totalmente estabelecido). Eles aproximaram-se primeiramente do Partido Liberal, que apoiava alguns candidatos dos trabalhadores. Esta solução é insatisfatória: uma representação política independente dos trabalhadores é essencial. No entanto, o mesmo período vê a formação de vários pequenos grupos socialistas, incluindo o Partido Trabalhista Independente (ILP), ao qual George Orwell virá a pertencer na década de 1930, e a Sociedade Fabiana que reúne intelectuais e profissionais da classe média. Os sindicalistas audaciosos procuraram então maneiras de se ligarem com estes últimos.

Em 1899, Thomas Steels, do sindicato dos ferroviários, propôs à sua seção que a Confederation Trade Union Congress (TUC), que reúne todos os sindicatos, convocasse um congresso especial com o objetivo de unificar os sindicatos e grupos de esquerda no seio de uma única organização que apoiaria os candidatos às eleições. A proposta encontra o apoio necessário dentro dos TUC. O congresso é realizado em 1900 e nele os sindicatos representavam cerca de um terço dos delegados. [10]. O Congresso adota a moção do líder do Partido Trabalhista Independente, Kier Hardie, para formar “um grupo separado de trabalhadores no Parlamento, que terá as suas próprias instruções de voto e se acordará sobre as suas políticas que integrarão a possibilidade de cooperar com qualquer partido que estaria envolvido na promoção de leis no interesse dos trabalhadores “. Assim se cria o Comité de Representação Trabalhista- Labour Representation Committee (LRC), o primeiro nome do Partido Trabalhista, cuja tarefa inicial é de coordenar o apoio aos deputados filiados nos sindicatos ou representando os interesses da classe trabalhadora. O Partido assume o nome de Partido Trabalhista em 1906.

É difícil resumir em poucas linhas a relação entre sindicatos e Partido Trabalhista sobre mais de um século. Este Partido esteve no governo várias vezes com maiorias muito diferentes, com relações de força com o capital e relações também muito diferentes com os sindicatos,  de acordo com os tempos. Não houve “Junho de 1936” no Reino Unido, mas as grandes conquistas sociais de 1945 foram preparadas pela ascensão dos sindicatos na década de 1930, enquanto se sucediam governos de coligação liderados pelo Partido Conservador O patronato foi forçado a aceitar que se passassem a sentar em igualdade de condições com os sindicatos nas comissões tripartidas criadas pelo governo, à medida que a Segunda Guerra Mundial se tornava inevitável. A sua força era tal que, em 1940, Ernest Bevin, então secretário nacional do muito poderoso Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes (incluía os estivadores) e trabalhadores não especializados (que se tornou Unite), entrara no governo de Churchill como Ministro dos Transportes.

O governo trabalhista em 1945 contava vários ministros que começaram as suas carreiras como quadros sindicais. As reformas sociais dos anos 1945-1948 marcaram o apogeu da influência da classe trabalhadora. A sequência é a das relações complicados, feitos de recusa em satisfazer as reivindicações dos trabalhadores e de sucessivas intromissões nas conquistas sociais dos trabalhadores. A alternância entre o Labour e os Conservadores em Whitehall colocou os líderes sindicais em situações difíceis. Eles não se opuseram muitas vezes aos governos no poder e viram-se face a face com as suas próprias bases. O New Labour chegou ao poder em 1997, e a escolha reiterada de Blair foi de não tocar na legislação Thatcher, o que provocou fortes tensões e um divórcio completo com os sindicatos sobre o plano social [11], com consequências sobre o funcionamento interno do Partido Trabalhista. Assim, os sindicatos da marinha e dos bombeiros optaram por se separar do New Labour (“opt out”) enquanto que Unisson e Unite permaneceram no Labour. A filiação tem pesadas obrigações financeiras para os sindicatos, mas também uma fonte de dependência partidária. Durante muito tempo, deu aos seus dirigentes um poder considerável que resultou da regra de voto bloqueada nas convenções do Partido. Depois de amargas batalhas, os estatutos foram alterados. Desde 2013, os membros dos sindicatos filiados deixam de ser considerados automaticamente membros do Partido Trabalhista e devem aderir ao Partido individualmente (“opt in”). Apesar de todas essas dificuldades, a participação do sindicato no Partido Trabalhista conferiu às suas estruturas um alto grau de solidez e criou a obrigação dos seus líderes virem defender as suas políticas. Blair pode ter-se recusado em 1999 a reverter as leis de Thatcher, mas teria sido impossível para ele fazer o que Thatcher fez, quebrar a greve dos mineiros e, mais tarde, a greve dos estivadores, e como ela fez também, não seria capaz de ser ele a impor a flexibilização do trabalho e a precarização no trabalho. Hoje, depois de várias mudanças estatutárias, a capacidade dos sindicatos de influenciar as posições do Partido Trabalhista dependem não tanto dos lugares que lhes são automaticamente atribuídas nos órgãos de direção, mas também da participação dos seus membros na vida e nas atividades do Partido.

