CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XLVIII – VIDAS OU MEIOS DE SUBSISTÊNCIA? – por MICHAEL ROBERTS

Lives or livelihoods?, por Michael Roberts

Michael Roberts blog, 6 de Abril de 2020

Selecção, tradução e aditamentos por Júlio Marques Mota

Revisão por João Machado

 

Há agora dois mil milhões de pessoas em todo o mundo que vivem sob alguma forma de condicionamento ou bloqueio em consequência da pandemia do coronavírus. Isso corresponde a um quarto da população mundial. A economia mundial nunca viu nada como isto. Quase todas as previsões económicas para o PIB mundial em 2020 apontam para uma contracção de 3-5%, tão má ou pior do que na Grande Recessão de 2008-9.

De acordo com a OCDE, a produção na maioria das economias cairá em média 25% (OCDE), enquanto os condicionamentos  durarem e estes afetarão diretamente sectores que atingem até um terço do PIB nas grandes economias. Por cada mês de contenção, haverá uma perda de 2 pontos percentuais no crescimento anual do PIB.

Esta é uma forma monstruosa de provar o valor da teoria do trabalho de Marx, nomeadamente que “qualquer criança sabe que  uma nação que deixe de trabalhar, não direi durante um ano, mas mesmo apenas durante algumas semanas, perecerá”.  (Marx para Kugelmann, Londres, 11 de Julho de 1868).

O condicionamento  em várias economias importantes está a ter um efeito drástico na produção, no investimento e, sobretudo, no emprego. Os últimos números relativos ao emprego em Março fora dos EUA foram verdadeiramente espantosos, com uma perda mensal de 700.000 postos de trabalho e um salto no desemprego para 4,4%.

Em apenas duas semanas, aproximadamente 10 milhões de americanos requereram o subsidio de desemprego.

Todos estes dados ultrapassam tudo o que foi visto quando da grande recessão de 2008-9 e mesmo na grande depressão dos anos de 1930.

Evidentemente, a esperança é que esta catástrofe seja de curta duração, porque o condicionamento será retirado  dentro de cerca de um mês em Itália, Espanha, Reino Unido, EUA e Alemanha.  Afinal de contas, o encerramento de Wuhan termina esta semana após 50 dias e a China está a regressar gradualmente ao trabalho – ainda que apenas gradualmente.  Noutros países (Espanha e Itália), há sinais de que a pandemia atingiu o seu auge e o condicionamento está aí a funcionar. Noutros (Reino Unido e EUA), o pico ainda está para vir.

Assim, uma vez terminado o condicionamento, as economias podem rapidamente voltar à normalidade. Essa é a afirmação do Secretário do Tesouro dos EUA, Mnuchin: “Esta é uma questão de curto prazo. Pode demorar alguns meses, mas vamos ultrapassar isto, e a economia será mais forte do que nunca”.  O guru keynesiano Larry Summers fez-se eco desta opinião: “Tenho o palpite otimista – mas é apenas um palpite otimista – que a recuperação pode ser mais rápida do que muitas pessoas esperam porque tem o carácter da recuperação da depressão total que atinge uma economia como a de Cape Cod todos os Invernos ou a recuperação do PIB americano que tem lugar todas as segundas-feiras de manhã.”

Durante o período de condicionamento, vários governos anunciaram a atribuição de subsídios em dinheiro e aumentaram os subsídios de desemprego para os que foram despedidos ou “suspensos” até ao restabelecimento das empresas.  E as pequenas empresas estão supostamente a receber um apoio nas taxas e empréstimos baratos para  contornar a situação.  Isso deveria assegurar a subsistência das pessoas durante o período do seu condicionamento.

