JEREMY CORBYN, UM POLÍTICO QUE SE DISTINGUE PELA SUA SERIEDADE – SPIEGEL ONLINE – ENTREVISTA COM O LÍDER DO PARTIDO TRABALHISTA JEREMY CORBYN “NÃO PODEMOS PARAR O BREXIT” – entrevista conduzida por JÖRG SCHINDLER

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O líder trabalhista Jeremy Corbyn acredita que a política deixou os jovens para trás. Em entrevista ao DER SPIEGEL, fala do Brexit, da crise da social‑democracia na Europa e da batalha difícil que tem pela frente para unir o seu partido.

Líder do Partido Trabalhista  Corbyn, Jérémie Souteyrat / DER SPIEGEL

O homem sobre o qual se apoiam  as esperanças dos jovens de ambos os sexos na Grã-Bretanha gosta de tirar fotos sobre as  tampas de esgoto e de fazer geleia. Ele usa blusões largos e, quando necessário, contrabandeia queijo inglês para o seu alojamento de férias no México. Por outras palavras, ele leva um estilo de vida meio excêntrico como reformado  britânico  face ao que é habitual nesta condição de reformado.

Exceto que Jeremy Corbyn, de 69 anos, tem a intenção de se tornar o próximo primeiro-ministro do Reino Unido. Desde que o homem do bairro londrino de Islington se tornou o líder trabalhista surpresa em 2015, o partido tem experimentado um boom sem precedentes. Ao contrário de Bernie Sanders nos Estados Unidos, as posições decididamente socialistas e pacifistas de Corbyn têm sido recebidas com entusiasmo pela maioria dos eleitores jovens. Com os seus 540.000 membros, o Partido Trabalhista é agora o maior partido político da União Europeia. Na eleição de 2017, obteve 40 por cento dos votos, apesar dos ataques significativos contra o partido por parte dos media britânicos e de  uma amarga batalha interna. Desde então, partidos de esquerda e social-democratas de toda a Europa têm feito peregrinações a Londres para aprender o segredo do improvável sucesso de Corbyn.

Der Spiegel (DS) Sr. Corbyn, quando olha para a Europa neste momento, receia que a democracia social esteja condenada?

Corbyn: De modo algum. Olhem para Portugal, onde o Partido Socialista formou um governo de esquerda bem-sucedido. Também o Partido Social-Democrata sueco se saiu relativamente bem nas últimas eleições.

DER SPIEGEL: Estes são os últimos bastiões. Na Alemanha, França, Holanda e outros países, os sociais-democratas estão a caminho de se tornarem partidos dissidentes. Por que razão estão a saírem-se tão mal?

Corbyn: Penso que o ponto principal é como lidar com a crise económica de 2008. Continuam a permitir que a austeridade domine e determine uma economia que, de facto, está a redistribuir a riqueza de forma errada ou oferecem uma alternativa? Penso que os partidos de esquerda que estão a apresentar uma alternativa coerente contra a austeridade terão um enorme apoio.

DER SPIEGEL: Neste momento, porém, são os partidos populistas de direita em toda a Europa que estão a receber um apoio significativo.

Corbyn: Quando as comunidades ficam desiludidas com os políticos e a política, isso pode ser extremamente perigoso. Por isso, considero a ascensão da extrema-direita na Áustria e na Alemanha muito preocupante e perturbadora Pelo menos o AfD (o partido populista de direita da Alemanha, Alternativa Populista para a Alemanha) não cresceu mais nas sondagens recentes , mas penso que a ascensão deste partido é  bastante assustadora.

DER SPIEGEL: O declínio da social-democracia começou depois de  figuras como Tony Blair e Gerhard Schröder terem chegado ao poder. Isso é apenas coincidência?

Corbyn: O que Tony Blair queria fazer era transformar a democracia social tradicional naquilo a que ele chamou uma terceira via.

DER SPIEGEL: O que o levou a ganhar  foi através de  um deslizamento de terreno politico  em 1997.

Corbyn: Sim, mas ele moveu o Partido Trabalhista para a direita. Eu nunca fui um apoiante deste caminho. Apoiei o investimento em saúde e educação, que foi muito bom. Discordei da Guerra do Iraque em particular, mas também da ideia de que se poderiam gerir os serviços públicos através da finança privada.

DER SPIEGEL: A sua resposta é uma clara viragem  para a esquerda?

Corbyn: O que estamos a oferecer aqui são políticas coerentes. São os valores que estão por detrás delas que são muito importantes. São os valores que os senhores defendem  para toda a sociedade e não culpem as minorias, que investem na educação, mas acima de tudo, que dão esperança às pessoas. Penso realmente que muitas pessoas em toda a Europa precisam da perspetiva de que serão capazes de alcançar algo nas suas vidas, porque os níveis de depressão nas zonas pós-industriais são enormes. Os níveis de subemprego, de emprego a curto prazo e de emprego precário são enormes. E penso que isso é muito perigoso para a sociedade. O que estamos a dizer é que tem de haver um realinhamento da riqueza dentro da nossa sociedade.

