CARTA DE BRAGA – “jardinar a vida” por António Oliveira

Esta madrugada, às 3.50, o equinócio da Primavera trouxe consigo o começo de uma nova estação. Durará 92 dias e 18 horas e vai acabar no 20 de Junho, com o começo do Verão.

Era assim seco e frio, o anúncio da entrada da Primavera na passada sexta feira dia 20, como se o site onde li isto, estivesse a anunciar mais um dos pesados e trágicos casos ou acontecimentos destes últimos tempos.

Mas não, era a chegada da Primavera, aquela estação do ano que, antigamente, conseguia fazer desaparecer as neves na serra, permitia a explosão dos botões e depois das flores nas árvores e nos campos, a chegada das andorinhas e a nós, armados com um ramo curto de erva grossa, andar a apanhar grilos acoitados nos seus buracos. 

Tínhamos um pouco mais de dez anos, corríamos os arredores à procura de um quintal com peras ou maçãs, jogávamos à bola e fugíamos para o rio, lá mais abaixo, para chapinhar nas águas baixas.

Esta era a noção de Primavera naqueles tempos, bem diferente da de hoje, metidos em ruas onde se plantam carros e escasseias árvores, onde os pardais estão a desaparecer, substituídos pelos cocós dos cães, plantados nos passeios ou nos poucos pedaços de relva ainda não ocupados por frentes ou traseiras dos omnipresentes automóveis.

Começavam então a guardar-se as botas cardadas e a roupa grossa, para dar a vez a uma camisa e uma camisola nova, tricotada pacientemente nas noites do Inverno e até se podia ir assistir às saídas das missas aos domingos, para catrapiscar as miúdas. Dizíamos entre nós, nunca em casa, que quem assistisse a três saídas (havia um monte de igrejas na cidade!) ficava com a obrigação cumprida.

Outros tempos, onde se trocavam cromos (o mais difícil era quase sempre o 14!) se tinha a primeira engasgadela num ‘Provisórios’ ou num ‘Definitivos’, os mais baratos e comprados a ‘meias’ ou a ‘terças’, para depois mascar folhas das silvas para chegar a casa sem cheiro a tabaco.

Lembrei-me disto tudo, porque já aí está Abril e por ter ouvido o Pedro Barroso na entrevista que deu à Antena 2, ‘É preciso jardinar a vida! É extremamente importante, sobretudo quando somos confrontados com a sua brevidade! Temos que apontar futuro, apontar caminhos, temos de potenciar toda a capacidade criativa que eventualmente possamos ter’.

E todos, mas todos, devemos agir de acordo com estas palavras, por não ser admissível nem tolerável que a tragédia do ‘corona’ avilte ainda mais a actual tragédia humana!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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