Um problema com este ponto de vista é que,  como o têm mostrado os  cortes nos serviços públicos ao longo da última década, não há pessoal suficiente para processar os pedidos e a transferência dos dinheiros.   Nos EUA, calcula-se que muitos não receberão quaisquer cheques até Junho, altura em que os condicionamento poderão  já ter terminado!  Além disso, é evidente que muitas pessoas e pequenas empresas não preenchem as condições requeridas para beneficiar destes  apoios por  diversas  razões e ficarão de fora desta linha de segurança

Por exemplo, 58% dos trabalhadores americanos dizem que não poderão pagar a renda de casa, comprar mantimentos ou tratar das contas se ficarem em quarentena durante 30 dias ou menos, de acordo com um novo inquérito da Society for Human Research Management (SHRM).  Um em cada cinco trabalhadores disse que não seria capaz de satisfazer essas necessidades financeiras básicas em menos de uma semana sob quarentena. Metade das pequenas empresas dos EUA não tem meios para pagar aos trabalhadores um mês inteiro em condições de quarentena. Mais de metade das pequenas empresas espera ver uma perda de receitas entre 10 a 30%.

Na verdade, muitas pessoas estão a ser obrigadas a trabalhar, colocando a sua saúde em risco porque não podem trabalhar em casa como os trabalhadores mais bem pagos, baseados em escritórios.

Muitas pequenas empresas de viagens, comércio a retalho e serviços nunca mais voltarão a abrir depois de acabado o período de condicionamento. Mesmo as grandes empresas do sector retalhista, das viagens e da energia podem muito bem falir, causando um efeito de cascata em sectores da economia. Por exemplo, a Reserva Federal dos EUA exige que os bancos realizem testes de esforço que pressupõem certos cenários negativos para garantir que os bancos podem resistir a uma recessão do mercado. No pior dos cenários, o PIB cairá 9,9% no segundo trimestre de 2020, com o desemprego a saltar para 10% no terceiro trimestre de 2021. Com base em estimativas recentes da Goldman Sachs, o PIB cairá provavelmente mais de 30% e o desemprego poderá acabar a um nível semelhante… dentro de semanas.

Também há enormes montantes de dívida empresarial emitidos por empresas bastante arriscadas que de qualquer forma não estavam a obter grandes receitas e lucros antes da pandemia.  E, como já o escrevi em textos  anteriores, [1] mesmo antes de o vírus atingir a economia mundial, muitos países estavam a entrar em recessão.  O México, a África do Sul e a Argentina entre as nações do G20 e o Japão no G7 já se encontravam em recessão.  A zona euro e o Reino Unido estavam próximos e mesmo o com melhor desempenho, os EUA, estava a abrandar rapidamente. Agora toda essa dívida empresarial que se acumulou nos anos desde o fim da Grande Recessão podia vir a cair em incumprimentos.

Este é especialmente o caso das economias empobrecidas do “Sul Global“, que têm registado uma saída de capital sem precedentes de 90 mil milhões de dólares à medida que os investidores estrangeiros abandonam o navio a  afundar-se.   E há pouca ou nenhuma rede de segurança oferecida por instituições como o FMI ou o Banco Mundial. As coisas só vão piorar no próximo trimestre e a retoma económica  poderá  estar mesmo muito longe da opinião  expressa pelos  otimistas no segundo semestre de 2020.

É evidente que estes condicionamentos  não podem durar para sempre, caso contrário, milhares de milhões de pessoas ficarão desamparadas e os governos gastarão cada vez mais, financiados por cada vez mais dívidas e/ou pela impressão de dinheiro para fazer entregas em dinheiro e comprar ainda mais dívidas.  Não se pode continuar a fazer isso se não houver produção ou investimento.  Os empregos vão desaparecer para sempre e a inflação acabará por disparar.  Vamos entrar num mundo de depressão permanente a par da hiperinflação.