Uma estrutura de base em que os membros têm um peso significativo

O Partido Trabalhista é muito menos piramidal que a maioria dos partidos. Ele é mesmo quase um Partido bicéfalo. Sob as palavras Partido  Trabalhista encontramos duas estruturas diferentes, até mesmo muito diferentes, o Parliamentary Labour Party, onde se encontram todos os deputados e o, ou mais exatamente os, “partidos de circunscrição”, Constituency Labour Party (CLP), onde se reúnem os membros do partido em cada um dos 600 círculos eleitorais do Reino Unido. O “partido da circunscrição” corresponde aproximadamente ao que é a seção no Partido Socialista. Vamos ver isso “um pouco mais” de perto. A entrada da Wikipedia para o PS diz-nos que “a seção é a estrutura ativista mais direta: são as seções que organizam as colagens de cartazes, a distribuição de  folhetos, de distribuição de panfletos porta-a-porta e assim por diante. Também são elas que constituem o elo essencial entre o “nacional” (direção nacional), a “federação” (federação de departamento), os eleitos e os militantes, e é nelas que se dá o debate interno, quer este seja no contexto de um congresso ou de uma consulta interna.” No caso do Labour, o CPL não é uma plataforma de ligação, mas sim uma estrutura que goza de grande autonomia. A forte presença de ativistas sindicais tem muito a ver com isso. É dividido em ramos locais, mais pequenos, e liderado por um comité executivo e um comité geral composto de delegados vindos de ramos, de sindicatos filiados e de associações de esquerda na circunscrição. Nesses casos, mas também na Assembleia geral, os CPLs assumem  e discutem sobre todas as questões que afetam os cidadãos ao nível municipal e aos assalariados nas suas vidas fora da fábrica.

Os CPLs sempre foram mais à esquerda do que o Partido Parlamentar  e, exceto em 1945-51, mais à esquerda do que os próprios governos trabalhistas [12], não apenas em termos de política económica e social, mas também em questões de política internacional. A existência de grupos de circunscrição garantiu a legitimidade dos porta-vozes da Esquerda no Labour, incluindo Tony Benn nos anos 80, que encarnou a oposição a Blair na proclamação do New Labour Thatcherizado , e ao lado do qual Corbyn conduziu as suas primeiras lutas. Os militantes de esquerda nos “partidos constituintes” estabeleceram em 1980 um boletim de publicação mensal e de grande tiragem , o Labour Briefing, primeiro entre as seções da Grande Londres, depois a nível nacional. Este boletim informativo é o órgão do Comité de Representação do Labour desde que foi reconstruído contra os blairistas em 2004. Apresentado como um antro de trotskistas, McDonnell é a sua figura mais proeminente. O divórcio entre os partidos de circunscrição eleitoral  e o governo tem sido particularmente agudo desde o governo de Blair. Sobre a sua política económica, é claro, mas também sobre a sua política externa. A decisão em 2003 de invadir o Iraque ao lado de George W. Bush cortou o partido em dois na Câmara dos Comuns, com 254 votos a favor e 153 contra ou abstenções. Jeremy Corbyn estava na vanguarda da manifestação de 15 de Fevereiro de 2003 que reuniu três milhões de pessoas contra a invasão do Iraque, o maior protesto político de todos os tempos na Inglaterra.

