ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS EM 2020 – O QUE NOS ESPERA – IV – TOM PEREZ REFORÇA O PODER DO COMITÉ NACIONAL DEMOCRÁTICO CONTRA OS PROGRESSISTAS, por DANIEL BOGUSLAW

DANIEL BOGUSLAW

 

Tom Perez Stacks the DNC Deck Against Progressives, por Daniel Boguslaw

The New Republic, 28 de Janeiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Uma galeria de trapaceiros e de traficantes de influências  de dentro do partido dirigirá os poderosos comités da Convenção do Partido Democrata

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Scott Olson/Getty Images

 

Antes do primeiro grande teste para o campo presidencial democrata na próxima semana em Iowa, o presidente do Comité Nacional Democrata, Tom Perez, selecionou os seus nomeados para os Comités da Convenção Nacional Democrática de 2020. Estes nomeados, confirmados pelo comité executivo do Comité Nacional Democrata, servirão como supervisores para a convenção de julho em Milwaukee. O seu  mandato incluirá a gestão dos procedimentos de regulamentação da convenção, a resolução de disputas sobre credenciais de delegados e a codificação da plataforma do Partido Democrático. Tomados como um todo, esses supervisores exercem um tremendo poder na formação tanto da linha oficial do partido quanto à logística de seleção do candidato a presidente democrata, para não falar da forma como eles influenciarão o trajeto traçado por um potencial presidente democrata .

Até agora, as primárias presidenciais democratas foram definidas pela proposta de Joe Biden de apelar para o centro com os seus profundos laços com o núcleo do Comité Nacional; o impulso crescente  do contingente Warren/Sanders, que são vistos como gente externa ao  partido; e a eclosão de pequenos grupos que se movimentam à procura de uma posição algures pelo meio. As nomeações de Perez, entretanto, sugerem que ele preferiria resolver esse tumulto contínuo, deixando pouco espaço para atualizar a atração para a esquerda que o flanco esquerdo progressista do  partido tem obtido dos seus colegas através de concessões – como a exploração cautelosa, entre os moderados, de políticas de saúde que são apresentadas  como alternativas eficazes ao Medicare for All.

Se os colarinhos azuis do partido e a base da classe média – as pessoas a quem os candidatos se dirigem normalmente durante o debate – são realmente o motor da máquina democrata, é difícil ver como é que os seus interesses são representados pelos cerca de 70 delegados, que derivam a sua própria posição socioeconómica das  suas carreiras nas principais empresas financeiras americanas e nas lojas de influência da K Street, a zona de influência onde trabalham  numerosos lobistas e grupos ligados à  indústria da defesa em Washington.

Num  país onde as pessoas comuns ficam esmagadas  sob o peso da dívida médica, dos empréstimos estudantis, dos custos de habitação em ascensão e da inação face à mudança climática, esta seleção de  comités  oferece pouco conforto. Para muitos, é algo como uma bofetada na cara.

Não surpreende que Perez tenha optado por nomear candidatos centristas das profundezas do establishment do Partido Democrata. Muitos dos que estão nesta lista, afinal, foram eles que lhe entregaram  a presidência do DNC em 2016. Esta lista particular de participantes na Convenção está praticamente preenchida por uma variedade única e flagrante de lobistas de grandes empresas  e oponentes orais  às políticas progressistas. Um dos jogadores em destaque é o bem conhecido centrista John Podesta, figura de topo no que diz respeito a traficantes de influências que é  citado num e-mail em que houve fuga de informação como tendo dito “nada a opor” a que  “se reduza  [Bernie] Sanders a pó  “. “Onde é que lhe espetarias a faca?”, perguntou ele, abandonando temporariamente a metáfora “reduzir a pó”.

A nomeação de Podesta assinala um certo compromisso com a velha guarda do Partido Democrata de cães de caça e de confortáveis corretores  do poder. Mas esta fidelidade está profundamente embutida em todo o elenco de Perez, o que inclui os membros do partido de puro-sangue no topo dos três comités mais importantes.

