CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXVIII – UMA PANDEMIA DA DESGLOBALIZAÇÃO? – por HAROLD JAMES

 

A Pandemic of Deglobalization? por Harold James

Project Syndicate, 28 de Fevereiro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Nesta fase, não se sabe o quanto a epidemia da COVID-19 se agravará antes que o contágio comece a diminuir ou que uma vacina eficaz e amplamente disponível seja lançada. Em todo caso, não nos devemos  surpreender se a crise levar a uma mudança global de longo alcance, historicamente significativa.

PRINCETON – O surto do novo coronavírus, COVID-19, que começou em Wuhan, China, pode muito bem transformar-se numa pandemia global. Cerca de 50 países confirmaram casos do vírus, com a natureza precisa do mecanismo de transmissão ainda pouco clara.. (Photo by DANIEL LEAL-OLIVAS / AFP) (Photo by DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP via Getty Images)

 

As pandemias não são apenas tragédias passageiras de doença e morte. A omnipresença de tais ameaças em massa, e a incerteza e o medo que as acompanham, levam a novos comportamentos e crenças. As pessoas tornam-se tanto mais desconfiadas quanto mais crédulas. Acima de tudo, elas  tornam-se menos dispostas a envolverem-se  com qualquer coisa que pareça desconhecido  ou estranho.

Ninguém sabe quanto tempo a epidemia da COVID-19 vai durar. Se não se tornar menos contagiosa com a chegada da primavera ao hemisfério norte, populações nervosas em todo o mundo podem ter que esperar até que uma vacina seja desenvolvida e implantada. Outra variável importante é a eficácia das autoridades de saúde pública, que são significativamente menos competentes em muitos países do que na China.

Em qualquer caso, o encerramento de fábricas e as suspensões de produção já estão a perturbar  as cadeias de abastecimento globais. Os produtores estão a tomar medidas para reduzir a sua exposição a vulnerabilidades de longa distância. Até agora, pelo menos, os comentadores financeiros se concentraram nos cálculos de custos para setores específicos: empresas de montagem  preocupadas com a escassez de peças; fabricantes têxteis privados de tecidos; vendedores a retalho  de bens de luxo famintos de clientes; e o setor de turismo, onde os navios de cruzeiro, em particular, se tornaram focos de contágio.

Mas tem havido relativamente pouca reflexão sobre o que o novo clima de incerteza significa para a economia global de um modo mais geral. Ao pensar nas consequências a longo prazo da crise da COVID-19, indivíduos, empresas e talvez até mesmo governos tentarão proteger-se através de contratos contingentes complexos.

É fácil imaginar novos produtos financeiros a serem estruturados para pagar aos produtores de automóveis caso o vírus atinja um certo nível de letalidade. A procura por novos contratos pode até mesmo alimentar novas bolhas, à medida que as possibilidades de fazer dinheiro se multiplicam.

A história oferece precedentes intrigantes para o que pode vir a seguir. Considere a famosa crise financeira que se seguiu à “tulipamania” na Holanda entre 1635 e 1637. Este episódio é particularmente conhecido porque as suas lições foram popularizadas pelo jornalista escocês Charles Mackay no  seu livro de 1841, Memórias de Delírios Populares Extraordinários e a Loucura das MultidõesMemoirs of Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds.

Para Mackay, a crise da tulipa parecia prefigurar os surtos especulativos de capital nos caminhos-de-ferro e outros desenvolvimentos industriais na América do Norte e do Sul durante seu próprio tempo.

Ao longo do livro, ele espreme o episódio com todo o  seu humor, contando histórias de marinheiros ignorantes literalmente a engolirem uma fortuna ao confundirem bolbos de tulipas com cebolas.

