FUI DAR UMA VOLTA, de DEOLINDO PESSOA

 

 

Fui dar uma volta, sim, hoje fui dar uma volta. Eu sei, as normas têm que ser cumpridas para o bem de todos, e eu tenho cumprido as indicações de não sair de casa. Mas hoje fui dar uma volta, um exercício de manutenção que também é sugerido nas indicações fornecidas pelas autoridades, cumprindo todas as regras de distanciamento social e de circulação.

Esta minha volta de hoje, creio que terá sido influenciada por anteontem ter sido o Dia Mundial do Teatro e pelos meus 50 anos de ligação a esta arte. Daí que nesta andança tenha buscado lugares que de alguma forma foram bem marcantes para mim, pelas mais variadas razões.

O primeiro espaço que visitei foi o edifício da escola primária onde andei na primeira classe, de que tenho uma memória bem viva e que determinou a minha forma de estar no futuro, de procurar não desistir perante os meus medos e as dificuldades. Tinha 7 anos e na festa do final de ano tinha ficado de dizer «À morte ninguém escapa». Andei a treinar afincadamente, com a ajuda do meu pai, que a pedido das professoras colaborava na festa, orientando quem ia cantar, dado a sua ligação à música. O dia da festa chegou e uma das salas de aula, de que tinham sido tiradas as carteiras, ficou repleta de pais e familiares dos alunos. As cantorias começaram e a minha timidez começou a assinalar presença, condicionando a minha atitude e o medo de falar para tanta gente fez-me refugiar num canto da sala e a sentir que não era capaz. As cantorias acabaram e o meu pai veio ter comigo, e antes de ele perguntar alguma coisa, disse-lhe que não queria ir representar, que tinha medo. O meu pai tentou dar ânimo, mas não me pressionou demais, senti que tinha percebido o meu estado de espírito e foi avisar a professora que eu não ia participar. Fui a correr à casa de banho e esperei pelo meu pai, que tinha mais cantorias para orientar, para ir para casa. Talvez tenha começado aqui neste edifício, que agora é a sede da Junta de Freguesia de Montemor-o-Velho, a minha vontade de fazer teatro.

A segunda paragem foi na Figueira da Foz, junto de uma unidade hoteleira, que se localiza na transição do Viso para Buarcos. Na época balnear um grupo de famílias de Montemor, ligadas por laços familiares e de amizade, costumava alugar um conjunto de casas à senhora Maria dos Vais, que tinha um terraço onde as pessoas à noite se juntavam para conversar, a televisão ainda estava nos seus primórdios. Um dos pais, muito dado às operetas, ensaiava os mais miúdos para umas representações, era uma forma de ocupar os serões e de nos manter activos. A mim foi-me distribuído uma versão satírica da canção «Da janela do meu quarto», um êxito da época na voz de Tristão da Silva, que começava com “da janela do meu quarto, vejo as latas lá na vala” e continuava referindo todas as maleitas existentes na vila de Montemor-o-Velho. Eu com todo o empenho ensaiava em casa, muitas vezes perante o sorriso da minha mãe, que uma vez ou duas me disse “ó filho, tu sais a mim, pede ao Ercílio para te dar outra coisa, que não seja preciso cantar”. Mas eu insistia, não queria voltar a desistir, nos meus dez anos pretendia mostrar que era capaz de cantar e de enfrentar o público. Chegou o dia da apresentação e cheio de força de vontade entrei em cena para cantar, entoei os dois primeiros versos e vejo a minha mãe a sorrir. Foi o fim, parei e disse: “pronto, já não canto, a minha mãe está a rir”. E saí, não tendo participado em mais nada, embora a minha mãe tenha vindo ter comigo e dito que sorria por estar a gostar de me ver, mas senti que ela estava só a tentar animar-me.

Ainda na Figueira caminhei até ao Casino, onde fui acometido por algumas memórias e revi o Teatro do Casino Peninsular, que já não existe. Aqui, neste espaço, actuei algumas vezes, mas retenho bem viva a sensação de pela primeira vez ter assumido os papéis de direcção de cena e de actor. Foi a função que me coube no Sarau de Finalistas do Liceu da Figueira da Foz em 1966. E então senti o que era ter uma branca, pois quando estava a actuar num Grupo de Jograis olhei para os bastidores e verifiquei que lá não estava quem já devia estar, e dentro de mim surgiu o pânico e aproximava-se a minha vez de falar sem me lembrar o que tinha de dizer, e na altura de dizer o que tinha de dizer sai num grito de explosão, a tempo mas fora do contexto. Nunca mais me esqueci dessa sensação, o que me levou a procurar soluções para esses momentos.