São os CPLs que designam os candidatos para as eleições municipais e gerais. O candidato a deputado é escolhido, em princípio, de uma lista de pré-candidatos aprovados nacionalmente. Se é escolhido fora desta lista, o Comité Executivo Nacional deve então ratificar a escolha. Para apreciar o peso dos membros do Partido na escolha dos eleitos, no seu distrito eleitoral, Tony Blair foi recusado na sua primeira nomeação para uma eleição municipal e teve grande dificuldade para conseguir um lugar para se sentar em Westminster. O New Labour procedeu a mudanças profundas que deveriam ter conseguido evitar o aparecimento de Corbyn. Como é referido por Thierry Labica, o New Labour não foi apenas um conjunto de medidas políticas, mas também um novo modo de funcionamento do partido, uma nova distribuição nas suas relações de força internas. “Onde havia uma distribuição federal de forças dentro do partido, as reorganizações internas das décadas de 1980 e 1990 consistiram em distanciar e enfraquecer os componentes organizados (sindicatos, organismos locais) e intervir na construção da orientação do partido, para aí substituir o modo de funcionamento até aí seguido por  uma ordem descendente, entre uma elite profissional de especialistas em comunicação e estratégias eleitorais, e uma periferia de apoios ou adeptos neutralizados no quadro de mecanismos institucionais complexos. (…) Os congressos perdem a sua vocação de momentos altos na elaboração programática em prol de um “Fórum Nacional de Políticas” fora do alcance dos não iniciados. Para dar apenas um exemplo da nova força de controle político no “New Labour “, enquanto a intervenção militar no Iraque ao lado de Bush deu origem aos maiores eventos de massa na história do país e que esta intervenção foi a causa direta de deserções em massa entre os militantes do Labour, a organização do Congresso (Labor Party Conference) consegue a enorme façanha de não permitir nenhum movimento e nenhum debate sobre o assunto.» [13]

No seu prefácio ao livro For the Many, que acima mencionei, Ken Loach pede aos ativistas que exerçam plenamente o seu direito de indicação em futuras eleições. Corbyn e McDonnell não poderão fazer grande coisa com o governo se não tiverem o apoio de uma grande maioria de parlamentares que se posicionem à esquerda. São as posições políticas de cada deputado que determinarão a implementação legislativa do programa eleitoral e o grau de radicalidade das leis aprovadas. Mas mesmo o pleno exercício do direito de nomeação não pode contrabalançar o facto de que a composição social dos distritos eleitorais foi muitas vezes fortemente modificada pela desindustrialização e pelo declínio do peso social e político dos trabalhadores que a industrialização formou. [14] Daí a extrema importância de mobilizar a juventude para apoiar Corbyn.

Momentum, a resposta a “um movimento que procurava uma casa comum”

É assim que Nunns intitula o capítulo do seu livro, onde analisa o terceiro processo que colocou Corbyn à frente do Partido Trabalhista, a saber, o apoio que ele recebeu por quatro anos de dezenas de milhares de jovens. [15] Estes jovens foram politizados fora do Labour nas lutas sociais originais que levaram à formação de organizações que podem ser descritas como “movimentacionistas”. Como poucos leitores deste artigo terão a oportunidade de ter o livro de Nunns nas mãos, refiro-me nesta parte do artigo, ainda mais do que nos anteriores, a entradas na edição em inglês da Wikipedia, sabendo que elas respondem aos altos requisitos de precisão do site.

