A GALIZA COMO TAREFA – mitos – Ernesto V. Souza

Voltei terça feira da semana passada ao trabalho presencial. Fazer o teletrabalho que fazia diariamente no escritório, antes de que a COVID passasse de piada a drama. Porque não era possível fazer teletrabalho assim na casa. Muitas tecnologias, informes, directrizes e EPIS, mas a realidade continua um atraso, carregando no pessoal e há um monte de problemas por toda a parte.

Tudo rengeu e abalou com esta crise. Aconteceu muita cousa, mas são anedotas das de marcar na história. Os verdadeiros problemas continuam estando aí, evidentes à volta. São estruturais e não há nem catástrofe, nem colapso, nem peste, nem desfeita, nem tecnologia que os corrija. Revoluções ou quedas de impérios, talvez. Mas contudo, os mais dos problemas que ficam são a “normalidade”, a realidade que já não funcionava.

Bom, este ensaio de colapso civilizatório, serve quando menos para comprovar muitas cousas: que os políticos, continuam a viver na sua realidade paralela, aplaudidos ou apupados pelos intelectuais, académicos e jornalistas que pagam ou que aspiram a fazer parte desse grémio dirigente; que boa parte do pessoal tem uns limites para passar para o fascismo muito baixos; e que em geral as sociedades têm a capacidade de reação de um koala num incêndio. Frivolidade, desinformação, especulação, carestia da vida, miséria e filas da fame no dia a dia. Coloquem na classe que corresponde cada categoria, mas nada novo baixo o sol. Do resto, e para consequências imediatas e direitas, quando menos cá, que temos um rio com caudal, observo desde que se pode sair a passeio que já há cada vez mais e mais tribos habitando baixo as pontes.

Não escrevo muito porque tenho nada a dizer. Que estamos nas mesmas, passando este sítio e tratando de levar os pequenos dramas que nos tocaram, como podemos. Mas é para estes casos que serve ter uma biblioteca na casa.

Encontrei, ré-encontrei, pois tinha marcas a lápis de quem sabe quando, já de entrada uma maravilha no prólogo à segunda edição de Nosaltres el Valencians (març 1964) de Joan Fuster:

[…] també m’he negat a acceptar l’òptica submissa, dependent, que ben sovint deforma les conviccions ordinàries dels valencians i les condiciona al mite d’unes superestructures històriques alienes a la nostra nostra personalitat nacional. He procurat en tot moment qu l’anàlisi del “cas valencià” sigui apuntada en funció de criters i de factors valencians – només valencians -. I finalment, he tractact de subratllar, sempre, danvant cada episodi concret, la trama de les tensions i dels antagonismes socials – demogràfics i de classe, economics i de cultura – que podien facilitar-ne l’explicaciò o el sentit. Tampoc això no havia estat gaire freqüent, fins ara entre nosaltres. […] (Nosaltres, els valencians .- Barcelona : edicions 62, 1964, 2ª ed. p. 8)

1356640459_957081_1356640770_sumario_normalcomentei da minha admiração pelo de Sueca. Não apenas o estilo quanto o propósito de intervenção social, o jeito, a vontade comunicativa e o contexto. Cada vez me resultam mais interessantes e familiares.

Leio esse prólogo com admiração renovada, e um certo sabor amargo se me impõe. Salvando as distâncias e a comparativa impossível, tenho escrito durante anos, a respeito da Galiza, arredor da literatura e da história da língua e a cultura nesse esquema.

Tenho tratado de abrir caminhos, fugindo de rumores, mitos e de ditames aprendidos, e procurado ler com os próprios olhos, por extenso e em contexto, para achar explicações e hipóteses mais lógicas e racionais.

Portanto tenho, também, entrado em polémicas, as mais das vezes sem pretender, e tenho sido refutado também com uma certa violência. Hoje posso dizer, que mesmo sem ter conseguido mais que uma frustrante falta de diálogo intelectual e social, textos meus e propostas ultrapassadas e esquecidas para mim, de há 15 e 20 anos começam a fazer parte do repertório coletivo académico e cultural galego.

Continuo a pensar, com Fuster, que é capital analisarmos o “caso galego” em função de uma história própria, não de mitos, e não condicionada por umas super-estruturas alheias impostas pelo destino. A história da Galiza, em cada momento e como conjunto, é filha da atuação e vontade das suas poderosas elites, do estado que ajudaram a criar e no que são protagonistas, não vítimas; dos seus triunfos de classe, interesses e ligações com os mais altos poderes no percorrer da história. E é portanto interrelacionada a história da derrota de uma elite alternativa, mais localista, atlântica, empreendedora, portuária, comercial e industrial, inábil para superá-la e também incapaz de tecer as alianças certas com as classes populares.

Roma, o Papado, o Reino, a cristandade, a expansão por Castela, as separações de Portugal, os Reis Católicos, Madrid, o Centralismo, a doma e castração não fazem tanto sentido na narrativa quanto a trama das tensões, dos antagonismos sociais e de cultura, da analítica dos projetos nos que, as nossas elites, se envolvem, contornam e participam, esmagando toda oposição, e desbotando os interesses das demais classes, de ontem a hoje.

Talvez por evidenciar isso, nos meus textos espreita uma sensação de virulência, de oposição, que (não sendo propositada e sendo chocantemente contrária à minha natureza e expressão) parece procurada, em contraste com o estilo suave e humorista. Mas a razão – acho – é evidente e deixo melhor dizer a Fuster:

Perquè no ens hem pas d’enganyar: el cavall de batalla era, és i serà allò que, per emprar un eufemisme viable, he anomenat «decisió de futur». És per ací que passa la frontera divisòria. A l’una banda, hi ha aquells qui afirmen que ja estem bé com estem, que vivim en el millor delsmóns possibles, i que la «província» claudicada, la dimissió lingüística i les ficcions fòssils són ideals desitjables; a l’altra banda, els qui ens refusem a la vergonya d’una trista alienació nacional, els qui creiem que els valencians podem ésser un poble sa i coherent, els qui ansiem per al nostre país una plenitud nova. L’immobilisme i el renunciament, satisfets, indueixen a la més tosca de les inhibicions, a la paràlisi, a l’apatia. «Los valencianos se contentan con sólo el nombre de reino que poseen», ens reprotxà algú, durant la crisi del 1640 —segons reporta el cronista Melo i recordava últimament Martí Domínguez—. Avui n’hi ha que s’acontenten amb molt menys. Però «encara hi ha fe a Israel…». Encara quedem valencians, molts valencians, cada dia més, que no volem resignar-nos a perdre la nostra entitat individuada, que no volem deixar d’ésser el poble que som, que no volem cedir a la dissolució ni a la indiferència. El meu llibre ha polaritzat, per un instant, aquesta tibantor interna. Ni que només fos per a això, ja valia la pena d’haver-lo escrit. (p. 10-11)

1 Comment

  1. Muito bom, mas é tudo (acho) insinuação e um fica a pensar que a entrada ao banquete foi boa, mas tem de virem mais pratos.
    Joan Fuster é um dos meus pensadores favoritos. Nossaltres els valencians é uma maravilha…mas tudo nele é uma verdadeira enciclopédia de te amossar caras e caras ocultas do poliedro, que um nem imaginava que existiam.
    O nacionalismo galego em geral tem uma imagem da Catalunha muito pobre, tão pobre que acabam pensando que Valência é espanha. A Galiza tem em Valência o melhor dos espelho para se entender

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