OS MEUS DOMINGOS – BREVES DESCONSIDERAÇÕES SOBRE O PERU – por ANDRÉ BRUN – II

(1881 – 1926)
(continuação)

Não querem que embirre com o peru? Pois oiçam esta esta história.

Em Dezembro do ano passado, encontrei-me, sem saber como, no deserto. Não lhes posso dizer se era o do Sahara, porque as ruas não tinham tabuleta. Estava deitado na areia e um leão preparava-se para comer o meu fígado ao natural, quando de repente o felino se deteve. Ia tocar a campainha para perguntar à minha criada a razão porque o leão tinha parado e para lhe mandar dar corda, quando me lembrei que estava sozinho no deserto e nas garras impiedosas de uma fera, que com uma unhada terrível abrira no meu guarda-comidas uma incisão enorme por onde os meus intestinos se escapariam decerto, se não os retivesse com uma mão firme e calçada de suède gris pérola.

Cuidava que estávamos sós, eu e o leão; mas percebi que este se detivera nos seus folguedos pela chegada de um terceiro mamífero. Tratava-se de um sagui muito engraçadinho, benza-o Deus, que se instalou sem cerimónia sobre a minha testa e começou numa brincadeira, pueril é certo, mas não desprovida de certa pilhéria. Consistia em arrancar-me o olho direito da respectiva órbita, puxar pelo nervo óptico até quase ao limite da sua elasticidade e largar em seguida o olho, que regressava ao seu lugar com quanta pressa tinha.

O leão, interessado com a gracinha do macaco, não perdia pitada deste manejo. Eu dizia comigo:

– Deus queira que o nervo se aguente, porque, de contrário, fico sem um olho, não tendo, aliás, prazer nenhum em ser rei na terra dos cegos, e, ainda em cima, o leão me para o fígado, ofiodó![1]

Nisto o macaco começou a coçar com delírio o assento, o que irritou sobremaneira o leão por ser uma manifesta falta de respeito.

O presidente da república dos animais franziu o sobrolho, estendeu a pata, deitou-a ao pobre símio e duma só vez meteu-o na boca, cujo céu a vítima não pôde apreciar devidamente, pois começou a ser mastigado com aquele cuidado que os especialistas de estômago aconselham como base de uma boa digestão.

Pus-me a cismar que o leão, depois de trincar o sagui, decerto continuaria nas mesmas disposições mastigatórias e eu viria a ser o prato de resistência duma refeição de que acabava de ver desaparecer tão prestamente o hors d’œuvre.

Entretanto, arrumava o meu olho conforme podia e estava com ideias de alisar as pestanas com o pente do bigode, quando me lembrei que teria de o procurar no bolso direito do casaco com a minha mão direita e esta estava, como disse, ocupada a segurar o meu intestino grosso, que queria sair á viva força. Desisti.

O leão, entretanto, não se mexia. Passaram assim duas horas até que, – com franqueza, o que teriam feito V.V. Ex.as no meu caso? – eu disse ao carnívoro em questão:

– Então em que ficamos? Não posso estar aqui toda a tarde de barriga para o ar. E, para mais, olhe que o fígado frio não presta.

– Mandei vir, mas não me apetece. – explicou o leão

E, voltando-me as costas, foi-se embora sem pedir a conta. Não tinha dado trinta passos, sentou-se e começou a espirrar, até que veio ter comigo e me pediu com as lágrimas nos olhos:

– Tenha paciência, mas tire-me um pelo do macaco que me entrou para dentro do nariz. É uma comichão danada.

– A quem o diz, amigo leão. – atalhei eu. – Já me aconteceu isso uma vez no elevador da Glória, também com o pelo de macaco do chapéu de uma senhora.

Conforme pude, com a mão esquerda, lá aliviei o felino, que se afastou piscando-me o olho e dizendo-me adeus com a pata.

Dispunha-me a retirar-me também, quando de súbito me surgiu à direita um crocodilo com uma goela terrivelmente aberta, que não me deixava dúvidas acerca das suas intenções…

– Mau! disse eu comigo. – Recomeça a brincadeira e desta vez não aparece nenhum macaco para me livrar deste sarilho!

Resolvi proceder por intimidação e disse ao crocodilo com muito mau modo:

– Escusa de vir para cá com choradeiras, que a mim não me convence! Se V., sabendo que o médico me receitou picadas de crocodilato, traz ampolas e quere impô-las com bazófias e empolas, não me seringue que farto de injecções estou eu. Retire-se, pois não passa de um anfíbio e com essa qualidade de gente não me dou.

Oh diabo, que tal disseste?! O crocodilo sabe que é anfíbio, mas não goste que lho chamem. Abriu a boca como um fornecedor do Estado e começou a engolir-me, começando pela cabeça…

__________

[1] Exclamação tuareg muito usada no deserto, que corresponde às que se soltariam em português em iguais circunstâncias.

 

(continua)

 

NOTA – MANTEVE-SE A ORTOGRAFIA DA ALTURA EM QUE O TEXTO FOI ESCRITO (1922) 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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