EM VIAGEM PELA INDOCHINA (1) – por ANTÓNIO GOMES MARQUES

 

         Obrigado a John Moen e ao worldatlas

 

 

I – INTRODUÇÃO

Por fim, a viagem à Indochina concretizou-se.

Primeiro, o grande desejo era visitar o Vietname, conquistado que fui pela bravura daquele povo que derrotou a grande superpotência, EUA, como já havia derrotado a França e até a China, mas isto fica mais lá para a frente, sobretudo a questão do relacionamento com a China.

Indo ao Vietname, por que não aproveitar para uma passagem por alguns daqueles países que também eram para nós um atractivo? E assim se fez, com breves passagens pelo Camboja (ou Cambodja, ou Kampuchea, como quiserem) e pelo Laos.

A viagem é demorada, aliviada por se fazer escala no Dubai e, depois, em Bangkok. Aqui deixámos o conforto dos aviões da Emirates, viajando num avião da Bangkok Airways, com destino a Siem Reap, no Camboja, tendo tudo decorrido sem problemas, ou seja, após cerca de 22 horas, estávamos no primeiro destino da nossa viagem, para visitar seis dos templos ainda existentes, uns maiores e outros menores, lembrando que, numa área de 600 km², foram encontrados mais de 100 templos.

Há que ter em atenção a época das monções quando se pensa em viajar para a Indochina ou Sudeste Asiático. Temos, praticamente, apenas duas épocas: a da chuva, de Maio a Outubro, e a da seca, de Novembro a Abril. Optámos por iniciar a viagem em Fevereiro, o menos quente, para terminar em 8 de Março/2019. Mesmo com estes cuidados, apanhámos bastante calor, mas nos restantes meses da época seca os termómetros sobem até aos 40 graus centígrados.

Foram duas semanas sem parar, obrigando-nos a andar quilómetros e quilómetros a pé —para além da navegação no Rio Mekong—, para visitas locais, e os voos que nos levaram de um país a outro e do centro do Vietname a Ho Chi Minh—, o que justifica as datas escolhidas.

O rio Mekong ficou na nossa memória aquando da guerra do Vietname, particularmente o seu produtivo delta; agora, tendo nele navegado no Laos e no Vietname, pudemos ver a importância deste rio para a economia destes países, tendo tido a oportunidade de ver a estreita ligação entre o rio e as populações que dele dependem.

No delta, verificámos a razão por que são os barcos o principal meio de transporte, pois ali nos deparamos com um verdadeiro labirinto de rios, de pequenas ilhas com as minúsculas aldeias rodeadas de arrozais e pântanos e onde pudemos ver alguns mercados flutuantes, dos muitos que me disseram existir. A sua área é de 40.577 km², abarcando as cidades de Ho Chí Minh [em que foi inserida a cidade de Saigão, hoje o maior bairro (!) da cidade], de Phú Quóc, Can To, Mai Tho e outras, com uma população, no total do delta, de quase 22 milhões de pessoas, ou seja, mais de 20% da população total do país.

Mas voltemos ao primeiro destino da nossa viagem.

 

II – CAMBOJA, alguns dados

 

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Camboja

Oficialmente, Reino do Camboja, com uma área de 176.520 km², no Sul da Península da Indochina, fazendo fronteira com a Tailândia a Noroeste e na parte Sudoeste, com o Laos a Nordeste e com o Vietname a Leste.

A população ultrapassa os 16 milhões, colocando-se aqui um problema talvez único no Mundo, se a informação fosse verdadeira: a população até aos 8 anos corresponde a 60% do total, segundo o guia. A falta de mão-de-obra constituiria um grave problema para o desenvolvimento do país, mas poderia ser uma vantagem para o seu futuro se… É um se muito grande, se pensarmos que a falta de mão-de-obra também se faz sentir no ensino, ou seja, não há professores suficientes, sendo o campo o mais prejudicado, com a tendência natural de as pessoas preferirem a cidade para viver e os professores não fugirem à regra.

Fotografia de António Gomes Marques (AGM)

Disseram-me, perante as muitas perguntas que fiz, que o governo do Camboja está consciente de que tem de apostar na educação se quiser ter um país com futuro, mas para isso teria de ter desenvolvimento.

Para ter desenvolvimento, há que ter recursos, a começar pelo número de pessoas necessárias a esse desenvolvimento, sendo as pessoas a maior riqueza de qualquer país. Sobre a demografia falaremos mais à frente, com números oficiais.

Veja-se a fotografia acima reproduzida, que tirámos numa aldeia cambojana, e perguntemo-nos: qual o futuro desta criança? Que acesso ao ensino poderá vir a ter?

Mas poderemos mostrar outras fotografias, elucidativas das dificuldades com que o país se debate. Fotografias de aldeias ou dos muitos estabelecimentos ao longo das estradas, podendo nós concluir que muitas famílias dependem daqueles pequenos negócios, mas agora dou preferência a uma fotografia de mais uma criança, trabalhando nos templos para auferir mais algum rendimento para a família, sempre bem-vindo por muito baixo que seja. Eis a fotografia que seleccionei de entre as que tirei num dos templos visitados:

Fotografia de AGM

Que faz ali aquela criança? A resposta é simples: procura vender alguma coisa que lhe dê algum lucro ao fim do dia, que tanto pode ser uma garrafa de água ou um qualquer objecto artesanal. E a escola, onde ela deveria estar? Mais uma vez, pergunto: se, logicamente, o futuro do país está nesta população infantil, quantas crianças têm de não frequentar a escola para poder auferir alguns cêntimos diários para que a sua família tenha mais alguns recursos para viver? Mesmo que os seus pais pudessem optar por levar os filhos à escola, teriam uma escola —o que implica ter professor— próxima do seu local de residência? E se a escola fosse distante, teriam transporte adequado? Quando poderão vir a ter o conforto da minha neta?

Ao longo das estradas, no campo, pudemos observar os vários negócios a que se entregam as famílias, nomeadamente as mulheres, como se mostra na fotografia que a seguir reproduzo.

                                                                               Fotografia de AGM

O índice de desenvolvimento humano é semelhante ao de S. Tomé e Príncipe, apesar da grande recuperação após o fim da guerra civil.

Encontraremos algumas explicações falando resumidamente da história do Camboja, como apresentaremos números que contradizem informações do guia.

 

Portela (de Sacavém), 2020-03-06

 

(CONTINUA)

2 Comments

  1. Raríssimos os comentadores que têm a coragem de, com toda a clareza, afirmarem que os vietnamitas derrotaram os franceses e, depois, estrondosamente, os ianques.Abraço do CLV

  2. Meu Caro Leça da Veiga
    Ter acompanhado a Guerra do Vietname como eu acompanhei, tendo lido vários livros à mesma dedicados foi para mim importante, mas mais importante ainda foi, depois, andar pelo Vietname, sobretudo no Delta do Mekong e, inclusive, nos estreitos túneis que contribuíram, e de que maneira!, para a estrondosa derrota dos americanos (USA). Julgo que só após esta experiência é que compreendi o tormento que os ianques sofreram e os vexames por que passaram. Infelizmente, não aprenderam a lição e continuam a causar mal ao Mundo.
    Abraço
    António

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