Parece que vários países europeus, encorajados pelo pico dos casos, se preparam para acabar com os seus  respetivos condicionamentos até ao final deste mês.  Mas mesmo que o façam, um regresso ao “normal” levará meses, pois dependerá dos testes de massa para avaliar se o vírus voltará como certamente voltará e se poderá ser contido enquanto se restabelece gradualmente a produção.  Portanto, qualquer recuperação global não vai ser de modo nenhum rápida.  Um estudo do Ifo alemão previu que a economia alemã poderia diminuir até 20% este ano se o encerramento durasse três meses e fosse seguido apenas por uma recuperação gradual.

E as últimas previsões da Goldman Sachs para os EUA mostram que a recessão americana está a ser atingida no segundo trimestre de 2020, com o PIB provavelmente 11-12 por cento abaixo da leitura do pré-vírus. Isto implicaria um declínio dramático a uma taxa anualizada de 34 por cento nesse trimestre.  O PIB deverá então aumentar muito gradualmente, não atingindo a sua trajectória de pré-vírus antes do final de 2021. Este padrão, que implica quase dois anos “desperdiçados” nos EUA, tem sido comum nas previsões económicas recentes. Espera-se um quadro semelhante na zona euro, que está a sofrer um colapso da produção industrial mais acentuado do que na crise do euro de 2012.

Mas o plano gradual é a única opção “ótima”, diz um grupo de economistas: “O importante é que o nível do condicionamento, a sua duração e os custos económicos e sanitários subjacentes dependem de forma crítica das medidas que melhoram a capacidade do sistema de saúde para fazer face à epidemia (testar, isolar os vulneráveis, etc.) e a capacidade do sistema económico para navegar num período de suspensão das atividades económicas sem comprometer a sua estrutura”.

Poderiam ter sido evitados os condicionamentos?  As provas são cada vez mais claras de que poderiam ter sido.  Quando a COVID-19 apareceu  em cena, os governos e os sistemas de saúde deveriam ter.se preparado.  É como se  não tivessem sido avisados por epidemiologistas durante anos.  Como já disse, a COVID-19 não era uma “incógnita desconhecida”.  No início de 2018, durante uma reunião na Organização Mundial de Saúde em Genebra, um grupo de peritos (o projeto de I&D) cunhou o termo “Doença X“: Previam que a próxima pandemia seria causada por um novo agente patogénico desconhecido que ainda não tinha entrado na população humana. A doença X resultaria provavelmente de um vírus originário de animais e surgiria algures no planeta, onde o desenvolvimento económico une as pessoas e a vida selvagem.

Mais recentemente, em Setembro último, a ONU publicou um relatório[2] que alerta para a existência de uma “ameaça muito real” de uma pandemia que varrerá o planeta, matando até 80 milhões de pessoas. Um agente patogénico mortal, propagado pelo ar em todo o mundo, segundo o relatório, poderá aniquilar quase 5% da economia mundial.  “A preparação é dificultada pela falta de vontade política contínua a todos os níveis”, lê-se no relatório. “Embora os líderes nacionais respondam às crises sanitárias quando o medo e o pânico se tornam suficientemente fortes, a maioria dos países não consagra a energia e os recursos consistentes necessários para evitar que os surtos se transformem em catástrofes”.  O relatório delineou um relatório historial de ignorância deliberada das advertências feitas pelos cientistas nos últimos 30 anos.

Legenda: Um soldado chinês das Nações Unidas prepara um camião cheio de ajuda humanitária para apoio na crise de Ebola após ter sido transportado por via aérea pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em 23 de Agosto de 2014, em Harbel, na Libéria. IMAGENS DE JOHN MOORE/GETTY IMAGES

Os governos ignoraram as advertências porque consideraram que o risco não era grande e, por conseguinte, não valia a pena gastar na prevenção e contenção de pandemias.  Com efeito, reduziram as despesas com a investigação e a contenção de pandemias.  Isto faz-me lembrar a decisão do aeroporto de Heathrow, no Reino Unido, de comprar apenas dois limpa-neves porque quase nunca nevou ou gelou em Londres, pelo que a despesa não era justificável.  O aeroporto foi gravemente apanhado num dia de Inverno e tudo parou.