Na continuação do meu percurso chego a Aveiro e ao Teatro Aveirense, onde no inicio dos anos 70 me estreei como director de viagem no TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra), que na linguagem teuquiana era o elemento da direcção que tinha as funções de produtor executivo na digressão. De uma forma simplista direi que era o responsável por resolver os problemas que pudessem surgir. A dada altura um dos elementos da equipa de montagem veio dizer-me que a linguiça que era necessária para a cena inicial não tinha vindo, devo referir que a mesma tinha um papel essencial, pois era o ponto de partida para a trama do espectáculo. E lá fui eu à procura de uma linguiça pela cidade de Aveiro. Mas naquela época não havia supermercados, nem lojas abertas ao fim de semana naquele fim de tarde, e percorri em vão as ruas da cidade. Em desespero de causa resolvi ir ao Café Ria (ou será Ria Café?) e com toda a minha obstinação perguntei ao empregado do balcão se tinham uma linguiça que pudessem vender, a resposta foi um rotundo não. Já sem saber o que fazer e descrente de encontrar uma solução, vejo uma lata de salsichas maiores do que as que estava habituado a ver (mais tarde disseram-me que eram alemãs) e perguntei se me vendiam uma lata, a resposta foi outro rotundo não. Então perguntei se me faziam um cachorro com aquelas salsichas, tendo então a resposta sido sim. Aliviado pedi um cachorro. Quando o empregado se preparava para arranjar o cachorro, disse-lhe que as salsichas podiam ser cruas, como resposta recebi um olhar incrédulo. De imediato acrescentei que também dispensava o pão e como resposta recebi um olhar cúmplice. E lá levei duas salsichas alemãs compridas que naquele espectáculo substituíram a linguiça portuguesa.

Prosseguindo nesta viagem fui ter ao Porto, junto ao Teatro São João, ainda no início dos anos 70. Era um espectáculo do TEUC em que interpretava mais do que uma personagem, como mais alguns, o que implicava ter que mudar de figurino sempre que mudava de personagem. Os camarins que nos deram ficavam no terceiro andar acima do palco, o que era um problema para mim e uma colega, que na mudança para uma cena em que contracenávamos, tínhamos que mudar de guarda-roupa muito rapidamente. Os dois tivemos que procurar um lugar recatado nos bastidores onde a mesma pudesse ser feita, sem constrangimentos para ela. E lá encontrámos uns estrados arrumados uns em cima dos outros, que permitiam que cada um ficasse do seu lado a mudar de roupa. A solução para além de permitir fazer a mudança sem ver o corpo um do outro, tinha ainda a vantagem de em cima dos estrados se poder deixar os figurinos. Tudo bem e com plena satisfação da minha colega. O espectáculo começou e estava a decorrer normalmente, quando chegou o momento em que tínhamos de mudar de roupa e cada um foi para o seu lado dos estrados. Na cena anterior interpretava um camponês e logo a seguir vestia a pele de um senhor da alta burguesia que de smoking vinha de uma festa já bem bebido. A minha parceira seria a outra face do casal e usaria um vestido de noite preto. Devo acrescentar que o vestido não permitia o uso de sutiã. Estávamos nós, cada um no seu canto a preparar-se para a cena seguinte, quando olho para cima e vejo um bombeiro no varandim. Com o olhar mais cândido que consegui, perguntei: “tudo bem Manuela?” Ela compenetrada na sua tarefa, respondeu: “sim, estou mesmo a acabar”. E acrescentei: “bom espectáculo”. A que retorquiu: “sim, está a correr bem, estou pronta”. Então repliquei: “está a correr bem, pois está, deste um grande espectáculo”. Perante o seu olhar inquiridor, acrescentei: “deste mesmo um grande espectáculo, de striptease”. Ao seu olhar de incompreensão, com alguma malícia referi: “olha ali para cima”. A sua face exprimia bem todo o seu embaraço e algum agastamento, mas não deixou de dizer: “podias ter avisado que o bombeiro estava ali em cima”. Limitei-me num lamento balbuciar: “só o vi agora”. E entrámos em cena. Bom, na verdade, naquela noite o bombeiro teve um suplemento extra.