A auto-organização tem desempenhado um papel importante nos processos que levaram à formação por coagulação de uma espécie de “movimento dos movimentos” e, em seguida, para a criação de Momentum como organização. Foi o ponto de partida para grandes protestos contra o aumento das propinas universitárias em Novembro e Dezembro de 2010. Estes foram marcados por muitos confrontos entre uma polícia formada, como em muitos países, para a repressão de rua e os estudantes. Estes protestos  envolveram numerosas prisões e sentenças de prisão. Um ano depois, entre Março e Julho de 2011, houve um longo período de intensa mobilização, indo além das taxas de inscrição, as propinas, sendo também contra os cortes orçamentais do governo Cameron, contra a destruição do sistema público de saúde e contra a pouca dimensão conhecida como a luta contra a evasão fiscal. As formas de contestação foram muito variadas. Estas incluíram muitas ações locais contra a evasão fiscal levando a manifestações junto das sedes dos bancos (incluindo Barclays) e de grandes empresas (incluindo a empresa  de telemóveis Vodafone), conduzidas por pequenos grupos de jovens juntos num movimento chamado “UK Uncut “, uma série de greves nos serviços públicos mais afetados pelos cortes no orçamento de  Cameron na Primavera de 2011 (hospitais, educação) e uma manifestação central de Londres convocada a 26 de Março de 2011 pelo Conselho sindical Confederação sindical (TUC) em que terão participado entre 300.000 e 500.000 pessoas. [16]

Na França, no mesmo período, o movimento indignado de Puerta del Sol, Ocupar Wall Street, ou a formação de Syriza atraiu muita a atenção do povo francês. Por outro lado, o que estava a acontecer no Reino Unido permaneceu totalmente despercebido. No entanto, é lá, mais do que em muitos outros países, que a luta contra as políticas de austeridade tem sido capaz de se instalar e de se  manter em termos de longo prazo e de ter um caráter de massas devido a movimentos como o UK Uncut e especialmente à formação People’s Assembly. Esta é uma modalidade de Frente Social e Política Comum entre o atual Comité de Representação Trabalhista de qual falámos acima, os Verdes, ativistas organizados em torno de uma revista muito ativa Red Pepper, a pequena formação da Unidade de Esquerda criada por Ken Loach, de deputados como Corbyn e vários grandes sindicatos. A formação People’s Assembly foi capaz de chamar a sua própria autoridade em manifestações de dezenas de milhares de pessoas (50.000) contra a austeridade em Junho de 2014 e em Junho de 2015, pouco antes das eleições internas do Partido Trabalhista ganhas por Corbyn, onde terão participado 150.000 pessoas.

A vitória sem apelo de Corbyn foi devido à grande afluência de novos membros politizados nessas lutas, que puderam aderir graças à oportunidade aberta de se inscreverem no Partido Trabalhista, pagando uma taxa de £ 3 (ou 4 euros).  Nunns explica que a ideia veio dos blairistas convencidos de que haveria assim  um bloco de eleitores centristas para serem eles, os blairistas, a ganhar as eleições. Citemos: “Ironicamente, essa reforma interna foi proposta pela direita do Partido: os blairistas, fascinados pelo modelo das primárias nos EUA, estavam a apostar que a abertura ao público votante enfraqueceria a influência dos sindicalistas e acabaria por ancorar o partido no fértil pântano do “centro”. Cruel foi o seu desapontamento quando estes  perceberam que o mecanismo que lhes devia garantir a sua vitória serviu, na verdade, os interesses da esquerda, encantada por ter virado a seu favor a esperteza saloia dos seus opositores blairistas. [17]

