CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXVII – CONDICIONAMENTO SOCIAL, por MICHAEL ROBERTS

 

Lockdown!, por Michael Roberts

Michael Roberts blog, 24 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

De acordo com estimativas da AFP, cerca de 1,7 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem agora sob alguma forma de  isolamento  como resultado do coronavírus. Isso é quase um quarto da população mundial.  A economia mundial nunca  viu nada  de parecido com isto.

Quase todas as previsões económicas para o PIB global em 2020 apontam  para uma contração de 1-3%, tão ruim se não pior do que na Grande Recessão de 2008-9.  E as previsões para as principais economias para este trimestre que termina esta semana e para o próximo trimestre estão a chegar  com uma queda anualizada de qualquer coisa entre 20-50%! Os indicadores de atividade económica (chamados PMIs), que são inquéritos de  de opinião das empresas sobre o que elas estão  a fazer, estão a registar  mínimos históricos de contração para março.

US composite PMI to March 2020

 

Tudo isto se deve ao encerramento de empresas a nível global e ao isolamento dos trabalhadores nas suas casas. Será que estes isolamentos sociais poderiam ser ter sido evitados para que este drástico “choque de oferta ” não fosse necessário para lidar com a pandemia?  Eu acho que provavelmente poderia.  Se os governos tivessem agido imediatamente com as medidas certas quando a COVID-19 apareceu pela primeira vez, os estes  isolamentos sociais  poderiam ter sido evitados.

Quais foram estas medidas certas?  O que sabemos agora é que todas as pessoas com mais de 70 anos de idade e/ou com condições médicas deveriam ter entrado no auto-isolamento.  Deveria ter havido testes em massa de todas as pessoas regularmente e qualquer pessoa infetada deveria ter ficado em quarentena por  um período de duas semanas.  Se isto tivesse sido feito desde o início, então teria havido menos mortes, hospitalizações e uma morte mais rápida do vírus.  Por isso, os bloqueios poderiam provavelmente ter sido evitados.

Mas testes e isolamento não foram feitos desde o início na China.  No início houve negação e encobrimento do risco do vírus.  Quando as autoridades chinesas agiram corretamente com os testes e o isolamento, Wuhan foi sujeita a forte controlo sanitário e o isolamento foi instalado.

Pelo menos os chineses tinham a desculpa de que este era um novo vírus desconhecido para os humanos e que o seu nível de infeção, propagação e mortalidade não era conhecido antes. Mas não há desculpa para os governos nas principais economias capitalistas. Eles tiveram tempo para se preparar e agir.  A Itália deixou isso para mais tarde e passou a aplicar os testes e o isolamento demasiado tarde de modo que passaram a aplicar o isolamento  quando o vírus já estava bem instalado.  O sistema de saúde deles agora está sobrecarregado e dificilmente pode lidar com isso.

Alguns países adotaram testes em massa e um isolamento eficaz.  A Coreia do Sul fez ambos; e o Japão, onde 90% da população usava máscaras e luvas e se lavava frequentemente, parece ter refreado o impacto da pandemia através de um auto-isolamento eficaz sem ter de impor um condicionamento.

Da mesma forma, numa pequena aldeia italiana a viver em  pandemia, Vo Euganeo, que na verdade teve a primeira morte do vírus na Itália, eles testaram todos os 3000 residentes e colocaram em quarentena os 3% afetados, mesmo que a maioria não tivesse sintomas.  Através do isolamento e da quarentena, o isolamento teve aí  apenas  a duração de duas semanas[1].

No outro extremo, o Reino Unido e os EUA demoraram muito tempo para acelerar os testes (que ainda são inadequados) e a colocar os vulneráveis em autoisolamento.  Nos EUA, o governo federal ainda não está a optar pelo condicionamento social em todo o país.

 

Porque é que os governos do G7 e outros falharam em agir?  Como Mike Davis explica, a primeira e principal razão era que os sistemas de saúde das grandes economias não estavam em posição de agir.  Nos últimos 30 anos, os sistemas de saúde pública na Europa foram dizimados e privatizados. Nos EUA, o sector privado dominante cortou os serviços para aumentar os lucros.  De acordo com a Associação Hospitalar Americana, o número de camas hospitalares internadas diminuiu extraordinariamente 39% entre 1981 e 1999. O objetivo era aumentar os lucros através do aumento do “censo” (o número de camas ocupadas). Mas a meta da gestão  de 90% de ocupação significava que os hospitais não tinham mais capacidade de absorver o fluxo de pacientes durante epidemias e emergências médicas.

Como resultado, há apenas 45.000 leitos de unidades de cuidados intensivos UTI disponíveis para lidar com a  vaga projetada de casos graves e críticos de coronavirus. (Em comparação, os sul-coreanos têm mais de três vezes mais leitos disponíveis por mil pessoas do que os americanos). Segundo uma investigação do USA Today “apenas oito estados teriam camas hospitalares suficientes para tratar o 1 milhão de americanos com mais de 60 anos que poderiam ficar doentes com a COVID-19”.

