CARTA DE BRAGA – “do suspense e da escolha” por António Oliveira

Imagine um homem sentado no sofá favorito da sua casa. Debaixo tem uma bomba a ponto de explodir. Ele ignora, mas o público sabe disso. Isso é o suspense

Alfred Hitchcock

Esta situação, extremamente simples se for contada, torna-se ‘complicadissima’ posta num ecrã, para ser vista por ‘tutti quanti’ resolvem passar umas horas no meio do barulho da mastigação de pipocas, para assistir a um filme de Hitchcock, ou de qualquer outro realizador do género ou parecido.

Há outra situação semelhante, todos sentados em casa no sofá preferido, olhando placidamente os ecrãs que a vida nos pôs à frente ou nas mãos, ignorando os dois grandes fantasmas ameaçando a humanidade, sem os poder ou não os querendo ver.

O primeiro é o da extinção rápida, decorrente de uma guerra nuclear em grande escala, ou um planeta tóxico em resultado de um conflito atómico mais limitado, como avisou há já alguns anos o notável físico Andrei Sakharov e o segundo fantasma é uma extinção mais lenta, consequência de um aquecimento global sem qualquer freio.

Chamou a atenção para estes dois quase reais fantasmas, o economista, académico e autor James K. Galbraith, num longo artigo no ‘El País’ do princípio deste ano.

Para Galbraith, ganhar a corrida a estas ameaças, exige mais e maior esforço que todos os já feitos em inversão, planificação, educação pública e segurança social, em toda a história da humanidade.

Estes são os tópicos em torno dos quais, Galbraith desenvolve o artigo:

a – o sector financeiro é incapaz de proporcionar uma direcção estratégica à economia real;

b – as finanças globais e a desigualdade económica sãos as duas caras da mesma moeda;

c – no mundo real, quanto mais fraudulento, mais êxito, pelo menos até ser descoberto.

É por tudo isto, garante Galbraith, que o mundo necessita de uma mudança tão radical como a que se deu entre o feudalismo e o capitalismo.

Mudança até na cultura, cuja situação reflecte estes pontos, de acordo com o que alguém escreveu há já uns anos ‘Quem cria a cultura não são os ministros do ramo, são os da economia’, ajudados pelos ‘inefáveis proprietários e directores da grande maioria dos canais e jornais generalistas’, acrescento eu.

Tudo porque, garantem tanto Maquiavel como Santo Agostinho, ‘a soberba não é grandeza mas sim inchaço e o que está inchado parece grande, mas não é saudável’.

Nada melhor do que concluir com um pensamento de Fernando Savater ‘há que puxar pelas almas antes de oxidarem por completo, recuperar a voz, desconfiar dos mediadores que nos compram tudo com quilo e meio de diálogo, teimar nos espaços políticos que possamos abrir, não abandonar os jovens a quem lhes aproveite o entusiasmo sem experiência…e acordar por muito desenganados que se esteja’.

Não resisto a terminar a Carta de hoje com uma das ‘tiradas’ de Groucho Marx, que também se pode adaptar perfeitamente a estes tempos ‘A sinceridade e a honestidade são as chaves do sucesso. Se puderes falsificá-las, estás garantido’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

 

4 Comments

  1. Obrigado Caro Carlos Leça da Veiga!
    As suas palavras são um enorme incentivo para a escrita que costumo usar!
    Mais lhe agradeço por terem vindo de uma pessoa com tanto caminho andado!
    Abraço
    A.O.

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