Por causa dos fatores acima discutidos, incluindo o apoio político e financeiro de Unisson e Unite, a eleição de Corbyn à frente do Partido Trabalhista teria ocorrido em qualquer caso, mas é o voto dos novos membros representativos da juventude que lhe deu o seu caráter de massa. Para ligá-los ao Labour, uma organização chamada Momentum foi formada na sequência da vitória de um amigo próximo de Corbyn, Jonathan Lansman. O Momentum fornece aos jovens uma estrutura que lhes permite fazer campanha atrás de Corbyn, levando em conta e tirando partido do seu ativismo específico. A posição estatutária concedida no partido desde o início às associações que lutavam pela emancipação (os fabianos foram os primeiros) tornou tudo isso possível. A forma da estrutura exata deu origem a tentativas e a erros assim como a alguma tensão, mas hoje a organização tem 37.000 membros [18] com um cartão de militante do Partido Trabalhista e tem representantes no Comité Executivo Nacional. A disponibilidade, o entusiasmo e a mobilidade de jovens ativistas tem sido um ativo valioso para Corbyn, em face da  ala direita do Partido Trabalhista. Se ele foi capaz de vencer a eleição de Setembro de 2015, graças aos sindicatos, foram estes que lhe permitiram resistir à direita do partido. Durante a sessão do partido parlamentar que tentou forçá-lo a renunciar no final de Junho de 2016, os ativistas na Grande Londres convocaram em 24 horas uma manifestação em apoio de Corbyn, que reuniu 10.000 pessoas e pôs fim aos impulsos de golpe de Estado por parte do Labour dos parlamentares. Com essa vitória, três meses depois, no congresso de Brighton em setembro de 2016, Corbyn foi eleito por 62% dos delegados, incluindo uma falange de membros do Momentum [19], melhorando assim o seu resultado eleitoral de 2015.

Um ano depois, nas eleições legislativas de Junho de 2017, o trabalho de ativistas jovens da Momentum foi realmente decisivo nos resultados do Partido Trabalhista e na consolidação da posição de Corbyn como um potencial futuro Primeiro-ministro. Os dois livros documentam como é que o seu apoio ajudou Corbyn, semana após semana, a ganhar confiança e afirmar-se contra Theresa May. Em muitos círculos eleitorais, a campanha Trabalhista tem sido muito branda, com alguns dos membros a mostrarem pouco entusiasmo por ver Corbyn em obter um bom resultado. As equipas do Momentum compensaram tudo isso, mudando-se de um distrito para outro na mesma área. Estima-se que a eleição de vinte e cinco deputados trabalhistas foi feita graças a eles. [20] No final do Congresso de Setembro de 2017, os membros da Momentum fizeram a sua entrada em várias comissões importantes e ajudaram a esquerda a ganhar vários votos de orientação, causando a preocupação do patronato britânico. Ao ler-se o boletim Labor Briefing, Corbyn tem a certeza de que eles seguirão o conselho de Ken Loach e eles vão preparar em instâncias locais as condições para a renovação de deputados para as próximas eleições. [21]

E amanhã?

A decepção de Theresa May, que perdeu treze lugares e, portanto, perdeu a sua maioria em Westminster, bem como o aumento dramático dos votos trabalhistas de 2017 foram em grande parte devido ao ativismo do movimento Momentum e ao elevado nível de participação do eleitorado jovem. Isto não foi captado pelas sondagens que precederam as eleições, embora o acolhimento entusiástica feito a Corbyn nos concertos populares poderia levá-lo a vislumbrar-se. Nas eleições legislativas anteriores, a participação dos eleitores entre os 18 e os 24 anos rondava os 40%. Em 2017 esta participação subiu para 72%, muito mais do que o nível de participação geral (68%), em si o nível  o mais forte desde as eleições que levaram Blair ao poder vinte anos antes. Nesta faixa etária, os trabalhistas bateram os conservadores em cerca de 47%. A imprensa francesa viu nisto uma resposta dos jovens em face do Brexit onde estes não se tinham envolvido. No capítulo que acrescentou ao seu livro, Nunns é bastante categórico em atribuí-lo principalmente ao programa radicalmente anti-austeritário de Corbyn e McDonnell. Isso incluiu a renacionalização dos caminhos-de-ferro, elevados investimentos no sistema de saúde e no setor hospitalar, a abolição das propinas universitárias, a restituição dos direitos sindicais no local de trabalho, a construção de 1 milhão de habitações com preços moderados ou rendas ao longo de cinco anos, o aumento salarial mínimo ao nível do salário mínimo vital (fixado em 10 libras esterlinas por hora), a abolição de contratos de zero-horas, uma bateria de medidas para aliviar a deterioração das pensões de reforma.