A co-presidência do Comité de Regras do DNC foi concedida a Maria Cardona, colaboradora da CNN, ex-líder de estratégia  de comunicação do esforço do Departamento de Comércio para aprovar o Acordo de Livre Comércio do Atlântico Norte, e mais importante ainda, diretora do Grupo Dewey Square. Esta empresa de consultoria tem representado uma clientela diversificada: desde os lobbies de supermercados  e restaurantes que lutam contra os esforços de sindicalização até às grandes farmacêuticas e Starbucks. Como The Intercept informou em 2016, que o Grupo Dewey Square até foi consultor de gigantes dos seguros de saúde que procuraram minar partes fundamentais da Affordable Care Act. Este grupo também é representada no Comité de Regras pelo co-fundador da firma, Charles Baker, que  muito embolsou  depois de ter obtido favores dentro do partido durante anos de lobby e de pagamentos enquanto  diretor administrativo da Hillary for America em 2016. Minyon Moore, outra diretora do grupo Dewey Square, também encontrou o  seu caminho para alcançar uma cadeira no comité.

Cardona partilha o lugar de topo no Comité de Regras com Barney Frank, o antigo representante de Massachusetts, que – apesar da sua reputação de ser uma pessoa dura e uma afinidade partilhada com Sanders por  chamar  “uma treta” às políticas do Medicare for All e do Green New Deal – se levantou  repetidamente  contra as políticas do Medicare for All e do Green New Deal, políticas primeiramente  defendidas  por Sanders.

Os ataques feitos por Frank atingiram uma tal violência  que Sanders pediu formalmente ao DNC que o retirasse da sua posição em 2016, marcando uma rutura com a típica relutância de Sanders em fazer pedidos diretos (ao invés das duras invetivas) da máquina do Partido Democrata. Abaixo de Frank e Cardona no Comité de Regras estão Alexandra Gallardo-Rooker (assessora principal  da campanha de Bloomberg), Christopher Lu (alto responsável da Parceria Trans-Pacífico) e a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms.

À frente do Comitê de Credenciais estão Lorraine Miller e James Roosevelt, os mesmos dois presidentes que negaram o já mencionado pedido de Sanders de remover Frank em 2016. Depois de deixar o serviço público, James Roosevelt construiu a sua carreira subindo os degraus do setor da indústria farmacêutica até alcançar o cargo diretor de Tufts Health Plan, antes de se juntar aos conselhos de administração de várias associações de saúde. Anteriormente, ele tinha o título de co-presidente do Comité de Regras desde 1995, e participou fortemente no conflito havido entre Hillary Clinton e Bernie Sanders  em 2016. Miller e Roosevelt irão supervisionar o vice-presidente Tonio Burgos, cuja firma fez lobby para o gasoduto da Constituição, entregando gás natural explorado por fracking,  em Nova York, e Shefali Duggal, um poderoso angariador de fundos do partido  que em emails que foram objeto de fuga de informação procurou obter privilégios VIP bem especiais para a Convenção Democrata de 2016.

Denis McDonough, mais conhecido por servir como chefe de gabinete do presidente Barack Obama (embora os cinéfilos também se lembrem do ator  John Hamm a representar a figura de  McDonough no The Report, que retratava o seu esforço para reduzir a divulgação de informações relacionadas com o programa de tortura da CIA) também fez parte desta moldura. Nomeado como co-presidente do comité da plataforma, McDonough também se senta na cadeira do abutre-chefe  na Rework America Task Force, um leviatã bipartidário de interesses empresariais tentando, sem surpresa, ““remake America’s workforce”—” – tudo com a ajuda dos seus dedicados sócios fundadores de  Walmart, Boeing, Kaiser Permanente, McKinsey e Microsoft. Danielle Gray, vice-presidente executiva  e diretora jurídica da Blue Cross Blue Shield, ocupa um cargo de vice-presidente nesse comité, ao lado de Jake Sullivan,  conselheiro principal de Hillary Clinton e ex-assessor de segurança nacional de Joe Biden.