Como poderiam ter sido evitados os condicionamentos? Teria sido possível, se o governo tivesse podido testar toda a gente para detetar o vírus, fornecer equipamento de proteção e enormes exércitos de profissionais de saúde para testar e contrair vestígios e depois colocar em quarentena e isolar os infetados.  Os idosos e os doentes deveriam ter sido protegidos em casa e apoiados pela assistência social. Teria então sido possível a todos os outros irem trabalhar, tal como os trabalhadores essenciais têm de o fazer agora.  Pequenos países como a Islândia (e Taiwan, Coreia do Sul), com sistemas de saúde de alta qualidade, conseguiram fazê-lo.  A maioria dos países com sistemas de saúde privatizados ou dizimados não o fizeram.  Por isso, os condicionamentos têm sido a única opção para salvar vidas.

A política dos condicionamentos é apenas parcialmente para salvar vidas; é também para tentar evitar que os sistemas de saúde dos países sejam sobrecarregados com casos, deixando aos médicos a escolha da Hobson de escolher quem vai morrer ou vai receber ajuda. O objetivo é “aplanar a curva” do aumento dos casos de vírus e das mortes, para que o sistema de saúde possa fazer face à situação.  O problema é que, ao nivelar a curva na pandemia através de condicionamentos, aumenta a curva descendente no emprego e nos rendimentos de centenas de milhões de pessoas.

E, no entanto, se deixassem a pandemia prosseguir o seu rumo, portanto sem nenhum condicionamento, , estudos históricos mostram que acabaria por destruir também uma economia.  Um recente documento da Reserva Federal, analisando o impacto da epidemia de gripe espanhola nos EUA, concluiu que a pandemia então descontrolada reduziu a produção industrial em 18%. Por conseguinte, os condicionamentos podem acabar por ser menos prejudiciais.  Parece que não se pode ficar a ganhar em  qualquer das formas.

Gráficos relativos à gripe espanhola nos USA

Viver ou subsistir?  Alguns especialistas “neoliberais” de direita consideram que a economia capitalista é mais importante do que as vidas.  Afinal de contas, as pessoas que morrem são, na sua maioria, os idosos e os doentes.  Não contribuem muito para a produção capitalista; na verdade, são um fardo para a produtividade e para os impostos.  No verdadeiro espírito malthusiano, nas suites executivas das instituições financeiras, prevalece a opinião de que os governos devem deixar o vírus atuar  e, desde que todos os jovens e saudáveis fiquem imunes, o problema será resolvido.

Este ponto de vista está também relacionado com alguns estudos de peritos em saúde que salientam que todos os dias os médicos hospitalares devem tomar decisões sobre o que é mais “rentável” do ponto de vista dos resultados em termos de saúde.  Devem salvar uma pessoa muito idosa com o COVID-19 se isso significar que o tratamento do cancro de uma pessoa mais jovem é atrasado porque as camas e o pessoal foram transferidos para a pandemia?

Aqui está essa opinião: “se os fundos não forem ilimitados – então devemos concentrar-nos  em fazer coisas que nos permitam  fazer o melhor possível  (salvar o maior número de vidas) com a  menor quantidade possível de dinheiro. Ou alternativamente usar o dinheiro que temos, para salvar o maior número de vidas”. A economia da saúde mede o custo por QALY. Um QALY é um ano de vida ajustado à qualidade. Um ano adicional de vida com a mais elevada qualidade seria um QALY.  “Quanto é que estamos dispostos a pagar por um QALY? A resposta atual, no Reino Unido, é que o SNS recomendará o financiamento de intervenções médicas se estas custarem menos de £30,000/QALY. Qualquer coisa mais do que isto é considerada demasiado cara e, no entanto, o pacote do vírus do Reino Unido é de 350 mil milhões de libras, quase três vezes o orçamento anual atual para todo o SNS. Vale a pena pagar este preço?”.  Este perito considerou que “o custo de salvar uma vítima da COVID foi mais de onze vezes o custo máximo que o SNS aprovará”. Ao mesmo tempo, os doentes com cancro não estão a ser tratados, as próteses da anca estão a ser adiadas, os doentes cardíacos e os diabéticos não estão a ser tratados.