No seu artigo para o Le Monde Diplomatique de 2015, Nunns salientou que o facto de que o movimento anti austeridade do Reino Unido ter sido forjado no âmbito de um grande partido governamental tem grandes vantagens, mas também desvantagens graves. O Partido Trabalhista não foi projetado para se confrontar ao Estado. Não é uma organização que desafia a ordem estabelecida, como SYRIZA tem sido capaz de fazer. Para ser bem-sucedido, Corbyn terá que transformar o Labour numa força militante capaz de manter o incrível salto coletivo que o levou ao cargo de lider do Labour. Se a excitação gerada nos últimos meses se espalha para outros setores da população e se a aventura prossegue o seu caminho, Corbyn tem todas as chances. Se o movimento recua e o homem da renovação difere a ocupação do seu lugar nos velhos centros do poder, a oportunidade será perdida. [22] Sabe-se o que aconteceu com as promessas de confronto feitas por SYRIZA, mas fiquemo-nos no Reino Unido. As eleições de Junho de 2017 e o Congresso Trabalhista que se seguiu em Setembro mostraram que o “salto coletivo” não só tinha sido mantido, mas tinha sido mesmo fortemente amplificado. Nas próximas eleições, não há nenhuma dúvida de que o Congresso será capaz de dar, muito provavelmente, força suficiente para Corbyn e McDonnell conseguirem ter uma maioria em Westminster.

Mas Nunns relembra que o Labour é um partido do governo, não formatado para enfrentar o Estado ou para desafiar a ordem estabelecida, o que tem pleno cabimento aqui. As luvas que o programa eleitoral de 2017 teve para com o patronato britânico e o caráter muito cauteloso das medidas fiscais atestam isso mesmo. [23] Ao consultar a história do governo trabalhista, só há entre 1945 e 1948 uma situação diferente, quando o governo Atlee tinha um gabinete que contava com uma falange de gente totalmente empenhada na satisfação dos interesses da classe trabalhadora e com uma determinação suficiente para tirar proveito da existência de relações de força favoráveis e para impor reformas à burguesia britânica que momentaneamente afetavam um pouco os seus interesses. Mas é sob o mesmo governo que o Reino Unido se viu envolvido no armamento nuclear, contra as posições esmagadoramente anti-nucleares dos membros do Partido Trabalhista. O governo Wilson de 1964-1970 tem a seu favor a abolição da pena de morte, a legalização do aborto e da homossexualidade, o que não era nada naquela época mas foi ele que permitiu à City iniciar o processo de liberalização financeira global. Corbyn e McDonnell são indiscutivelmente feitos do mesmo metal que Aneurin Bevan ou Tony Benn, mas mesmo que a burguesia britânica esteja enfraquecida e desestabilizada politicamente pela Brexit e pela crise do partido conservador, a relação entre trabalho e capital é a  favor do segundo. O legado imperial também continua. Corbyn teve que se unir à produção do Trident, equivalente britânico do Rafale.

Para concluir, no Reino Unido não há à vista “amanhãs que cantam “, mas, ao contrário da França, há um clima político que não é deletério e é até mesmo entusiasta à esquerda. A perspetiva é que Corbyn e McDonnell cheguem ao governo, o que abriria um período marcado por um desejo genuíno de que o Parlamento vote e implemente  reformas que melhorem a vida das classes trabalhadoras e da classe média e reduzam  o desemprego juvenil. A parte do futuro programa, que será uma montagem um pouco melhorada do programa de 2017 e será aplicada, não está ainda apresentada. Tudo dependerá do dimensão da vitória e, dentro da maioria, do número de deputados trabalhistas prontos a ser um pouco radicais, por causa das suas próprias convicções, mas também do grau de intensidade da pressão que a juventude irá exercer sobre eles. Uma vez que Corbyn e McDonnell estejam em Whitehall , será que o salto coletivo que os tem transportado desde 2015 continuará a sua trajetória? A história nos dirá.