Mas como nos lembra a historiadora cultural Anne Goldgar, Mackay esqueceu-se de mencionar que a mania coincidiu com a mortalidade excecionalmente elevada da peste, que foi espalhada pelos exércitos que combatiam na Guerra dos Trinta Anos. A peste atingiu a Holanda em 1635, e atingiu o seu auge na cidade de Haarlem entre agosto e novembro de 1636, que foi precisamente quando arrancou a mania da tulipa.

A corrida do capital especulativo aos bolbos de flores foi alimentada por uma onda de ganhos em dinheiro que se acumularam para os surpreendidos herdeiros das vítimas da peste. As tulipas serviram como uma espécie de mercado de futuros, pois os bolbos eram comercializados durante o inverno, quando ninguém podia examinar o caráter da flor. Elas também se tornaram objeto de contratos complexos, como o que estipulava um preço a ser pago se os filhos do proprietário ainda estivessem vivos na primavera (caso contrário, os bolbos seriam transferidos gratuitamente).

A especulação financeira neste ambiente selvagem e apocalíptico nasceu da incerteza. Mas tem sido muitas vezes reinterpretada como evidência de materialismo medroso, com as falências a representarem  uma acusação sobre  luxos sem eira nem beira, completamente  desenfreados  e sobre o que é exotismo estrangeiro. As tulipas, afinal, vieram originalmente da cultura alienígena da Turquia otomana.

Como hoje, as epidemias de peste do início da Europa moderna geraram vastas teorias conspiratórias. Quanto menos óbvia a origem da doença, mais provável era que ela fosse atribuída a alguma influência maligna. Circulam histórias sobre figuras sinistras de capuzes que vão de porta em porta “ungindo” superfícies com substâncias contagiosas. Os forasteiros – mercadores e soldados estrangeiros – assim como os pobres marginalizados foram apontados como os culpados.

Mais uma vez, uma fonte do século dezanove oferece lições poderosas para os dias de hoje. No romance de Alessandro Manzoni de 1827, Os Noivos (I Promessi Sposi), a trama atinge o seu ponto alto durante o surto de peste em Milão na década de 1630, que foi considerado um flagelo introduzido por estrangeiros, entre eles a monarquia estrangeira dos Habsburgos espanhóis que governou Milão. O romance tornou-se um potente catalisador do nacionalismo italiano durante o Risorgimento.

Não surpreendentemente, a epidemia da COVID-19 já está a entrar nas narrativas nacionalistas de hoje. Para alguns americanos, as origens chinesas da doença simplesmente reafirmarão a crença de que a China representa um perigo para o mundo e não se pode confiar que se comporte de forma responsável. Ao mesmo tempo, muitos chineses provavelmente verão algumas medidas dos EUA para combater o vírus como sendo motivadas racialmente e destinadas a bloquear a ascensão da China no plano internacional. Teorias de conspiração sobre a criação do vírus pela Agência Central de Inteligência dos EUA já estão  também a circular. Num mundo inundado de desinformação, a COVID-19 promete trazer ainda mais.

Como mostrou o historiador holandês Johan Huizinga, o período que se seguiu à Peste Negra na Europa acabou por ser o “ocaso da Idade Média”. Para ele, a verdadeira história não foram  apenas as sequelas económicas de uma pandemia, mas o misticismo, o irracionalismo e a xenofobia que acabaram por pôr um fim a uma cultura universalista. Da mesma forma, é inteiramente possível que a COVID-19 venha a precipitar o “declínio da globalização”.

Fonte A Harold James, PANDEMIC OF DEGLOBALIZATION / PROJECT SYNDICATE, publicado a  28 de Fevereiro. Texto disponível em:

https://www.project-syndicate.org/commentary/covid-19-deglobalization-pandemic-by-harold-james-2020-02

 

Harold James é Professor de História e Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton e membro sênior do Centro de Inovação em Governança Internacional. Especialista em história econômica alemã e em globalização, é coautor do novo livro O Euro e a Batalha das Ideias e autor de The Creation and Destruction of Value: The Globalization CycleKrupp: A History of the Legendary German Firm, and Making the European Monetary Union.

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