A GALIZA COMO TAREFA – totentanz – Ernesto V. Souza

Acontece, por vezes. O mundo derruba-se arredor, a morte reina e tudo traslouca na baila. Tal e como na história, nas gestas, nos romances e nos filmes de sci-fi ou de catástrofes. É cíclico, dizque. Sempre vai sucedendo ante os olhos. Passo a passo. Mas eclode de jeito inesperado. Nunca estamos preparados quando chega. Nem mesmo que tenhamos por motto em brasão ou num poster mindfulness, zen na parede da cozinha.

O pessoal no comando é incapaz de deduzir corretamente as advertências, sinais e indicadores de contexto. Nunca atende vozes agoireiras, confia em aduladores e conselhos mais otimistas, sopesando numa mão o bolso próprio, noutra as perdas em vidas humanas alheias, em que tudo passará ligeiro e sem consequência.

A prevenção é cara, as gentes críticas incomodam e a saúde pública, o investimento social e a educação nunca resultam baratas; mas mais custoso é, quando toca, o remédio e as soluções. Quem não atende e corre à pingueira lamenta e chora a casa inteira. Infelizmente, deixa-se à sorte, o que virá mau será; o ouro sempre pesa mais antes, e cega a razão o seu deslumbre.

Os poderosos, considerando-se infalíveis por terem alcançado dacavalo dos acasos os altos poleiros nos que assentam, nunca pensam que as ondas chegarão até a porta das suas casas. Em consequência contemplamos a dança da morte em plena espiral enlouquecida: ouvimos os prantos e as lamentações muito antes do pessoal compreendermos ou reagirmos.

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Trionfo e danza della morte (Giacomo Borlone de Buschis), fresco, Clusone, Oratorio dei Disciplini. (Fonte Wikipédia)

É curioso como o mundo que enxergamos hoje corre uma e outra na mesma trama. Trilhando caminho a Sísifo, récuas de líderes ineptos, figurões solenes ou esperpénticos, como adoito dirigindo; conduzidos por doutores indoutos, e assessorados em todos e cada um dos postos principais e secundários de mediocres e miseráveis. Gentes sem sentido, nem lógica, ou escrúpulos, sem capacidade crítica, com nenhuma empatia e com menos imaginação, cheios de soberba, sempre à moda, gerindo o desconcerto habitual do mundo para próprio benefício.

Agora, resulta interessante comprovarmos como os que não são quem de gerirem ou deixarem obra pública eficaz para gerações construída, nos tempos bons haviam fazer nas más. Contemplamos o K.O. ao vivo dos grandes dignitários do momento, dignos sucessores de largas gerações de imprudentes; verificamos o sorpasso pela realidade dos políticos e líderes de programa, aparato e marketing; e constatamos a fragilidade das grandes metrópoles e do modelo habitacional e de consumo promovido. O grande capitalismo em batamanta, atento os mass média por eles configurados bopassa na espera agitada de que os seus números e apostas caiam no bingo da grande bolsa. Os académicos, intelectuais e agentes comunicativos queimam tempo em roupa de treino fazendo de eco das consignas e palavras de ordem; aplaudindo a raivar como torcidas as fantasias ideológicas dos grupos que os seguem. E a gente, reaprendendo a fazer pão na casa, tele-interatuando e pensando já com medo quem vai pagar as faturas, atrapalhada numa festa amarga de pijamas.

Um presente “sobrevindo” de tragédias “inimagináveis”, um futuro de misérias “inevitáveis” e mudanças “obrigadas”, construido, tijolo a tijolo com a argamassa das inúmeras vozes críticas feitas cal e tanta champanha consumida por guieiros a la Churchill, sobre passados imediatos de imprevistos, de presentes a fantasiar com retórica das soluções improvisadas e de futuros a servir como propaganda as arroutadas como heroísmos.

Leio July 1914 de Emil Ludwig, numa bela edição inglesa (London, New York: G. P. Putnam’s Sons, 1929), ilustrada com fotografias dos principais protagonistas, qualidade de papel e elegante tipografia de entre guerras. “Um estúdio – como salienta mais ou menos a publicidade impressa que acompanha e anuncia também All quiet on the Western front de Remarke – da estupidez dos homens que eram todo-poderosos em 1914 e o instinto certo daqueles que naquele tempo estavam nas margens”.

july 1914 propaganda

A trepidante narrativa cronológica daqueles poucos dias, descreve as principais personagens, recria os feitos e os momentos decisivos justo antes, durante e depois do assassinato em Sarajevo que arrastará, contra o protesto dos povos e das massas, numa borracheira de diplomacia, maus entendidos, alianças, cheques em branco, orgulho aristocrático desfasado, propaganda patriótica, colaboração de intelectuais e da imprensa à serviço de umas classes dirigentes apenas atentas a conservação dos seus privilégios e carreiras individuais, desprezo absoluto pelas massas, liderados pessoais, obcecação no presente, grandes negócios de uns poucos, velhas tensões territoriais e revanches seculares, Ocidente num massacre de dimensões devastadoras e de consequências globais.

Enfim, quem contava…

 

1 Comment

  1. Caro Ernesto, este artigo pertence a corrente do “pontilhismo literário”, de leitura bem gostosa como todos os teus textos.
    O interessante de onde estamos é que temos uma dirigência bem selecionada por um princípio darwiniano. Na biologia tem sucesso os que melhor se adaptam ao meio e o melhoram. Nas sociedades humanas tem sucesso os que estragam mais recursos. Na biologia a seleção das espécies prima as mais eficazes para o comportamento que citava antes. Nos humanos e no estado espanhol os mais idiotas trumfam por isso temos um Sanches que é mais falso que um bilhete de 25 euros, uma oposição e governo de analfabetos e tramposeiros dos diplomas. E na Galiza….elites analfabetas, é o darwinismo num espaço em que funcionam as leis da biologia ao contrário.

    Ánimo imos ver que mundo nasce…
    Eu há tempo que afirmo que o capitalismo acabou e que imos para o neofeudalismo…mas a vida segue e paga a pena.
    Com isto do coronavirus vou ter um neto/a, quando pensava que nunca aconteceria.

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