Tim Harford, no FT, tem uma opinião diferente.  Ele salienta que a Agência de Protecção Ambiental dos EUA avalia a vida estatística em 10 milhões de dólares em dinheiro atual, ou seja, 10 dólares por micromorte (um em cada milhão de risco de morte) evitado.  “Se presumirmos que 1% das infeções são fatais, então trata-se de uma condição de 10.000 micromortes. Nessa medida, estar infetado é 100 vezes mais perigoso do que dar à luz, ou tão perigoso como viajar duas vezes e meia pelo mundo numa motocicleta”. Para uma pessoa idosa ou vulnerável, é muito mais arriscado do que isso. Nos 10 dólares por micromorte, valeria a pena gastar 100 000 dólares para evitar uma única infeção com o Covid-19.  Não é necessário um modelo epidemiológico complexo para prever que, se não tomarmos medidas sérias para travar a propagação do vírus, é provável que mais de metade do mundo o contraia. Isso sugere 2 milhões de mortes nos EUA e 500 000 na Grã-Bretanha – assumindo, mais uma vez, uma taxa de mortalidade de 1 por cento.  Se um condicionamento  económico nos EUA salvar a maior parte destas vidas, e custar menos de 20 milhões de milhões,  então parece ser uma boa relação custo-benefício“.  Para mim, o ponto-chave é que este dilema de “custar” uma vida seria reduzido se houvesse um financiamento adequado dos sistemas de saúde, suficiente para proporcionar “capacidade de reserva” em caso de crise.

Há o argumento de que os condicionamentos  e todas estas despesas com a saúde se baseiam num pânico desnecessário que tornará a cura pior do que a doença.  Como vêem, diz o argumento, a COVID-19 não é pior do que uma má gripe na sua taxa de mortalidade e terá muito menos impacto do que muitas outras doenças como a malária, o VIH ou o cancro, que matarão mais a cada ano.  Portanto, parem com os  condicionamentos loucos, protejam os velhos, lavem as mãos e em breve veremos que a COVID não é um Armagedão.

O problema deste argumento é que as provas são contra a ideia de que a COVID não é pior do que a gripe anual.  É verdade que, até agora, as mortes só atingiram 70 000 em abril, cerca de 40 000 a menos do que a gripe este ano e apenas um quarto das mortes por malária.  Mas o vírus ainda não acabou.  Até agora, todas as provas sugerem que a taxa de mortalidade é pelo menos 1%, dez vezes mais mortal do que a gripe anual; e é muito mais infecciosa. Assim, se a COVID-19 não fosse contida, acabaria por afetar até 70% da população, antes que a “imunidade  efetiva do grupo” fosse suficiente para permitir o declínio do vírus.  São pelo menos  50 milhões de mortes!  As taxas anuais de mortalidade seriam duplicadas na maioria dos países (ver gráfico).

Além disso, trata-se de um vírus novo e diferente dos vírus da gripe, não existindo ainda uma vacina.  É muito provável que regresse e mude, pelo que requer ainda mais contenção.

Alguns governos estão a arriscar a vida das pessoas, tentando evitar condicionamentos totais ou mesmo parciais para preservar o emprego e a economia.  Infelizmente para eles, mesmo que isso funcione, os condicionamentos noutros países destruíram de tal modo o comércio e o investimento a nível global que até  mesmo esses países não conseguem evitar uma quebra com cadeias de abastecimento globais paralisadas.