DER SPIEGEL: No entanto, o atual nível de desemprego na Grã-Bretanha é o mais baixo desde 1975. Apesar do Brexit, a economia está a crescer.

Corbyn: Isso  esconde o facto de que há 1 milhão de pessoas com contratos de hora zero (Eds. Nota: contratos que não garantem uma quantidade mínima de trabalho) e que os salários reais estão congelados desde há 10 anos. Quase 4 milhões de pessoas recorreram aos bancos de alimentos no ano passado no sexto país mais rico do mundo. Os conservadores tendem a medir tudo pelas partes prósperas de Londres e do sudeste. Simplesmente essa não é a mesma situação no  resto do país. Temos os níveis mais baixos de salários pagos nas East Midlands, que fica a menos de duas horas de Londres de comboio. Os níveis mais baixos de investimento estão no nordeste.

DER SPIEGEL: É por isso que os trabalhistas obtiveram  40% dos votos nas eleições do ano passado?

Corbyn: Nós abordamos as preocupações da maioria no nosso manifesto, sim. E estamos a fazer campanha de uma maneira diferente. Estamos a fazer campanhas comunitárias, envolvemos os nossos membros muito mais na elaboração de políticas. Juntos, estamos a desenvolver ideias como um serviço nacional de educação abrangente. É uma ideia completamente nova na Grã-Bretanha, onde a educação tem sido tradicionalmente atomizada entre escola, autoridade local, universidades quase independentes e assim por diante. E, obviamente, trabalhamos para fazer passar a nossa mensagem da melhor forma que pudermos.

DER SPIEGEL: Contornando os media dominantes, como o senhor se lhes refere.

Corbyn: A área mais hostil para nós são os media impressos que têm sido incrivelmente hostis. Desde que me tornei líder do Labour,  há três anos, 86% das reportagens sobre a minha direção  têm sido negativas pela parte dos media tradicionais. Denunciamos isso da forma que pudermos. Fazemos muito melhor nos medias sociais e nos media de radiodifusão.

Der Spiegel: Para ser justo com a imprensa, não precisa de jornalistas para falar mal de si. Alguns dos seus adversários mais ferozes podem ser encontrados entre os delegados trabalhistas na Câmara dos Comuns.

Corbyn: O partido está mais unido do que você pensa. Quase 14.000 pessoas vieram à nossa última conferência em Liverpool. Essa é a maior participação de sempre numa conferência política na Grã-Bretanha. E o partido chegou a posições bastante consensuais sobre a maioria das coisas. Não há uma divisão enorme.

DER SPIEGEL: Foi por isso que me referi especificamente aos deputados trabalhistas, um grupo coletivamente conhecido como Partido Trabalhista Parlamentar. Um número significativo deles gostaria mais cedo ou mais tarde de se livrar do senhor.

Corbyn: Alguns membros do Partido Trabalhista Parlamentar têm sido mais lentos a entrar a bordo do que outros, poderei eu dizer assim?

Der Spiegel: Porque é que a velha guarda despreza tão apaixonadamente a sua política de esquerda?

Corbyn: Tenho receio que tenha de lhes fazer essa pergunta. Eu me aproximo-me  de todos – sempre .

DER SPIEGEL: Diz-se que os velhos Blairistas e os centristas trabalhistas estão a formar um novo partido. Seria mais fácil para si se os seus adversários dentro do partido se fossem embora?

Corbyn: Não, eu não quero que o partido  esteja dividido porque qualquer divisão seria perigosa para o futuro de todos nós. Eu quero que eles fiquem juntos e reconheçam que, a menos que ofereçamos uma alternativa radical inclusiva ao que este governo conservador está a fazer, não vamos ganhar a eleição. Estamos a oferecer essa alternativa radical.

DER SPIEGEL: É isto  que inclui a nacionalização dos caminhos de ferro e da rede elétrica, mais os direitos dos trabalhadores e uma redistribuição massiva da riqueza de cima para baixo.

Corbyn: As nossas políticas são sensatas, inclusivas e, na verdade, são bastante comuns. A maioria dos britânicos apoia o retorno da ferrovia à propriedade pública.

DER SPIEGEL: Nos seus 35 anos como deputado, ganhou a reputação de ser um rebelde. Votou contra o seu próprio partido 400 vezes.

Corbyn: Ah, penso que foi muito mais do que isso.

DER SPIEGEL: No entanto, sob a sua liderança, os rebeldes trabalhistas foram ocasionalmente sancionados de forma bastante dura. Não será isso um paradoxo?

Corbyn: Ninguém foi sancionado pelos seus votos. Não estamos interessados em sancionar as pessoas pelas suas opiniões. Nós sancionamos as pessoas pelo seu comportamento e por falsas alegações.

DER SPIEGEL: Membros do seu partido também o acusaram de tolerar o anti-semitismo. Que nos diz sobre isto?

Corbyn: Não, absolutamente não é verdade. O anti-semitismo é uma forma nojenta de racismo. Oponho-me implacavelmente a ele. Não há lugar para ele no nosso partido e tem de ser erradicado da sociedade. Tomaremos todas as medidas necessárias para combater de frente o anti-semitismo e garantir a segurança da vida judaica no Reino Unido.

