A GALIZA COMO TAREFA – petróleo- Ernesto V. Souza

O ano começa escuro no pessoal, continuando como terminou o anterior, talvez isto atacunha-me e faz considerar a realidade, ambiental, política, social de qualquer jeito menos otimista.

Vejo pela Tv, numa noite sem sono, um documentário sobre os irmãos Lumière e as origens do cinema; com fragmentos e pequenas filmagens de finais do século XIX e começos do século XX. Comboios a vapor, tranvias e carros tirados por cavalos, bicicletas, piões arrastando carrinhas e carrinhos de mão. As desigualdades sociais são manifestas nos objetos, transportes e no vestir. Porém, todas as roupas são pesadas, os tecidos crus, e as ferramentas, veículos e objetos têm a impressão sólida da fabricação industrial e artesanal doutras eras. Grandes documentos. Pergunto-me como seria o mundo se não tivéssemos processado o petróleo.

É evidente o progresso humano na volta de um século. As condições de vida e a velocidade, nos países desenvolvidos. Mas o custe desse desenvolvimento de alguns países, em vidas humanas, em destruição de comunidades; o estrago dos grandes conflitos mundiais, a devastação, a guerra revolucionária e e reação contra-revolucionária, o neo-colonialismo após a descolonização e como depois de tantas voltas e reviravoltas, entramos num processo de fixação de conflitos e novas desigualdades sociais, territoriais. O prezo parece alto e também em excesso cruel.

Leio “Le Naufrage des civilisations” de Amin Maalouf, que chegou como presente de NatalLe naufrage des civilisations e fico apavorado na leitura e deliciado de encontrar-me de novo com uma voz e palavras que muito me marcaram na mocidade.

O Líbano é a memória de passados e paisagens devastados, o símbolo do exílio, a fugida, a expatriação; é a alegoria e absurdo da destruição do ideal de Levante: a das sociedades cosmopolitas, das cidades modernas e comerciais que têm as suas raízes nas mais antigas profundidades da civilização e a dos futuros perdidos.

Esse Levante, curiosamente coincide, mais que contrasta com o Atlantismo que herdamos dos velhos galeguistas (afinal é apenas perspectiva saudosa, cosmopolitismo e utópico humanismo, uma vez tirado o racismo das primeiras décadas do século XX).

O Líbano concreto é para mim uma lembrança de noites de bebedeira com um amigo libanês pela Crunha da mocidade, lá nos 90, com o seu silêncio ante as ruínas de paisagem e as bombas a cair, noticiadas dia sim, dia também pela TV. É também uma loja e umas conversas na fronteira do Brasil e Uruguai e é recorrentemente um pesadelo, uma advertência, uma barbárie.

Sempre me interessara a cultura e geografia antiga no fundo do Mediterrâneo, e mais a Leste, continuando pela Seda até o universo Índico e Chinês; os países de língua e cultura árabe, o Islã e as cruzadas, o Oriente e toda essa parte do mundo que é central entre Ásia e Europa. Geografia, poesia, arquitetura, urbanismo, medicina, filosofia, história. Deram-se outras ocasiões e oportunidades e é provável que tivesse estudado árabe e hebreu.

Bem é certo que a marcha do mundo também não me teria acompanhado. Boa parte da minha vida adulta decorreu durante este processo geral de involução paralelo, ou desencontro induzido entre Ocidente e o mundo Árabe. A corrida pela intolerância, a constatação da incomunicação, a construção prévia e propaganda da imagem do fanatismo como escusa para a destruição, e o tópico da luta contra as consequências de uma radicalização, em origem cultivada e aplaudida, apaga talvez qualquer lógica e deixa um pouso de amarga desconfiança na humanidade e no progresso.

E, pergunto-me, como teria evoluído o conjunto dos países Árabes, e o resto do mundo, sem o petróleo?

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