De seguida a planar fui até Lyon e ao seu campus universitário, já no final da década de 70, quando já era o responsável da Secção de Teatro para Infância do TEUC. Nessa condição acompanhei o grupo numa das suas participações no Festival Internacional de Teatro Universitário. Participação que foi um pouco atribulada, devido a uma arca ter ficado em Coimbra, arca que além de entrar em cena continha outros adereços e figurinos importantes para o espectáculo. Durante todo este episódio houve situações atribuladas, como de o Roldão ter chegado de avião a Lyon, mas a mala no transbordo em Paris ter voltado para Lisboa, por engano. Instalado o pânico, o meu papel passou a ser acompanhar o Fernando Gusmão, a tentar que não explodisse com a situação, mas a mala acabou por chegar a tempo do espectáculo. Mas o que mais me marcou nesta digressão foi a discussão sobre estética teatral com um dos responsáveis do grupo polaco que estava alojado também na mesma residência universitária. O habitual nestes festivais era durarem duas semanas e os grupos estarem todo o tempo, o que permitia que se pudesse ver todos os espectáculos. Num dia em que fomos ver o mesmo espectáculo, no regresso à residência fomos conversando e trocando ideias sobre a prática teatral. E acabámos sentados no corredor, depois de eu ter ido buscar uma garrafa de vinho do porto e ele de vodka, a discutir estética teatral até altas horas da noite. À primeira nada de especial, mas havia um pormenor importante. Eu falava razoavelmente em francês, mas tinha alguma dificuldade em falar inglês, e não sabia mesmo nada de polaco. Ele, por seu lado, também não sabia nada de português e falava francês e inglês muito pior do que eu. Assim, o debate sobre estética teatral foi feito numa mistura de francês, inglês, polaco, português e linguagem gestual criada no momento. A verdade é que parece que nos entendemos e ficámos amigos. Bom, o vinho do porto e o vodka devem ter dado uma ajuda preciosa.

Nesta volta poderia passar por Nantes, Rennes, Sitges ou Salamanca, mas decidi regressar a Coimbra. E em Coimbra fui revisitar um espaço que frequentei durante muitos anos: o Teatro de Bolso do TEUC. Lugar de muitas memórias e momentos relevantes, onde trabalhei com pessoas que me marcaram para a vida e não só no campo teatral. Um dos momentos, que ainda retenho bem presente, aconteceu num ensaio de «Arraia-Miúda» de Jaime Gralheiro, em 1976, cuja acção se desenrolava durante a crise de 1383-1385. Eu fazia de Mestre de Avis e numa das cenas, enquanto falava, cruzava pela frente de Leonor Teles. Nesse ensaio, ao fim de meses de ensaios, vejo pela primeira vez a rainha regente com o braço esticado e palma da mão virada para cima. E surpreendido com a situação não resisti a dar uma palmada na mão estendida, como quem diz “que é isso, tira a mão daí”. De imediato um grito estridente ecoa no Teatro de Bolso: “Pessoa era a minha lente de contacto”. O ensaio foi logo interrompido e toda a gente passou a procurar minuciosamente a lente de contacto no palco. Para alívio meu e da Mané, ao fim de algum tempo, a lente acabou por aparecer.

E sem sair daquele espaço, revivi outra situação que me marcou. Uma grande manifestação de carinho que ainda retenho bem presente. Foi na primeira peça que escrevi e dirigi no TEUC, na secção de teatro para a infância, onde em cada quadro se procurava recriar diferentes momentos da evolução de uma pessoa, recorrendo a diferentes técnicas como a luz negra e manipulação de objectos. Também participava como actor e num dos quadros era um dos filhos do casal, que brigavam bastante. A dado momento o meu irmão batia-me e eu chorava. A cena era um tanto caricatural e normalmente provocava muitos risos nas crianças que assistiam, mas a minha filha, que ainda era muito pequena, quando foi ver o espectáculo, enquanto as outras crianças riam com a cena, quando o Constantino começou a bater-me a minha filha desata a chorar e teve que sair do Teatro de Bolso levada pela mãe. Sempre considerei isto como a primeira prova de amor da minha filha.

Daqui decidi regressar a casa, às quatro paredes a que me confino agora, neste momento que vivemos. Esta volta deu-me um novo ânimo, fez-me sentir emoções que já estavam um tanto subliminares.

E esta foi a volta que dei, em que fui para fora cá dentro de casa. Espero que em breve possa dar mesmo uma volta, sair de casa e dar um abraço a familiares e amigos.

 

 

Coimbra, 29 de Março de 2020.

 

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