Os departamentos de saúde locais e estaduais têm hoje 25% menos pessoal do que tinham antes de Segunda-feira negra  de há 12 anos atrás. Além disso, na última década, o orçamento do CDC ( Center for Disease Control and Prevention ) diminuiu  10% em termos reais. Sob Trump, as carências fiscais só foram exacerbadas. O New York Times informou recentemente que “21% dos departamentos locais de saúde relataram reduções nos orçamentos para o ano fiscal de 2017”. Trump também fechou o gabinete da Casa Branca contra a pandemia, uma direção criada por Obama após o surto de Ébola de 2014 para assegurar uma resposta nacional rápida e bem coordenada às novas epidemias.

A indústria de lares de idosos com fins lucrativos, que cuida (armazena)  1,5 milhões de idosos americanos, é altamente competitiva e baseia-se em baixos salários, falta de pessoal e cortes ilegais de custos. Dezenas de milhares morrem todos os anos devido à negligência das instituições de cuidados de longo prazo em relação aos procedimentos básicos de controle de infeções e ao fracasso dos governos em responsabilizar a gerência pelo que só pode ser descrito como homicídio involuntário deliberado. Muitas destas casas acham mais barato pagar multas por violações sanitárias do que contratar pessoal adicional e dar-lhes formação adequada.

O Life Care Center, um lar de idosos no subúrbio de Seattle, em Kirkland, é “um dos piores do estado” e todo o sistema de lares de idosos do estado de Washington “o mais subfinanciado do país – um oásis absurdo de sofrimento austero num mar de dinheiro da tecnologia“. (sindicato dos trabalhadores).  As autoridades de saúde pública ignoraram o fator crucial que explica a rápida transmissão da doença do Life Care Center para outros nove lares próximos: “Trabalhadores de lares de idosos no mercado de prestação de cuidados mais caro da América trabalham universalmente em vários empregos, normalmente em vários lares de idosos.” As autoridades não conseguiram descobrir os nomes e a localização desses segundos empregos e, assim, perderam todo o controle sobre a disseminação da COVID-19.

Depois há a grande indústria farmacêutica, dita Big Pharma.  A BIG Pharma  faz pouca pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos e antivirais. Das 18 maiores empresas farmacêuticas dos EUA, 15 abandonaram totalmente o campo. Medicamentos para o coração, tranquilizantes viciantes e tratamentos para a impotência masculina são líderes de lucros, não as defesas contra infeções hospitalares, doenças emergentes e para as doenças infeciosas tropicais, tradicionais assassinos tropicais. Uma vacina universal contra a gripe – isto é, uma vacina que visa as partes imutáveis das proteínas de superfície do vírus – tem sido uma possibilidade durante décadas, mas nunca considerada lucrativa o suficiente para ser uma prioridade.

Pessoalmente, tenho argumentado  em textos  anteriores [2]que a COVID-19 não era uma doença surgida repentinamente e do nada.  Tais pandemias foram previstas com bastante antecedência pelos epidemiologistas, mas nada foi feito porque isso custa dinheiro.  Agora vai custar muito mais.

A queda global está aqui.  Mas por quanto tempo e quão profunda vai ser?  A maioria das previsões fala de uma queda curta e acentuada, seguida de uma rápida recuperação.  Isso vai acontecer?  Depende da rapidez com que a pandemia possa ser controlada e desaparecer – pelo menos para este ano.  A 8 de Abril, o encerramento em Wuhan será levantado, uma vez que não há novos casos.  Assim, a partir do surgimento do vírus que aí apareceu  em Janeiro, serão cerca de três meses, com um encerramento de mais de dois meses.  Também parece que o pico da pandemia pode ter sido atingido na Itália, que está em total isolamento há apenas duas semanas.  Assim, talvez dentro de mais um mês ou dois, a Itália seja libertada.  Mas outros países como o Reino Unido estão apenas a entrar numa fase de confinamento, com outros ainda a enfrentar um crescimento exponencial em casos que podem exigir confinamentos.

Portanto, parece que o fim do choque da oferta  global é improvável antes de junho, provavelmente muito mais tarde.  É claro que o colapso da produção pode ser revertido mais cedo se os governos decidirem não terem confinamentos ou acabar com eles mais cedo.  A administração Trump já está a sugerir   o levantamento de qualquer bloqueio nos próximos 15 dias “para pôr a economia a funcionar” (à custa de mais mortes, etc.); mas muitos governadores de estado podem não concordar com isso.

Mesmo que as economias se recuperem no segundo semestre de 2020 com o fim dos condicionamentos sociais, ainda haverá uma queda global.  E é uma esperança vã de que a recuperação seja rápida e firme  no segundo semestre deste ano.  Há duas razões para duvidar disso. Primeiro, a economia global já estava a entrar em recessão antes do impacto da pandemia.  O Japão estava em recessão; a zona euro estava perto disso e até mesmo o crescimento dos EUA havia desacelerado para menos de 2% ao ano.