Há outro argumento contra os condicionamentos  e o salvamento de vidas.  Um estudo de alguns “peritos em segurança” da Universidade de Bristol considerou que uma política de “continuar como se nada fosse” levaria ao fim da epidemia até Setembro de 2020, embora tal abordagem levasse a uma perda de vidas no Reino Unido quase tão grande como a que sofreu na Segunda Guerra Mundial. Mas, inversamente, os condicionamentos  poderiam diminuir o PIB per capita de tal forma que a população nacional perderia mais vidas em resultado das contramedidas do que as que poupa.

Mas o estudo de Bristol é apenas uma avaliação de risco.  Estudos de saúde adequados mostram que as recessões não aumentam em nada a mortalidade. Uma recessão – uma queda temporária e de curto prazo do PIB – não precisa, e de facto normalmente não reduz, a esperança de vida. Na verdade, contra-intuitivamente, o peso das provas é que as recessões levam, de facto, a que as pessoas vivam mais tempo. Os suicídios aumentam de facto, mas outras causas de morte, como os acidentes rodoviários e as doenças relacionadas com o álcool, diminuem.

O economista marxista em  saúde Dr. José Tapia (também autor de um dos capítulos do nosso livro (World in Crisis) fez vários estudos sobre o impacto das recessões na saúde.  Ele verificou  que as taxas de mortalidade nos países industriais tendem a aumentar nas expansões económicas e a diminuir nas recessões económicas. As mortes atribuídas a doenças cardíacas, pneumonia, acidentes, doenças hepáticas e senilidade, que representam cerca de 41% da mortalidade total, tendem a flutuar de forma pró-cíclica, aumentando nas expansões. Os suicídios, bem como as mortes atribuíveis à diabetes e às doenças hipertensivas, representam cerca de 4% da mortalidade total e flutuam de forma contracíclica, aumentando em recessões. As mortes atribuídas a outras causas, que representam cerca de metade das mortes totais, não mostram uma relação claramente definida com as flutuações da economia.  “Todos estes efeitos das expansões ou recessões económicas sobre a mortalidade que puderam ser observados, por exemplo, durante a Grande Depressão ou a Grande Recessão, são minúsculos se comparados com os efeitos da mortalidade de uma pandemia”, disse Tapia numa entrevista.

Em suma, os condicionamentos  poderiam ter sido evitados se os governos tivessem tomado consciência do risco crescente de novas pandemias de agentes patogénicos.  Mas eles ignoraram esses avisos para “poupar dinheiro”. Os condicionamentos  poderiam ter sido evitados se os sistemas de saúde tivessem sido devidamente financiados, equipados e dotados de pessoal, em vez de terem sido esgotados e privatizados ao longo de décadas para reduzir os custos e aumentar a rentabilidade do capital.  Mas não o foram.

E há o quadro ainda maior.  Se tivermos bombeiros e equipamento suficientes, podemos apagar um incêndio de arbustos depois de muitos danos, mas se as alterações climáticas estiverem continuamente a aumentar as temperaturas, surgirá inevitavelmente outra ronda de incêndios.   Estes novos agentes patogénicos mortais estão a entrar no corpo humano porque a insaciável procura de lucro na agricultura e na indústria levou à mercantilização da natureza, destruindo espécies e aproximando os perigos da natureza da própria humanidade.  Mesmo que depois desta pandemia ser finalmente contida (pelo menos este ano) e mesmo que os governos gastem mais em prevenção e contenção no futuro, só o fim da procura do lucro por parte dos capitalistas poderá trazer a natureza de volta à harmonia com a humanidade.

Por agora, resta-nos salvar vidas ou meios de subsistência, e os governos não irão conseguir assegurar qualquer deles.

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[1] Publicado no blog A Viagem dos Argonautas com o título: Foi o vírus que fez isto

[2] UN- Global Preparedness Monitoring Board- A WORLD AT RISK. Disponível em:

https://apps.who.int/gpmb/assets/annual_report/GPMB_annualreport_2019.pdf

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Leia o artigo de Michael Roberts no original clicando em:

Lives or livelihoods?

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