DER SPIEGEL: Não apenas o Partido Trabalhista, mas todo o país está extremamente dividido neste momento – sobretudo por causa do Brexit. Se  pudesse parar o Brexit, pará-lo-ia?

Corbyn: Não podemos pará-lo.  O referendo teve lugar. O artigo 50º foi desencadeado. O que podemos fazer é perceber quais as razões pelas quais as pessoas votaram Leave.

DER SPIEGEL: E estas são?

Corbyn: Eu acho que muitas pessoas ficaram totalmente irritadas com a forma como as suas comunidades foram deixadas para trás. Tivemos altas votações Leave, saída da União Europeia, nas áreas mais à esquerda do país. Em muitas áreas carenciadas, as condições de trabalho deterioraram-se ao longo das décadas, protegidas pela legislação europeia. Com efeito, reforçaríamos os direitos dos trabalhadores, onde o Partido Conservador quer ir numa outra direção, na direção de uma economia largamente desregulamentada.

DER SPIEGEL: Não enfrentaria praticamente os mesmos problemas que a Primeira-Ministra Theresa May se estivesse à frente das negociações do Brexit?

Corbyn: Não, porque não estaríamos a tentar copiar a economia desregulamentada dos Estados Unidos, que é  única politica que o Partido Conservador está sempre a tentar fazer. Gostaríamos de fazer uma nova e abrangente união aduaneira com a União Europeia, uma união que obviamente protegeria a fronteira irlandesa – isso é crucial -, mas que também garantisse que as nossas cadeias de abastecimento funcionassem em ambos os sentidos. As pessoas votaram Leave ou Remain, mas ninguém votou para perder o emprego. Ninguém votou para reduzir o seu nível de vida ou as suas condições de trabalho.

DER SPIEGEL: Algumas pessoas têm argumentado que se os trabalhistas tivessem tido um líder pró-UE, o resultado do referendo do Brexit teria sido diferente. Que imagem deveria ter a UE para a apoiar?

Corbyn: Tenho criticado a política de concorrência na Europa e a transição para o mercado livre, e obviamente critiquei no passado o seu tratamento da Grécia, embora tenha sido sobretudo a zona euro que o fez. A minha ideia é uma Europa social com sociedades inclusivas que funcionam para todos e não apenas para alguns.

DER SPIEGEL: Menos neoliberal?

Corbyn: Bem, como você provavelmente percebeu ao acompanhar-me, eu não sou realmente a favor da economia neoliberal.

DER SPIEGEL: Olhando para a tarefa quase impossível enfrentada por Theresa May, a de fechar um acordo não só com Bruxelas, mas também com o seu próprio partido, você às vezes sente pena dela?

Corbyn: Eu sou um ser humano decente, tenho pena de qualquer pessoa em perigo. Mas a melhor maneira de alguém aliviar a angústia é afastar-se da sua origem, do que a provoca.

DER SPIEGEL: Sem ofensa, mas o senhor  e o senador americano Bernie Sanders são políticos mais velhos…

Corbyn: Não acredito que tenha acabado  de dizer isso! (risos)

DER SPIEGEL: Porque é que tantos jovens se juntaram a si?

Corbyn: Isto não é uma coisa pessoal. É sobre nós enquanto partidos  e movimentos que queremos oferecer alguma esperança. Os jovens nunca se desligaram da política. A política desligou-se dos jovens porque não lhes ofereceu nada. Cresci nos anos 50 e 60 e sempre acreditei que provavelmente teria uma vida melhor do que a dos meus pais. E os meus pais não eram pobres. O ponto de viragem foi a política apoiada por Ronald Reagan e Margaret Thatcher. A mensagem deles era que os jovens tinham que pagar pela sua formação, pagar pela saúde, pagar pelas pensões, que a sociedade não se importa com eles. E o que importa, dizem-nos,  é que é tudo uma questão de concorrência, de competitividade.

Der Spiegel. E agora quer voltar para o futuro?

Corbyn: O que temos dito em ambos os lados do Atlântico é sobre a redistribuição da riqueza e do poder. Bernie Sanders tem uma linha politica  muito boa. Ele diz: “A América pode aguentar seja o que for, exceto a desigualdade que tem”.

DER SPIEGEL: O senhor fará 70 anos no próximo ano. Será que está a planear  candidatar-se  às próximas eleições gerais?

Corbyn: Sou muito jovem. Sou muito saudável. Eu corro. Sou vegetariana. Eu como mingau todas as manhãs. Eu não fumo. Eu não bebo. Eu não faço nada de mal. Desculpe se isso me faz parecer chato.

DER SPIEGEL: Mr. Corbyn, thank you very much for this interview.

 

Fonte: Jörg Schindler, Der Spiegel, Interview with Labour Leader Jeremy Corbyn-‘We Can’t Stop Brexit’. Publicado em Novembro de 20198. Texto disponível em: https://www.spiegel.de/international/europe/interview-with-labour-leader-corbyn-we-can-t-stop-brexit-a-1237594.html

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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