E muitas grandes economias ditas emergentes como o México, Argentina e África do Sul já se estavam a contrair. Na verdade, o capital estava a deslocar-se  do sul global para o norte, um processo que agora se acelerou com a pandemia para níveis recordes.  Com o colapso dos preços da energia e dos metais industriais, muitas economias emergentes baseadas em commodities (Brasil, Rússia, Arábia Saudita, Indonésia, Equador, etc.) enfrentam uma enorme queda nas receitas de exportação.  E desta vez, ao contrário de 2008, a China não voltará rapidamente aos seus antigos níveis de investimento, produção e comércio (especialmente porque as tarifas da guerra comercial com os EUA continuam em vigor).  Durante todo o ano, o crescimento real do PIB da China poderá ser de 2%, em comparação com mais de 6% no ano passado.

Em segundo lugar, os mercados de ações estão a recuperar devido às recentes injeções de crédito do Fed e às enormes medidas orçamentais  esperadas pelo Congresso dos EUA.  Mas esta queda não será evitada pela grandeza do banco central ou pelos pacotes orçamentais  que estão a ser  planeados. Uma vez que uma queda se inicia, os rendimentos caem e o desemprego aumenta rapidamente. Isso tem um efeito cascata ou multiplicador através da economia, particularmente para as empresas não financeiras do setor capitalista.  Isto levará a uma sequência de falências e encerramentos.

E os balanços das empresas são perigosamente frágeis. Em todas as grandes economias, as preocupações têm vindo a aumentar com o aumento da dívida empresarial. Nos Estados Unidos, num contexto de acesso a dinheiro barato durante décadas, as empresas não financeiras viram os seus encargos de dívida passarem a mais do dobro, de 3,2 milhões de milhões de dólares em 2007 para 6,6 mil milhões de dólares em 2019.

Um artigo recente de Joseph Baines e Sandy Brian Hager revela tudo.   Durante décadas, o setor capitalista passou de  investir em ativos produtivos para passar a investir  em ativos financeiros – ou “capital fictício”, como Marx o chamou. A recompra de ações e o pagamento de dividendos aos acionistas tem estado na ordem do dia, em vez de reinvestir lucros em novas tecnologias para aumentar a produtividade do trabalho. Isto aplica-se particularmente às grandes empresas americanas.

Como um espelho, as grandes empresas reduziram as despesas de capital como partilha  das receitas desde os anos 80.  Curiosamente, as empresas mais pequenas dedicaram-se menos à “engenharia financeira” e continuaram a aumentar os seus investimentos.  Mas lembremo-nos  de que a maior parte do investimento vem das grandes empresas.

A vasta faixa de pequenas empresas americanas está em apuros.  Para elas, as margens de lucro têm vindo a cair.  Como resultado, a rentabilidade global do capital dos EUA tem caído, particularmente desde o final dos anos 90.  Baines e Hager argumentam que “a dinâmica do capitalismo acionista empurrou as empresas dos escalões inferiores da hierarquia empresarial norte-americana para um estado de aflição financeira”.  Como resultado, a dívida empresarial  aumentou, não só em termos absolutos, mas também em relação às receitas, especialmente para as empresas de menor porte.

Tudo foi mantido unido porque os juros da dívida corporativa caíram significativamente, mantendo-se, por isso mesmo,  os custos do serviço da dívida baixos.  Mesmo assim, as empresas menores estão a pagar   juros a um nível muito mais alto do que as grandes empresas. Desde os anos 90, os custos do serviço da dívida têm sido mais ou menos estáveis, mas são quase duas vezes mais elevados do que o custo do grupo das 10% das   empresas americanas mais importantes.

Mas os dias de crédito barato podem ter acabado, apesar da tentativa desesperada do Fed de manter baixos os custos dos empréstimos.  Os rendimentos da dívida empresarial  dispararam durante esta crise pandémica.  Uma onda de incumprimentos da dívida está agora na agenda.  Isso poderia “enviar ondas de choque através dos mercados financeiros já agitados, fornecendo um catalisador para um caos financeiro muito mais amplo”.

Mesmo que os condicionamentos sociais durem apenas alguns meses até ao verão, durante esse  período de contração poderemos ver centenas de pequenas empresas afundarem-se  e até mesmo alguns peixes grandes também.  A ideia de que as grandes economias podem ter uma recuperação em forma de V parece muito menos provável do que uma em forma de L.

24 de Mar;o de 2020

Michael Roberts, Lockdown!. Texto disponível em: https://thenextrecession.wordpress.com/

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[1] Nota de tradutor. Veja-se: https://www.livescience.com/small-italian-town-cuts-coronavirus-cases-testing.html
[2] O texto subjacente, Foi o vírus que fez  isto, foi anteriormente publicado nesta série de textos dedicada ao Covid 19. Clique em;

A CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XVII – FOI O VÍRUS QUE FEZ ISTO, por MICHAEL ROBERTS

 

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