 

 

Fonte: François Chesnais, Attac, Jeremy Corbyn, la reconquête du Parti travailliste par la gauche et ses perspectives gouvernementales, editado em 4 de Abril de 2018 e disponível em:

https://france.attac.org/nos-publications/les-possibles/numero-16-printemps-2018/debats/article/jeremy-corbyn-la-reconquete-du-parti-travailliste-par-la-gauche-et-ses

 

 

Notas

[1] Richard Seymour, Corbyn, The Strange Rebirth of Radical Politics, Verso, London, 2017.

[2] Veja-se em francês, Thierry Labica « Détruire l’ennemi : les conservateurs et les forces médiatiques », Contretemps, décembre 2016.

[3] Alex Nunns, The Candidate, Jeremy Corbyn’s Improbable Path to Power, OR Books, London, 2017.

[4] Alex Nunns, Jeremy Corbyn, l’homme à abattre, Le Monde diplomatique, octobre 2015

[5] Assim, um ano antes do avanço eleitoral do partido liderado por Corbyn, a primeira edição de 17 de Setembro de 2016 do editorial da revista The Economist tinha como título : “Britain’s one party state – O Estado britânico para um só partido” . Resumindo as conclusões de um artigo que apresentava a conquista da Presidência pelo Corbyn como sendo a prova de uma marginalização do Labour que se iria acentuar ainda mais.

[6] Veja-se o Le Monde, 19 de Abril de 2017, por exemplo: “o Partido Trabalhista poderia jogar a sua unidade, ou mesmo a sua sobrevivência, aquando das  eleições legislativas anunciadas para 8 de Junho.” Dois números são suficientes para resumir o estado de decadência do Labour: apenas 15% dos britânicos acreditam que o seu líder, Jeremy Corbyn, “seria o melhor primeiro-ministro. Mesmo entre os eleitores do Labour, a proporção atingiu apenas 30%. »

[7] Mike Phipps (edited by), For the Many: Preparing Labour for Power, OR Books, 2017, com um prefácio de Ken Loach.

[8] Veja-se a segunda parte  do artigo  de Paul Mason, «Élections, club-sandwich et nids de poule au Royaume Uni», Le Monde Diplomatique de Junho de  2017.

[9] Dirigida por Ted Grant, esta corrente do trotskismo britânico entrou no Labour e nele exerceu uma certa influência nos anos 1980-1985. Encontra-se uma boa análise  na  Wikipedia.

[10] Jim Mortimer, ‘The formation of the Labour Party – Lessons for today’, 2000. Mortimer foi secretário-geral do  Labour nos anos de 1980.

[11] Consumido no Congresso dos TUC  de 1999 em  Blackpool.

[12] Henry Pelling, A Short History of the Labour Party, páginas  183 e 187. Macmillan, 1986.

[13] Thierry Labica, «Jeremy Corbin, le contretemps. Sur la crise du Parti travailliste en 2016».

[14] Um processo bem analisado no artigo  de Paul Mason, Élections, club-sandwichs et nids-de-poule au Royaume-Uni, Le Monde diplomatique, Abril de  2017.

[15] Nunns retoma a característica feita pelo comediante Mark Steel da  People’Assembly da qual foi co-fundador: «um movimento de pessoas que procuram uma casa comum». Ver o artigo de Nunns em Le Monde diplomatique acima citado.

[16] Nunns (p. 158) opta por  400 000.

[17] Jeremy Corbyn, l’homme à abattre, Le Monde diplomatique, op.cit.

[18] The Guardian, 25 Fevereiro de  2018.

[19] NO Google encontra-se um único artigo em  francês   sobre  o papel de Momentum  na vitória de Corbyn no Congresso de Setembro de  2016, que foi publicado pelo  L’Express.

[20] For the Many, op. cit. page 224.

[21] Thierry Labica, «Grande Bretagne, June is the end of May», Contretemps, juin 2017.

[22] Jeremy Corbyn, l’homme à abattre, op. cit.

[23] Pode-se consultar o  programa.

 

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