Outras nomeações notáveis foram para a ex-senadora Heidi Heitkamp, que agora faz parte da direção  do Instituto Neoconservador (John) McCain; para a ex-funcionária de Obama Carol Browner, que votou contra as iniciativas de mudanças climáticas radicais em 2016; Harold Ickes, descrito pelo Times como “Bill Clinton’s Garbage Man“, por vender o acesso ao presidente e por ter sido despedido depois do incidente   da relação paralela do Presidente Clinton  com  Gennifer Flowers; Alex Padilla, acusado de suprimir nos cadernos os eleitores progressistas independentes na Califórnia; e Michael Steed, fundador do Paladin Capital Group, que concluiu um acordo  com o estado de Nova York no quadro de um esquema  pay-to-play envolvendo um fundo de pensões  nova-iorquino. Paladin Capital também investiu centenas de milhões de dólares num fundo de segurança nacional chefiado por um ex-líder da CIA e um sortido de militares generais.

Independentemente da preferência explícita ou encoberta dos membros do comité por candidatos presidenciais, as filiações empresariais desses nomeados e a  sua recusa explícita em ceder qualquer base de apoio  a posições políticas progressistas estão em total desacordo com a preferência pela valorização da integridade que é expressa  pela maioria dos eleitores democratas. Além disso, a estratégia de nomeação de Perez introduz uma série de riscos antes do inevitável confronto nas eleições gerais. Para um partido político que apresentou a derrota eleitoral do Presidente Trump e a ganância e corrupção que ele encarna como a sua maior prioridade em 2020, os defensores da transparência democrática e da responsabilidade empresarial  são poucos e distantes na última lista do DNC.

Além disso, a reforma do sistema de saúde – a questão consistentemente classificada como a mais importante entre os eleitores democratas – é pouco clara nesta lista de nomeações, fora dos antigos lobistas da indústria da saúde que têm subido constantemente dentro das fileiras do DNC. As mudanças climáticas, também consistentemente classificadas como uma questão de topo para os eleitores, tem poucos defensores entre essas nomeações para o comité. Os atores que defendem que se dê uma muito maior importância ao trabalho, que se lute  por uma remuneração  justa e proteções no local de trabalho, também são igualmente em número insuficiente. Enquanto a própria campanha de Sanders se apresenta como a vanguarda  contra o reinado das forças da concentração  das empresas  e da maquinaria do partido, as nomeações de Perez parecem ter sido feitas para atiçar essas chamas, em vez de neutralizar  de forma  límpida  os argumentos do senador de Vermont.

Um solitário apoiante de Sanders num mar de membros hostis do comité, no cargo Our Revolution  e ex-presidente do sindicato de 700.000 trabalhadores de comunicação,  Larry Cohen,  também chegou ao Comité de Regras – embora com poucos rostos amigáveis na multidão. Durante a contenciosa batalha pela presidência do DNC que eclodiu entre Tom Perez e Keith Ellison em 2016, Cohen escreveu no Huffington Post: “Não faz sentido que Tom Perez dirija uma  campanha que começa   com aquela base de doadores e outras que representam mais do mesmo… É claro que Tom vai trazer muito a este debate. Mas para aqueles de nós que têm lutado por mudanças reais durante décadas, sabemos de que lado devemos estar”. É o único exemplo em que Perez atendeu ao velho ditado de que é melhor ter seus inimigos dentro da tenda, a desejarem mijar para  fora, do que o contrário. Ele pode vir a lamentar não seguir mais fielmente essa antiga sabedoria, embora possa vir a ser uma nação de cidadãos em luta  que acabará por pagar o preço.

 

Fonte Daniel Boguslaw, The New Republic,  Tom Perez Stacks the DNC Deck Against Progressives. Texto disponível em:

https://newrepublic.com/article/156341/tom-perez-stacks-dnc-deck-progressives

 

Daniel Boguslaw é um escritor e perquisador que vive em New York

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